Enquanto dom Luciano Duarte colaborava com a ditadura, a Diocese de Propriá resistia ao regime

OSNAR GOMES DOS SANTOS, especial para Mangue Jornalismo
(osnar.gomes@hotmail.com)

Ofício sigiloso da ditadura classifica dom Luciano como “informante” (Crédito UFS).

É importante observar o comportamento da arquidiocese de Aracaju para compreender o ambiente mais geral que dominava a Igreja em Sergipe na década de 1980. Enquanto a diocese de Propriá selava o seu giro progressista, a arquidiocese de Aracaju caminhava num caminho inverso. E esse caminho começou a ser pavimentado ainda no limiar da década de 1970.

Com a morte de Dom José Vicente Távora, conhecido como o “bispo dos operários”, no ano de 1970, o então bispo-auxiliar de Aracaju, dom Luciano Cabral Duarte, assumiu o pastoreio da arquidiocese de Aracaju.

Diferente de dom Távora, o seu substituto não era um alienígena de fora do Estado. Dom Luciano era natural de Sergipe, figura bastante conhecida entre variados segmentos da sociedade sergipana. No campo político, não suscitava as mesmas desconfianças da ditadura que dom Távora.

O historiador Ibarê Dantas fez uma breve descrição das diferenças entre os prelados. Sobre dom Távora, comentou:

Dom Távora era fisicamente corpulento e relativamente alto. Maneiroso e paternal, revelava-se aberto aos problemas do mundo e com grande senso de compreensão diante dos agnósticos. Tolerante diante dos amigos e de todos os discordantes, enfrentava os adversários de forma cautelosa, inclusive na escolha dos meios. Preocupado com o drama dos trabalhadores rurais e urbanos, era um obstinado pela sua conscientização.[1]


Enquanto isso, dom Luciano, seguindo a descrição de Ibarê, era detentor de estatura relativamente baixa, pouco atarracada, e mais: “nos contatos informais, demonstrava polidez, mas, quando envolviam relações de poder, revelava-se impositivo e arranhento”. Assim Ibarê encerrou suas considerações sobre dom Luciano:

Apesar de apresentar-se cheio de certezas esquemáticas e precisas, segundo o padrão escolástico, dissimulava o seu dogmatismo com alguma dose de pragmatismo. Determinado, até diante de autoridades civis, lutava por suas reivindicações sem medir os meios para atingir seus fins. Nos embates não sabia transigir. Geralmente mostrava-se inflexível e impiedoso com os divergentes e somente descansava quando abatia os adversários […]. Tinha quase tudo para ser grande liderança no Estado, mas seu fechamento ideológico e, sobretudo, sua intolerância com os discordantes, fizeram-no colecionador de desafetos, não obstante manter um grupo de admiradores reverentes.[2]

Dom Luciano assumiu o arcebispado pouco tempo depois de completar 46 anos de idade. Quinze anos mais jovem que dom Távora. Apesar das diferenças salientadas pelo historiador Ibarê Dantas, importa dizer que, em muitas ocasiões, os dois prelados estiveram em sintonia.

A título de exemplo, a maior iniciativa de dom Luciano, quando ainda era bispo-auxiliar, foi chancelada por dom Távora. Tratava-se de uma experiência no campo que objetivava a implantação de fazendas comunitárias e, posteriormente, cooperativas agrícolas.[3] Nesse primeiro momento, a experiência chamada de Promoção do Homem do Campo de Sergipe (PRHOCASE) virou o maior galardão de dom Luciano.


O doutorado de dom Luciano na Sorbonne  

O novo arcebispo era um intelectual tradicional da Igreja. Ainda padre, viajou para Paris a fim de cursar o Doutorado em Filosofia na Universidade de Sorbonne. Orientado por Ferdinand Alquié, a sua banca foi composta por nomes conhecidos da intelectualidade internacional, como Paul Ricoeur.[4]

O então padre Luciano, no ano de 1957, recebeu Très Honorable, o título de doutor com a mais alta menção da Sorbonne. Voltou para Sergipe com a tese, A Natureza da Inteligência no Tomismo e na Filosofia de Hume, devidamente defendida.

Ainda na década de 1950, participou da criação de duas faculdades no Estado. Era, notadamente, um homem interessado no amadurecimento do campo educacional sergipano. Afinado com a nova ordem instaurada em 1964, foi convidado a participar do Conselho Federal de Educação (CFE). O Colegiado que o escolheu para o cargo argumentou que o seu vasto currículo acadêmico o credenciava para o CFE. Disseram estar indicando “um dos padres mais cultos do clero”.[5]

Àquela altura, dom Luciano também era reconhecido por sua importância na regulamentação da disciplina Moral e Cívica. Gradativamente, Luciano avançava suas peças no xadrez político e religioso, tanto no plano estadual quanto no nacional.


Conflitos entre dom Luciano e movimento estudantil na criação da UFS

Em fins da década de 1960, dom Luciano defendeu a criação de uma universidade federal em Sergipe. Porém, sua defesa pelo modelo de gestão universitária fundacional causou revolta no movimento estudantil.

Em decorrência do alinhamento de dom Luciano com títeres do Ministério da Educação e do governo Costa e Silva, o então bispo-auxiliar e membro do CFE foi chamado por líderes estudantis de “dedo-duro”.[6]

Ato do movimento estudantil em Aracaju. (Crédito: Milton Alves Júnior, 2018).

