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ENRIQUE DUSSEL (1934-2023): os legados potentes e decoloniais de um dos mais originais pensadores do continente latino-americano

ROMERO VENÂNCIO, especial para Mangue Jornalismo

Faleceu domingo (5/11) o filósofo argentino Enrique Dussel, um dos mais originais pensadores do continente latino-americano. Dussel foi um filósofo de formação na Argentina, com pós-graduação na Europa em Filosofia (França) e História (Espanha) e com profundo conhecimento em Teologia.

Articulou de maneira original Filosofia, História e Teologia. Participou desde o início do movimento da “Teologia da Libertação” na América Latina e foi fundador do CEHILA (Comisión para el Estudio de la Historia de la Iglesia en América Latina y el Caribe) nos anos 70.

Lecionou na Argentina até 1975, quando foi ameaçado pela extrema direita argentina. Costumava dizer em forma irônica que foi o “único filósofo no continente a ter sua casa atingida por uma bomba” em represália às suas aulas na cidade de Mendonça. Dizia que a direita argentina não suportava suas aulas e sua maneira de ensinar a pensar livremente.

Exílio no México

Dussel foi para um longo e produtivo exílio no México. Trabalhou na prestigiada UNAM (Universidade Autônoma do México) ao lado de pensadores como Leopoldo Zea. Ainda nos anos 70, no México/UNAM, produziu o seu mais ambicioso projeto filósofo: a “Filosofia da Libertação” em vários volumes a partir de aulas, debates e escritos para cursos.

Ele passou a ser um dos mais singulares pensadores no continente latino-americano. Tudo indicava que tínhamos agora uma filosofia própria no continente latino desde os debates entre Salazar Bondy (Peru) e Leopoldo Zea (México) durante os anos 60.

Ao mesmo tempo em que ensinava na UNAM, participava de vários projetos acadêmico-políticos. Participou do encontros com vários teólogos/teólogas latino- americanos em vários países do continente. Participava de mais uma empreitada original: a Teologia da Libertação.

Não apenas observava ou discutia, passou a escrever sobre história da Igreja na América latina, a colonização religiosa e as consequências para as populações indígenas e negras (reparemos que foi “decolonial” antes mesmo de surgir o termo!).

Nunca descuidou de acompanhar politicamente o continente latino. Combateu as ditaduras, estudou as resistência armada e não-armada, as lutas populares, apoiando os desfechos democráticos e o nascimento de uma esquerda democrática e popular em vários países da América Latina nos anos 80 e 90.


Dos Zapatistas aos Bolivarianos

Dussel saudou com fervor os Zapatistas no México ou a Revolução Bolivariana na Venezuela. Combateu sempre o bloqueio criminoso à Cuba. Cuidava de visitar a América Central e conhecer a produção filosófica em Honduras, Costa Rica e Nicarágua (de quem foi amigo do filósofo Alejandro Serrano Caldera).

Esteve várias vezes no Brasil desde os anos 80. Tinha amigos e amigas do Nordeste ao Sul. Vários brasileiros e brasileiras estudaram sua obra e escreveram dissertações e teses sobre sua filosofia. Como bom argentino, a única grande diferença que tinha conosco era no futebol. Ninguém é perfeito!

Sem preconceitos ou sectarismos, Dussel polemizou com os pensadores europeus. Leu muito a tradição ocidental e tinha uma profunda divergência com a “herança colonial” que pesava sobre a cultura latino-americana.

A escravidão negra e indígena era seu ponto de partida. Não “passou pano para a Europa” e nem acreditava ser possível filosofar apenas em “grego e alemão”. Para ele esta frase era o cúmulo do eurocentrismo e das tolices afirmadas por grandes filósofos que tinham sempre seus momentos de idiotas de plantão.

Discutiu, discordou ou admirou pensadores/pensadoras na Alemanha (país que lhe deu sua companheira de matrimônio), França (que morou e estudou), Itália, Espanha… E a Grécia contemporânea.


Intensa produção decolonial

Enrique Dussel produziu muito. Livros, artigos, ensaios, textos jornalísticos. Foi um filósofo completo. Formou uma grande geração em todas as Américas. Orientou muitas teses. Aprendeu muito com seus orientandos, como sempre afirmava. Em síntese, um filósofo democrático.

Sempre em busca de desafios e em desconforto com as formas consolidadas de pensamento, em suas últimas três décadas de pesquisa, procurava um encontro original entre os pensamentos latino-americano, africano e árabe/islâmico. Era o que se denominava de “Diálogo Sul-Sul”. Sem dúvida, é a mais relevante posição “Decolonial” que temos em nosso continente.

Ele abriu um caminho extraordinário para as gerações mais novas e ávidas por filosofia num diálogo para além da Europa. Foi um pilar para um pensamento autenticamente latino.

Um momento marcante na história de Dussel: o (re)encontro com as “Madres de la Plaza de Mayo” na pessoa de Hebe de Bonafini, gravado para sempre no Youtube e que recomendamos ardorosamente. Emociona.

Por fim, não podemos desconsiderar que durante a pandemia da Covid 19, Enrique Dussel entrou em definitivo nas redes digitais (principalmente no Youtube) com uma série de cursos sobre sobre Estética, Política, Decolonialidade, Religiosidade, Ontologia… Tudo bem calibrado com a cultura latino-americana. Um imenso pensador que fará imensa falta.

Enrique Dussel, presente!!!


Romero Venâncio é graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia do Recife (ITER), em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutorado Interinstitucional em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professor de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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