Com terra, dança e referências ao Samba de Pareia da Mussuca e aos Kariri-Xocó, o artista Jonathan Rodrigues mistura performance, memória e manifestações populares para recontar histórias deixadas à margem.

Ao entrar na sala de paredes pretas, nos deparamos com Jonathan já circulando pelo meio, como se ignorasse o montante de terra presente no canto, fazendo dele quase que uma alucinação. Ele olhava com alegria para cada rosto que buscava o seu lugar. Era convidativo estar ali entre aquelas paredes pretas.
Com os pés e o peito descalços, Jonathan aguardava, em seu silêncio, os seus espectadores se aconchegarem. Assim que a sala de paredes pretas ficou lotada, o artista começou a agradecer. Era o início de uma vertiginosa noite.
A luz baixou o seu tom no mesmo movimento que Jonathan curvava o seu corpo para a frente. Pela pele que desenhava os seus músculos, dava para ver que algo remexia ali dentro. Era chamando alguém. O seu eu-ator ou seu eu-ancestral. Não dava para saber ao certo, mas quando a primeira palavra formou em sua boca, todo o ambiente entre aquelas paredes pretas foi tomado por uma energia frenética.
Jonathan dançava, rodopiava, seus braços iam para frente e para trás em movimentos que pareciam inumanos. Em um instante que beirava o imperceptível, ele tomou um punhado de terra entre as mãos e começou a espalhar por onde estava. A areia que sobrevoava sobre os cabelos dos espectadores se assemelhava a uma neblina, tudo era turvo, até o cheiro denso de terra seca que consumia o ar.

E foi dentro daquela fumaça que Jonathan resgatou os nomes de quem faz Sergipe ser Sergipe. Rasgou o véu da “sergipanidade”, deixando claro que não passa de uma mercadoria, para que desse lugar às identidades que construíram o pertencimento daquelas pessoas que lhe assistiam. Até dele próprio.
O seu manifesto era voraz, o suor em seu corpo escorria feito rio, se misturando com a terra se transformava em lama em sua pele. Dava para ver como o artista e o elemento se fundiam entre aquelas paredes pretas. Assim como dava para ver a tentativa inebriante de formar uma nova Sergipe.
O espetáculo Corpo-Terra terminou, deixando para trás — e para o futuro — uma angústia do que a sergipanidade é: esquecida do Samba de Pareia, do Cacique Serigy e dos quilombos. Não existia mais um montante de areia, estava espalhada pelo chão e tragada em nossos pulmões.
O nascimento do Corpo-Terra e uma outra sergipanidade
Jonathan Rodrigues é de Aracaju, Sergipe. Em suas andanças por essas terras, ouviu muitas perguntas sobre sua naturalidade. Com sua pele preta e os cabelos, na época, em dreads, questionavam se ele era baiano. A inconformidade por seu corpo ser associado a outro lugar lhe fez refletir sobre o que tornava uma pessoa sergipana, sendo isso uma das principais inspirações para a peça reproduzida na sede do Grupo Imbuaça.
Sergipanidade. Termo que começou a ser perpetuado por Sílvio Romero, filósofo, literato e político. Ele defendia que as culturas e tradições de Sergipe vivem na alma do povo e são representadas nos modos de falar e de viver. Mas essa sergipanidade foi ganhando novas máscaras ao longo dos anos.
“A gente constrói uma ideia de sergipanidade em cima de grupos como Samba de Pareia, que é um grupo de idosas e que sofre diversos atravessamentos, porque talvez não sejam consideradas como detentoras de um saber também artístico-cultural nas suas contratações, nas suas participações em eventos culturais, que legitimam o lugar da Sergipanidade, mas muitas vezes não pagam nem o cachê delas”, disse Jonathan.
O Samba de Pareia vem do quilombo Mussuca, ou Muçuca, que fica em Laranjeiras, município a menos de 30km da capital, Aracaju. A sua dança é marcada pelas batidas dos pés no chão, em que mulheres se reúnem para celebrar o nascimento de um bebê ou em festas tradicionais, como o São João. E é essa dança que Jonathan resgata em seu espetáculo, dançando para o público o que viu quando morou, por seis anos, no quilombo, junto com Leo Maia Kijanja.
“O Samba de Pareia veio e está como essa presença que sustenta, mesmo quando ainda elas [as dançantes] só saem para essas apresentações folclóricas lá fora, com as aquelas roupas coloridas, que não é da tradição mesmo, é uma coisa para apresentação, traz essa força, essa memória, abre essa espiral, essa roda que ali se celebra o espírito de comunidade” explicou Leo Kijanja, que produziu a peça junto com Jonathan.
Por meio da arte, o espetáculo escancara que, mesmo o quilombo sendo parte das raízes de Sergipe, ainda há muitas violências que tentam apagar a história das pessoas que vieram antes e das que estão hoje lutando até por uma água de qualidade, pelo território e pela cultura do lugar.
“Não é a arte que é só contemporânea, essas práticas são contemporâneas. E dentro dessa contemporaneidade, elas são atravessadas por problemas. Essas pessoas sofrem por questões sociais. Na Muçuca falta água até hoje. A água que sai da torneira da Muçuca é uma água salobra. A Muçuca sofre com o território sendo toda hora ameaçado por empresas que querem entrar naquele território para transformar em campo de mineração. Então, por que que a gente não tá falando sobre isso? Isso também é Samba de Pareia, Isso também é Muçuca”, falou Jonathan, com tom de indignação.