O movimento estudantil temia as suas intenções. Wellington Mangueira, que era líder estudantil, versou sobre os motivos das desconfianças dos estudantes diante do modelo de gestão defendido por dom Luciano:

[…] nós decidimos que a forma de Fundação era para que a Igreja Católica ficasse como mentora de tudo aquilo. Então, era uma perspectiva que se abria diante dos nossos olhos de que aqui ele [dom Luciano] pretendesse criar uma espécie de PUC […], e, como algo particular, se bem que feito com verbas públicas, nós temíamos que essa Universidade viesse a ser paga.[7]


Com temor ou não, a Universidade Federal de Sergipe foi criada no ano de 1968.[8] Para muitos, tratou-se de uma nova realização de dom Luciano no campo educacional. Suas peças no xadrez político e religioso avançavam. Seu prestígio dentro da ordem autoritária também.

Chegada do padre Emile Dion e o início da crise na arquidiocese de Aracaju

No campo religioso, dom Luciano reforçou a sua sintonia com o poder vigente em 1969. Neste ano, as relações entre ele e dom Távora foram estremecidas. Tudo começou com a chegada do padre canadense Emile Dion à arquidiocese de Aracaju.

Dom Távora solicitou à província canadense de Montreal um padre com os seguintes requisitos: ele deveria conhecer o Brasil, entender da organização pastoral, ter uma vida ilibada e ser maduro.[9] Atendendo ao pedido do arcebispo, chegou à capital sergipana o padre canadense Emile Dion.

Não era um padre desconhecido da comunidade de informações da ditadura. O jornal Cidade de Santos publicou que o nominado, junto de outros 40 sacerdotes, distribuiu manifesto alusivo ao Dia do Trabalho, entendido como um manifesto que colocava trabalhadores contra o governo.

Em novembro, o padre foi acusado de emprestar o mimeógrafo da Ação Católica Operária (ACO) de São Paulo para a confecção de panfletos subversivos. Para piorar sua reputação entre os órgãos de espionagem, ainda naquele ano, o padre participou da marcante greve dos operários de Osasco.[10]

Vindo desta cidade paulista e com passagem pelo Dops, em outubro de 1969, o padre Dion chegou a Sergipe. Na arquidiocese, sob a orientação de dom Távora, assumiu o trabalho pastoral. Nele, preparou novos agentes de pastoral e cuidou da questão da religiosidade popular. Após acerto, foi escolhido por dom Távora para coordenar o recém-criado Centro de Formação Teológico-Pastoral. Essas informações foram fornecidas pela própria arquidiocese ao Departamento de Polícia Federal de Sergipe.

O Centro de Formação Teológico-Pastoral tinha como diretor o arcebispo dom Távora e como vice o bispo-auxiliar dom Luciano.[11] Não tardou para que surgisse um grande problema.

Dom Luciano entregou cópia de anteprojeto elaborado pelo padre Emile Dion 

Em março de 1970, dom Távora solicitou ao padre Dion que elaborasse um anteprojeto do Plano Pastoral a ser apresentado na sessão do Conselho Presbiteral. No dia 17 de março, o padre Dion apresentou o anteprojeto.

Segundo informações obtidas pela polícia federal, Dion alegou que a situação existente no país comportava uma reação violenta. Após a sua fala, uma discussão se iniciou com dom Luciano, que discordava das suas ideias sobre a “Revolução de 64”. Ao tomar conhecimento dos fatos, a polícia federal convocou vários padres – participantes da sessão – para serem ouvidos na subdelegacia regional.

Um dos religiosos ouvidos pela instância policial foi José Carvalho de Souza. O conhecido padre José Carvalho, então reitor do Seminário Arquidiocesano e diretor do colégio Arquidiocesano, confirmou ter participado da sessão. Comentou que o anteprojeto do padre Dion não foi aprovado naquela reunião, ficando para ser reformulado e apresentado em outra oportunidade. O padre Carvalho defendeu Dion ao dizer que não observou qualquer manifestação de subversão dentro do seu plano.[12]

Depoimento do padre José Carvalho de Souza. (Crédito: Arquivo Nacional).

Contudo, a polícia política não focou a sua investigação apenas em testemunhos oficiais. Às escondidas, a polícia obteve um recurso alternativo para sustentar suas suspeitas contra o padre Dion, a saber: a colaboração de dom Luciano.

Um prontuário do Centro de Informações do Departamento de Polícia Federal (CI/DPF) apontou que, através de dom Luciano, a polícia federal conseguiu uma cópia do anteprojeto apresentado pelo padre Dion.[13]

Fragmento do prontuário do CI/DPF. (Crédito: Arquivo Nacional)

Os objetivos do anteprojeto foram interpretados pela polícia como “contrários ao atual Governo brasileiro […] e um perigo para a Segurança interna do país”.[14] A polícia política identificava o padre Dion como protegido por dom Távora e contestado por dom Luciano.[15]

De fato, dom Távora procurou proteger o padre Dion. É relevante dizer que, em 16 de março, um dia antes da sessão do Conselho Presbiteral, o arcebispo recebeu uma correspondência do delegado de polícia Oswaldo de Albuquerque Mello.

O delegado lhe confessou ter recebido do Dops de São Paulo informações sobre as “atividades subversivas” do padre Dion naquele Estado.[16] Ainda assim, dom Távora não recuou e manteve a apresentação do padre na sessão do dia 17.

Por sua vez, o bispo-auxiliar, dom Luciano, trocava correspondências com um delegado da polícia federal, por onde fornecia informações sobre aquela sessão.[17] O delegado solicitou a dom Luciano uma cópia do anteprojeto do padre Dion.

Importa destacar que, num primeiro contato, dom Luciano admitiu não se sentir à vontade em enviar a cópia do anteprojeto de Dion ao delegado de polícia. Algo que foi compreendido por este, cujo nome não é identificado nas correspondências.

Porém, depois de algum tempo, disse o delegado: “Finalmente, conseguimos do próprio Dom Luciano Cabral uma cópia do ante-projeto [sic] do plano pastoral que foi apresentado pelo padre Emílio Dion”.[18]

Tratado como “informante” em uma das correspondências, dom Luciano recebeu os elogios do delegado por seu patriotismo e pelo seu amor ao Estado e ao Brasil.[19] O delegado ainda frisou que os contatos rotineiros com o arcebispo “permitiu-nos conhecer a sua fé religiosa”.

No final do caso Dion, dom Távora conseguiu aumentar a suspeição contra o seu trabalho, afinal, um padre defendido por ele caía na mira da polícia política. Enquanto isso, dom Luciano selava mais um pacto, nas sombras, com os títeres dessa mesma polícia.

Naquele ano de 1970, dom Távora teve o seu terceiro infarto. Dessa vez, não resistiu. Com a morte de dom Távora, o padre Dion perdeu o seu principal defensor. E a presença de Dion no Estado perdeu o seu sentido.

No prontuário do CI/DPF, aparecem informações de uma carta enviada por dom Luciano a um bispo cujo nome não foi identificado. Na carta, dom Luciano teceu algumas críticas ao trabalho do padre Dion, que, àquela altura, arrumava as malas de volta para o Canadá. Assim o prontuário policial descreveu a carta:

Na carta, D. Luciano faz severas críticas às ideias avançadas do marginado [Dion], e aos problemas que ele criou na Arquidiocese de […] Aracaju, onde elaborou plano para o “Centro de Formação Teológico-Pastoral” […], plano este nitidamente subversivo, onde pregava contra o Governo Federal e a sua derrubada. Consta ainda na carta que o marginado [Dion] viajou para o Canadá, a chamado do Superior de sua Congregação.[20]

No lugar do “bispo dos operários”, arquidiocese de Aracaju ganhou um intelectual comprometido com a ditadura

Com tamanha força política e reconhecido pelo seu engajamento no campo educacional, não foi surpresa a nomeação de dom Luciano ao arcebispado metropolitano de Aracaju, no dia 12 de fevereiro de 1971.

Nesse momento, o padre Dion já estava de malas prontas. Mas não só ele. Os padres do Comitê França-América Latina (CEFAL), que chegaram a Aracaju no início dos anos 1960, também foram embora.[21]

Segundo Ariosvaldo Figueiredo, o clima da Igreja em Aracaju era de tensão e de vigilância.[22] Em sua coluna no jornal Gazeta de Sergipe, Ariosvaldo comentou sobre a saída dos padres. Para estes, fez um apelo:

Não, meus caros, não voltem para a França, para a Europa querida, continuem no Brasil. Este país é grande demais, dá para todo mundo. Já Sergipe é pequeno, tão pequeno que vocês, já grandes, não couberam dentro dele.[23]

Conforme defendeu Ibarê Dantas, a saída dos padres foi comemorada pelas autoridades policiais. Estava dada a libertação dos alienígenas estrangeiros e consumada a queda dos divergentes.[24] Em sua conclusão, Ibarê apontou que, no Estado de Sergipe, consolidava-se o pacto entre as elites civis, militares e eclesiásticas, tornando a sua estrutura de dominação mais estratificada e resistente a mudanças.[25] 

A situação de dom Luciano seguia um caminho ascendente. De acordo com a sua biógrafa, Gizelda Morais, no mês anterior à posse, o prelado foi escolhido pela Assembleia Nacional da CNBB um dos seis membros da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP). Sob a sua responsabilidade, ficaram os setores da educação e catequese.

Meses depois, a comissão representativa da CNBB o elegeu para compor o Conselho Diretor Nacional do Movimento de Educação de Base (MEB). Em seguida, foi eleito presidente do MEB para um mandato de três anos.[26]

Mas a sua maior conquista veio no ano seguinte. A Assembleia Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), reunida em Sucre, na Bolívia, o elegeu presidente do Departamento de Ação Social da entidade.[27]

Desse modo, a arquidiocese de Aracaju passou a ser liderada por um religioso bastante influente no campo católico e adversário das ideias do clero sintonizado com o chamado campo progressista. Sua oposição à Teologia da Libertação e à opção pelos pobres era declarada. Então, fica a questão: como ficou sua relação com a diocese de Propriá?

Dom Luciano assume comprometido com a ditadura (Crédito: Arquivo UFS)

As peças do xadrez religioso no Estado de Sergipe eram complexas. Estar identificado com o campo mais conservador não impediu dom Luciano de se solidarizar com o clero da diocese de Propriá e de buscar entendimentos diante dos conflitos.

Em algumas ocasiões, não o impediu nem mesmo de ser visto com suspeição pela própria ditadura em que se assentava. De todo modo, a sua posição não era a mesma que a da diocese vizinha. E esse fator ajudou a acelerar o desmanche do cristianismo da libertação no Estado.

“Neoconstantinismo às avessas”: a posição de dom Luciano sobre a opção pelos pobres

Uma rápida passagem por artigos em jornais e revistas, entrevistas, sermões e livros já denuncia o fato de dom Luciano ter sido um intrépido opositor da Teologia da Libertação e da opção pelos pobres na Igreja Católica.

Necessário identificar quais os argumentos usados por ele para seguir tal linha. Havia uma forte preocupação entre algumas alas do catolicismo quanto à possibilidade das ideias mais avançadas da Igreja sucumbirem aos encantos da modernidade. Disse dom Luciano: “E uma nova tendência surge, nos quadros da Igreja Católica, efeito e sintoma da época em que vivemos: o Temporalismo”.[28]

Para o arcebispo, há algumas décadas, os cristãos descobriram o valor de construir o mundo. Segundo ele, esses cristãos perceberam a injustiça social, a fome dos pobres e a falta de alojamento para o povo. Lamentando, afirmou que, pouco a pouco, as associações de apostolado foram deixando de lado seu objetivo propriamente espiritual.