Mas não só o samba está presente na composição do espetáculo, o artista também retoma a ancestralidade indígena para tentar reescrever a própria história do estado. O Cacique Serigy, líder indígena Tupinambá, que resistiu bravamente para proteger as terras da invasão portuguesa, é lembrado e até convocado a participar da peça a partir da maldição que ele rogou em Sergipe antes de morrer: nessa terra, nada daria bons frutos.
Jonathan também resgata e faz presente o povo Xocó e Kariri-Xocó, comunidade indígena que se firma ao redor do Rio São Francisco. O artista lembra de Idiane Crudzá, que vem realizando um trabalho de acordar a língua indígena Kariri-Xocó por meio da escola livre Swbatkerá, ensinando as crianças a sua língua materna. Um trabalho de resistência para que o seu povo não seja esquecido.
“Então, essa narrativa me provocou. A narrativa oficial da maldição do cacique me provocou a ir atrás de outras narrativas. E foi pisando na aldeia que eu descobri que cacique Serigy tá vivo. Ele não morreu, não, o espírito dele tá aqui, sim. Tá agindo em Idiane, em Joseane Xocó, em Apolônio… ele tá vivo. Estamos agindo. Essa vida é contemporânea, ela não é passado, como às vezes o folclore é, coloca de que é uma coisa lá do passado. Não, é aqui. Tá acontecendo aqui, ao longo da história, mas está presente nos nossos corpos”, disse Jonathan.
Corpo-Terra, Corpo-Documento
Beatriz Nascimento foi uma pesquisadora importante para os campos da história, sociologia e até da comunicação. As suas pesquisas questionavam a presença do corpo negro em diferentes espaços, seja na própria academia, ou nas artes, ou nas mídias. Nasceu em Aracaju, Sergipe, e levou para o mundo reflexões estruturais sobre a sociedade em que vivia.
É ela que apresenta o pensamento de Corpo-Documento, refletindo sobre como o próprio corpo carrega memória e uma grandiosa parcela da história que compõe a sociedade. É nesse corpo-documento que estão as marcas da colonialidade. Em um ensaio, Diegos dos Santos Reis, professor da Universidade Federal da Paraíba, destaca que “o corpo-documento ensaia travessias, trajetórias, trânsitos insuspeitos que re/orí/entam, nas trilhas de Beatriz Nascimento, aquilo que precisa atravessar o corpo que (se) educa e que, por isso, pode afetar as pessoas diante das quais se posiciona.”

Em Corpo-Terra, Jonatha utiliza o seu corpo e das suas marcas para construir uma narrativa sobre o seu território. “O meu corpo é um start só, ele não é o protagonista. Eu gosto de pensar dessa forma, porque eu preciso que a obra chegue nos outros, que não seja através só do meu corpo, mas através de questões que sejam comuns a nós brasileiros”. E ainda acrescenta que “a minha intenção com esse trabalho é justamente não ter foco no meu corpo, é ter foco nessas questões políticas, nas questões sociais, nas questões históricas, na denúncia do que esses territórios sofrem dentro do Estado.”
Essa construção parte de uma pesquisa mais aprofundada, que busca nas discussões de Beatriz Nascimento uma ancoragem para pôr em prática a sua teatralidade. “Entra na própria preparação também para cena, que vai conversando com estudo, uma pesquisa mais ampla que tá envolvida nos estudos de Jonathan, que é essa de buscar as práticas que estão envolvidas nesses territórios para despertar o corpo, a voz, a consciência, a presença”, disse Leo Kijanja.
Os pés descalços de Jonathan durante a apresentação não surgem do acaso, é uma necessidade de se conectar com o chão em que pisa. “Eu geralmente penso que essas práticas do samba, do toré, essas práticas de bater o pé no chão, pelo menos como eu vejo, como eu sinto no meu corpo, é como se o corpo tivesse batendo no chão para não esquecer quem é, para se lembrar de quem é, como se tivesse acordando a terra para isso. Para lembrar de quem é e para anunciar quem é o mundo”, enfatizou o artista.