Advogou que o pêndulo começou a oscilar para o outro lado. Em suas primeiras conclusões, defendeu: “E os cristãos de hoje, defrontando-se com o temporal, encantam-se com ele, e esquecem o espiritual, a vida interior, o ‘face a face’ com Deus”.[29]

Com o seu conhecido estilo provocativo, argumentou: Se um padre, hoje, quer ser “vedete”, a receita é simples: a um certo talento, bastará que ele ajunte alguns violentos ataques ao imperialismo norte-americano, de mistura com umas citações vagas de Karl Marx.[30]

Citando o dominicano francês Yves Congar, dom Luciano mencionou a tentação de se cair na “heresia do horizontalismo”. Dom Luciano chamou de “neoconstantinismo pelo avesso” a inversão do poder hierárquico instaurada na opção pelos pobres. Esta opção, por sua vez, foi por ele entendida como a realização de uma investida do grupo esquerdizante do catolicismo.[31]

Compartilhando ideias de outros teólogos, dizia que, sob o pretexto de rejuvenescer, a Igreja pós-conciliar procurava se adaptar à “sociedade antropocêntrica”, tornando secundárias a oração, a leitura da Bíblia, a frequência fiel à Missa e aos sacramentos.[32]

Nas sombras, dom Luciano agiu para frear ações do clero contra a ditadura

O historiador americano Kenneth Serbin lembrou alguns dos esforços de dom Luciano para neutralizar ações do clero contra a ditadura e frear o impulso das alas progressistas. 

Através de um levantamento de relatórios de encontros secretos entre militares e bispos, o historiador apontou que, durante a eleição da CNBB, dom Luciano trabalhou na organização de uma chapa de conservadores e manteve a ditadura informada dos seus progressos.[33]

Dom Luciano supria o alto escalão militar com as mais variadas informações. O arcebispo exerceu influência indiscutível no impedimento da publicação de um documento que, no ano de 1972, denunciaria torturas cometidas contra presos políticos.[34]

Durante um curso na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), dom Luciano se encontrou com Tarcísio Padilha. Colegas no CFE, os dois se encontraram em Aracaju, no Hotel Pálace. Padilha era professor de Filosofia e membro da Escola Superior de Guerra (ESG).

Dom Luciano declarou a Padilha os motivos de não dar a sua adesão ao documento eclesiástico que condenaria formalmente prisões arbitrárias e torturas, no ano de 1972. Dom Luciano declarou que:

não daria a sua adesão a um documento assim redigido, pois entendia que seria indisfarçável seu significado político. Isso porque não via qualquer referência ou expressa condenação aos assaltos que ocorrem diariamente nas grandes cidades e a outros crimes. A delimitação e restrição a torturas e a prisões tinham um sabor claramente unilateral e, certamente, manifesta propósitos políticos incompatíveis com um documento do episcopado.[35]

Alguns anos depois, dom Luciano repassou para Padilha informações sobre a política interna da Igreja, os bispos progressistas e as eleições da CNBB de 1974.[36]

Kenneth Serbin lembrou da publicação de um jornal mexicano sobre a polêmica carta enviada pelo bispo colombiano Alfonso López Trujillo ao arcebispo de Aracaju. Na carta, dom Trujillo pedia a dom Luciano que preparasse “seus aviões bombardeiros” para a Conferência de Puebla.[37]

Os títeres da comunidade de informações citavam publicações de dom Luciano sobre a chamada Igreja Popular.[38] Buscavam compreender, através dos textos do arcebispo, a situação do clero no Brasil.

Pode-se concluir que as posições de dom Luciano, direta ou indiretamente, alimentavam a suspeição da ditadura sobre as alas mais avançadas do clero. Seus artigos, como o que tratou do fascínio pelo marxismo no meio intelectual brasileiro[39], suas denúncias contra um suposto complô subversivo nos meios de comunicação[40] e suas asseverações contra ideias progressistas do clero justificavam a caracterização do arcebispo – feita por informantes da ditadura – como alguém “muito ligado aos setores do Governo”.[41]

“Fiz uma opção conservadora e caminho por ela”, dom Luciano (Crédito: Revista Veja, 30 de janeiro de 1980)

Dom Luciano endossou condenações à Teologia da Libertação

No que diz respeito aos posicionamentos de Dom Luciano no interior da Igreja, o arcebispo reforçou o movimento de reação preparado pelo Vaticano e pela Santa Sé contra a Teologia da Libertação. Dom Luciano defendeu as condenações contra o teólogo Leonardo Boff e foi um dos mais conhecidos críticos do livro Igreja: Carisma e Poder.[42]

Num artigo publicado para o Estado de São Paulo, que virou o livreto chamado O caso Boff e a rebeldia contra Roma, dom Luciano lamentou o apoio de bispos católicos ao livro de Leonardo Boff.[43]

O arcebispo condenou a insurgência dos bispos contra a punição da Santa Sé e disse que tal divisão entre o episcopado corroía o corpo da CNBB. Para ele, os cursos de teologia realizados em Itaici, São Paulo, consolidavam o robusto grupo “progressista” existente na CNBB. Defendia dom Luciano que eram produtos dos cursos: (1) os atos de revolta contra o papa João Paulo II; (2) a desunião entre os bispos; e (3) a semeadura de uma nova Igreja da qual o levava a perguntar se era a mesma de Jesus Cristo.[44]

Com efeito, dom Luciano ampliou a sua força naqueles anos em que a Igreja na América Latina sofreu uma inflexão profunda, em decorrência das medidas adotadas pela Santa Sé contra a Teologia da Libertação.

A maioria das posições de dom Luciano andou na contramão das posições do bispo da diocese de Propriá. Sobre a condenação de Leonardo Boff, o bispo de Propriá foi solidário ao teólogo. Diferentemente de dom Luciano.

As posições dos prelados sobre a legalização dos partidos comunistas também foram distintas. No período de redemocratização, houve uma grande discussão nacional acerca da legalização de partidos comunistas no Brasil.

Obviamente,a discussão bateu na porta da Igreja. Bispos com perfis mais conservadores – e até mesmo bispos com perfis mais progressistas, como dom Ivo Lorscheiter – manifestaram-se publicamente contra a legalização de partidos comunistas no país.[45]

Por sua vez, num tom que nada lembrava os velhos tempos de adepto da agenda do medo anticomunista, o bispo de Propriá argumentou que não cabia à Igreja opinar sobre a questão, pois aquele assunto não pertencia à esfera de trabalho da instituição.

Recorte de do Jornal da Cidade, 20 de junho de 1979.

Ainda defendeu que “nenhum cristão que deseje se filiar ao Partido Comunista, se legalizado, deverá ser punido pela Igreja, desde quando será respeitado o direito de livre escolha com base nos princípios filosóficos”.[46]

Enquanto dom Brandão procurou manter uma opinião equilibrada sobre o tema, distanciando-se da antiga postura anticomunista, dom Luciano explicava os motivos pelos quais os partidos comunistas deveriam ser ilegais. Disse ele: “os comunistas lutam pela legalização de seu partido para combater a democracia”.[47]

Dom Luciano era a voz firme contra o “comunismo” (Crédito: Revista Veja, 24 agosto de 1983)

Contudo, é curioso notar que, embora criticando também a Teologia da Libertação, dom Luciano não expôs em seus textos o bispo de Propriá. Ao que parece até aqui, os conflitos de ideias entre os dois se mantinha de forma não declarada.

Além disso, em alguns episódios, as posições dissonantes cederam espaço para trocas de correspondências e gestos de solidariedade. Porém, os desencontros e o mal-estar também foram presentes na relação entre as suas dioceses. Adiante, veremos as afinidades eletivas e as divergências menos sutis entre elas.

A relação complexa entre dom Luciano e a diocese de Propriá

O historiador Magno Francisco de Jesus Santos fez um importante alerta sobre os limites da tentativa de enquadrar sujeitos históricos em categorias predefinidas. Isso porque, segundo ele, tais categorias, como progressista e conservador, podem ser pouco condizentes com a vivência histórica, “na qual homens e mulheres apresentam-se em trânsito escorregadios e muitas vezes com ações e condutas distanciadoras do parâmetro estabelecido para o perfil preestabelecido”.[48]

Os homens e mulheres que fazem a história possuem várias camadas. O uso rígido de esquemas de classificação pode incorrer na cristalização dos sujeitos históricos.

As relações entre dom Luciano e a diocese de Propriá reafirmam a necessidade de problematizar tipos ideais, categorias predefinidas e esquemas de classificação. Por isso que a opção deste artigo foi a de seguir a “aplicabilidade circunscrita” no uso das categorias conservador e progressista.[49]

Mesmo reconhecendo as divergências entre as linhas político-eclesiais entre o arcebispo de Aracaju e a maioria do clero da diocese de Propriá, não foram poucos os episódios em que elas, simplesmente, não existiram. O próprio dom Luciano, visto como aliado da ditadura, teve um dos seus trabalhos, ainda na década de 1970, escrutinado pela comunidade de informações.

Na análise de Estrada de Emaús, livro de crônicas do arcebispo, publicado no ano de 1971, um informante da ditadura pontuou que dom Luciano “mostrou-se francamente favorável ao regime socialista”.[50] Dentre outros motivos, porque o arcebispo fez críticas ao capitalismo e defendeu alguns avanços políticos e sociais na socialista Iugoslávia.[51]

No que se refere ao episódio em que o bispo de Propriá foi acusado de comunista na Assembleia Legislativa da Bahia, dom Luciano saiu em defesa de dom Brandão. Enviou-lhe uma carta. Nela, o arcebispo disse:

Tomando conhecimento de que o prezado irmão no Episcopado tem sido ofendido, em várias ocasiões […], com a acusação de “ser comunista”, venho, por essas linhas, trazer-lhe meu abraço de solidariedade. Parece estar se tornando uma moda fácil acusar as pessoas, nas suas convicções mais íntimas, como não se percebesse a incompatibilidade radical entre a fé de um Bispo Católico, que tem como norma o Evangelho de Jesus Cristo, e uma ideologia materialista, que nega a existência de Deus, solapando a base mais profunda da nossa fé. Queira pois, caro Dom José Brandão de Castro, encontrar aqui a expressão de minha participação no seu sofrimento, pois esses incidentes são sempre profundamente desagradáveis.[52]

Acerca da desapropriação da área de Santana dos Frades, dom Luciano a considerou “um ato de justiça, com alcance social e à altura da consciência nacional e dos nossos dias”.[53]

Dom Luciano comemorou o fato de ter ficado no passado o tempo em que não havia sensibilidade para os problemas sociais. Vale lembrar também que, ainda a respeito do caso Santana dos Frades, dom Luciano prestou sua solidariedade aos agricultores. Algo reconhecido por um posseiro, que disse: “Dom Luciano, com padres e cristãos de Aracaju, também gritaram a nosso favor”.[54]

No que tange o problema agrário, um documento confidencial da polícia política citou um pronunciamento do arcebispo na Rádio Cultura, ligada à arquidiocese. Segundo o pronunciamento, dom Luciano defendeu uma reforma agrária que começasse pelo Nordeste e que a simples doação de terras não seria capaz de solucionar a questão fundiária.[55]

A simples defesa de dom Luciano pela função social da propriedade o distanciava das posições mais tradicionalistas que vinham das alas ultraconservadoras do catolicismo.[56] Ademais, dom Luciano usou o seu trânsito livre entre as autoridades militares para libertar alguns estudantes da prisão e de outros tipos de perseguição, como foi revelado por Ilma Fontes, que só conseguiu lecionar na Faculdade de Medicina graças à intervenção do arcebispo.[57]

No tocante ao conflito em Ilha das Flores, na chamada “guerra das fechaduras”, dom Luciano não disse se apoiava ou não o clero da diocese de Propriá envolvido na questão. Porém, argumentou que havia um relacionamento fraterno e amigo entre todos os bispos de Sergipe, “dentro do espírito da colegialidade episcopal”.

Quanto à orientação interna da pastoral de cada diocese, defendeu que “cada bispo se encontra com uma realidade diferente e tem os seus pontos de vista e os do seu clero, através dos quais ele orienta o trabalho pastoral da diocese”.[58]

Sobre a atuação de dom Brandão, no ano de 1980, dom Luciano disse ao Jornal do Brasil que respeita muito a sensibilidade e a maneira de viver de cada um.[59]

Nos bastidores, conflitos declarados entre dom Luciano e a diocese de Propriá

Embora com linhas político-eclesiais e percepções teológicas, na maioria das vezes, tão distintas, dom Luciano parecia se esforçar para que as relações entre as dioceses se mantivessem em harmonia.

Contudo, nem sempre foi assim. Por trás das palavras equilibradas, dom Luciano escondia a sua desaprovação a algumas iniciativas da diocese de Propriá, como revela uma correspondência ao núncio apostólico dom Carmine Rocco.

Nela, dom Luciano confessou ter estranhado a participação de Pedro Eurico de Barros, advogado da Comissão Justiça e Paz de Recife, na concentração que ocorreu em Aracaju, no dia 14 de agosto de 1980, e a presença confirmada de dom Hélder na missa de desagravo a dom Brandão que iria ocorrer em Propriá.

Correspondência enviada por dom Luciano para o núncio dom Rocco. (Crédito: Comissão Estadual da Verdade “Paulo Araújo Barbosa” – CEV/SE)

Para dom Luciano, era de se estranhar a presença de elementos da Igreja de Recife, dado que esta não pertencia ao mesmo Regional das dioceses sergipanas.

No dia 14, numa quinta-feira, cerca de mil pessoas se concentraram no Calçadão João Pessoa, no centro da cidade de Aracaju, numa manifestação de solidariedade aos posseiros de Santana dos Frades.[60]

O ato contou com a participação de nomes importantes do clero da diocese de Propriá. Dom Luciano disse ao núncio apostólico que a manifestação “teve uma conotação nitidamente político-partidária”. Salientou que foi informado por uma pessoa presente sobre os discursos no ato. Segundo relatou, teriam sido mais agressivos do que constava no recorte de jornal enviado por ele ao núncio.[61]

Dom Luciano afirmou que se ouviu muitas vezes a palavra “ditadura” e que o caminho era a “derrubada do regime”. O arcebispo também apontou falas que versavam sobre a necessidade de união entre camponeses, operários e estudantes.

Para ele, os discursos lembravam o ano de 1963, que precedeu os acontecimentos de 1964. Por último, frisou ser desnecessário dizer que nem ele, nem o seu bispo-auxiliar, dom Edvaldo Amaral, iriam para a missa de desagravo do dia 17. Ainda na correspondência, assumiu que sequer foi convidado.[62] Ora, a revelação dessa correspondência ao núncio revela que havia, indubitavelmente, um clima de tensão velado entre as duas dioceses.

Em palestra no 28º BC, Dom Luciano ameaçou deflagrar luta contra ala progressista e apontou “infiltração comunista” no país 

“Dom Luciano pregando contra o comunismo no 28º BC”. (Crédito: Gazeta de Sergipe, 25 de agosto de 1983, p. 2)

Dom Luciano condenava a “politização da fé”. Porém, é curioso observar que ele não pareceu se preocupar com a politização da sua própria fé quando ameaçou, no 28º Batalhão de Caçadores (28º BC), deflagrar uma luta contra a ala progressista do clero brasileiro.

Chamou essa de “uma luta pela verdade”, cujo objetivo seria o de corrigir “alguns enganos” que, segundo ele, vem ocorrendo depois do Concílio Vaticano II, onde a teoria da “socialização” procurou superar a Teologia.

No 28° BC, dom Luciano defendeu que pelo menos vinte dioceses brasileiras estavam trabalhando com a ideia da “politização”. O arcebispo criticou o que chamou de Igreja Popular. Para ele, embora se esforce, a Igreja Popular não estava organizada no Brasil, mas advertiu: “os germes estão aí”.

Em pleno ano de 1983, com a ditadura em seus estertores, dom Luciano proferiu no 28º BC – encerrando as comemorações da Semana do Exército – palestra cujo tema versava sobre “o comunismo na América Central, suas ramificações na América Latina e consequentemente no Brasil”. Na plateia, oficiais militares, soldados, autoridades do Estado e convidados.[63] Todos ouvindo atentamente, durante duas horas, os alardes de dom Luciano sobre a penetração comunista na sociedade.

Recorte do jornal Gazeta de Sergipe, 25 de agosto de 1983.

As posições dos senadores Lourival Baptista, Passos Porto e Jarbas Passarinho sobre dom Luciano e dom Brandão

Mantendo as relações com o status quo inalteradas, dom Luciano ouvia elogios de Lourival Baptista (PDS-SE) e do seu amigo Jarbas Passarinho (PDS-PA) no Senado Federal.[64]

A sintonia era tanta que Lourival Baptista levava para a tribuna do Senado textos de dom Luciano sobre questões sociais e religiosas. Numa dessas vezes, o então senador comentou uma carta de dom Luciano ao presidente da CNBB, dom Ivo.

Na carta, o arcebispo pedia o empenho de dom Ivo para que não houvesse distorção da letra e do espírito do Documento de Puebla. Lourival endossava o apelo do arcebispo na tribuna do Senado.

Por sua vez, no caminho inverso de dom Luciano, o bispo de Propriá ouvia daqueles senadores os mais variados impropérios contra o seu trabalho pastoral. Segundo publicação no jornal Estado de Minas, estampada nas páginas do Correio de Propriá, Lourival Baptista e Jarbas Passarinho, juntos do senador Passos Porto (PDS-SE), condenavam dom Brandão.

Para os senadores, o bispo de Propriá comandava “uma trupe de padres estrangeiros […] dispostos a mudar a face da Igreja de Cristo em nome da revolução social e da Teologia da Libertação”.[65]

Os reflexos da mudança de conjuntura na Igreja em Sergipe

A vida política nacional estava mudando de ares. Os ventos de outrora assopravam o país para a abertura do regime. Por isso, mesmo enfrentando a resistência de muitos segmentos políticos ligados ao governo, dom Brandão não ficou isolado.

No campo político dos anos 1980, havia, de fato, um equilíbrio de forças entre os bispos sergipanos. Além disso, publicamente, ambos procuraram mascarar as nítidas diferenças de linha eclesial. Vale lembrar também que, em muitas ocasiões, chegaram a caminhar juntos, como nos casos citados há pouco.

Não se deve esquecer que eram dois membros da Igreja e que agiam, também, pensando na preservação da imagem dessa instituição. Porém, esse mesmo equilíbrio perdeu espaço no campo religioso. As mudanças orquestradas pela Santa Sé fortaleceram posturas como as de dom Luciano.

Temos, por exemplo, o episódio do VII Sínodo Mundial dos Bispos, realizado no ano de 1983. A CNBB, numa assembleia geral, elegeu quatro bispos para representar o episcopado nacional naquele evento.

Três deles identificados com o clero mais progressista, a saber: dom Ivo e dom Aloísio Lorscheiter e dom Paulo Evaristo Arns. Apenas um bispo conservador, dom Eugênio Sales, arcebispo do Rio de Janeiro, foi escolhido na assembleia da CNBB. 

De acordo com matéria da Revista Veja, às vésperas do embarque da delegação, o papa João Paulo II ampliou o número de bispos brasileiros para representar o país. Adicionou mais nomes para a delegação: dom Luciano Cabral e dom José Falcão, arcebispo de Teresina. Ou seja, jogou dois nomes do campo conservador para confrontar a hegemonia conquistada pelos bispos progressistas na assembleia da CNBB.[66]

Recorte da Revista Veja, 13 de fevereiro de 1980

Diante da onda neoconservadora, embalada pelo Vaticano e pela Santa Sé, não foi de se espantar que matéria da Folha de São Paulo ventilasse o nome do arcebispo de Aracaju como um possível sucessor de dom Hélder Câmara, na arquidiocese de Recife e Olinda.[67]

Numa espiral ascendente, com os seus artigos circulando pelos mais importantes jornais brasileiros, dom Luciano cravou a sua relevância para a ofensiva contra a Teologia da Libertação na América Latina, no Brasil e no Estado de Sergipe.

Conflitos diretos entre dom Luciano e a diocese de Propriá

Com mais força junto à nunciatura apostólica, dom Luciano entrou em conflitos mais diretos com a diocese de Propriá. No ano de 1983, negou a autorização de um ato público organizado pela diocese de Propriá.

Numa carta aos seus agentes de pastoral, dom Brandão afirmou que o seu metropolita tomou a mesma posição que dom Paulo Arns, quanto este negou que frei Boaventura falasse em público sobre o seu livro Igreja Popular. Vale destacar que dom Brandão acatou a desautorização.

Para ele, seria contraproducente uma atitude contrária à decisão de dom Luciano, uma vez que, se tomasse tal atitude, não teria argumentos para se opor a um ato conservador em sua esfera religiosa.[68] 

Nessa carta, dom Brandão admitiu o clima de tensão na Igreja. Defendeu para os seus agentes pastorais que não convinha aumentar essa tensão. Argumentou: “Correríamos o risco de pôr em perigo a nossa Pastoral”.[69]

Num depoimento, Hildebrando Maia, então agente pastoral da diocese, lembrou o episódio em que dom Brandão convocou uma reunião com os coordenadores de pastorais da diocese. Hildebrando, como coordenador da comunicação, foi convidado pelo bispo para um café da manhã. Disse Hildebrando: “Eu já sabia que ‘tomar da manhã’ era ter acesso a informações privilegiadas ou preparar reuniões que ele queria”.[70]

Ao longo do depoimento, Hildebrando afirmou que o bispo lhe passou este comunicado: “Eu preciso comunicar que eu fui convocado pelo núncio apostólico a prestar esclarecimentos. Vejam as denúncias que tem contra mim”. Segundo Hildebrando, eram denúncias formuladas por dom Luciano.

Por exigência do núncio dom Carmine Rocco, o bispo de Propriá teria que aparecer em Aracaju, na cúria da arquidiocese. Detalhando a audiência, Hildebrando relatou que dom Luciano estava presente.

Hildebrando chamou a atenção para o problema da questão. Disse: “[…] pela estrutura da Igreja, um bispo não se subordina ao outro. As dioceses são Igrejas particulares, que só se subordinam ao papa”.

Por essa tese, dom Luciano não teria autoridade sobre dom Brandão, no entanto, ele assistiu ao depoimento do bispo de Propriá. Hildebrando acrescentou:

[…] e todas as acusações não eram teológicas. Exceto uma, que era uma bobagem […]; Dom José Brandão de Castro permitia nas celebrações cálices de madeira, cálices de barro e cálices de pedra, quando o ritual romano tradicional exige aquele cálice dourado, que é algo bastante distante da realidade do povo pobre e simples. Era a única acusação no campo da Igreja. Todas as [outras] acusações eram voltadas para a atuação dele na defesa dos mais pobres […].[71]

Importante lembrar que o aprofundamento das pressões sofridas por dom Brandão garantiu a ele noites intranquilas. Frei Enoque Salvador comentou sobre os gritos angustiados do bispo durante o sono:

Lembro-me dele, na Ilha de São Pedro, nas madrugadas de suas noites (e em outros lugares também, como em Porto da Folha), gritos de: “Senhor Núncio, não é verdade. Eu amo a Igreja” ou “Dom Luciano eu não sou comunista. Nossa Senhora de Fátima defenda nossa Diocese”. O irmão Salatiel também testemunhou vários momentos de gritos nos sonos atordoados de Dom José, sobretudo nos últimos meses que precederam sua renúncia.[72]

Nos depoimentos de outros agentes pastorais da diocese de Propriá, parece haver uma unanimidade quanto à força da oposição de dom Luciano contra o clero progressista no país e no Estado. Comentou frei Roberto Eufrásio:

Dom Luciano […], em sua sede episcopal, articulava uma reação contrária a toda Igreja que se edificava a partir das decisões conciliares e das Conferências […] de Medellín e Puebla. Sabemos que ele não estava solitário no esvaziamento das orientações do Concílio Vaticano II.[73]

As ironias da História

Entre o fim da década de 1980 e início dos anos 1990, a Teologia da Libertação começou a apresentar os seus desgastes e sofrer oposições generalizadas. No que diz respeito a dom Luciano Cabral, no final, ficou mesmo em Aracaju até renunciar no ano de 1998. Renunciou porque, em seu caminho, esbarrou com a mesma doença que acometeu também o bispo de Propriá: o mal de Alzheimer. Foi substituído por dom José Palmeira Lessa, o mesmo bispo que, no ano de 1988, assumiu o bispado em Propriá no lugar de dom José Brandão de Castro. As ironias da História.

Agora, um fato curioso. Após largar o arcebispado e ir se tratar do Alzheimer, dom Luciano, segundo algumas fontes, buscou a reconciliação com pessoas das quais acumulou atritos.

Em meados de 2004, o padre Isaías do Nascimento visitou o então secretário da cultura José Carlos Teixeira, em seu local de trabalho, próximo ao estádio Batistão. Lacrimejando, Teixeira confidenciou ao padre que, certo dia, dom Luciano o procurou e, sem dizer uma única palavra, o abraçou. José Carlos Teixeira interpretou o gesto de dom Luciano como um pedido de perdão, dado que os dois haviam rompido relações desde 1967, em razão do alinhamento do arcebispo à ditadura militar. No mesmo dia do mês de maio de 2018, os dois, Teixeira e Luciano, faleceram.

Gesto semelhante ocorreu com Wellington Mangueira. Segundo ele, após a anistia, numa reunião com o MST no CAIC de Nossa Senhora do Socorro, dom Luciano o teria pedido perdão. E ele aceitou o perdão.[74]

Governador Marcelo Déda (PT-SE) ao lado de dom Luciano (Crédito: Janaína Santos)

Na próxima semana, o último artigo dessa série

Na próxima semana, será publicado o último artigo da série sobre a diocese de Propriá e a ditadura militar. Nele, conheceremos a carta enviada pelo teólogo belga José Comblin ao bispo dom Brandão. No documento, o teólogo implorou para dom Brandão não renunciar ao cargo e acusou dom Luciano e dom Eugênio Sales de conspirar contra o bispo de Propriá. 

Também será feita uma análise da chegada de dom José Palmeira Lessa na diocese de Propriá. O artigo final abordará a violência dos jagunços do então deputado federal Bosco França contra a freira Hermínia e o seminarista José Martins; e mostrará a denúncia pública da diocese sobre a existência de cemitérios clandestinos em Sergipe, onde foram encontradas ossadas humanas misturadas às de animais e corpos carbonizados. Não perca o último artigo da série. Até lá!


Osnar Gomes dos Santos é doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Defendeu a tese: “Os sinais da conversão: o movimento do cristianismo da libertação na diocese de Propriá-SE (1960-1991)”. O texto na íntegra pode ser baixado aqui. Osnar possui Mestrado em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde integrou o Laboratório Interdisciplinar de Estudo das Religiões (LIER/UFAL). Possui Graduação em História pela Universidade Tiradentes (2012) e Pós-Graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo (2014). Atualmente, é professor efetivo da Rede Pública do Estado da Bahia.


[1] Cf. DANTAS, Ibarê. A tutela militar em Sergipe. 1964-1984: partidos e eleições num Estado autoritário. São Cristóvão: Editora UFS, 2014, p. 233.

[2] Ibidem, p. 233-234.

[3] Conferir Estatuto da PRHOCASE, em: MEDINA, Ana; DUARTE, Carmen; Mininni, Enrica (orgs.). Memória da PRHOCASE – 1968-1988.  Aracaju: J. Andrade, 2015, p. 88-89.

[4] Cf. MORAIS, Gizelda. Dom Luciano José Cabral Duarte: Relato biográfico. Aracaju: J. Andrade, 2008, p. 112.

[5] Ibidem, p. 261.

[6] Cf. ALVES JÚNIOR, Milton. Continência a um comunista. Aracaju: Diário Oficial do Estado de Sergipe – Edise, 2018, p. 93-94.

[7] Cf. LIMA, Fernanda Maria Vieira. Contribuições de Dom Luciano José Cabral Duarte ao ensino superior sergipano (1950-1968). Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão, 2009, p. 63.

[8] A universidade foi primeiramente chamada de Fundação Universidade Federal de Sergipe (FUFSE). No que tange a polêmica sobre o modelo de universidade a ser adotada, ver: CRUZ, José Vieira da. Da autonomia à resistência democrática: movimento estudantil, ensino superior e a sociedade em Sergipe, 1950-1985. (Doutorado em História). Universidade Federal da Bahia (UFBA), 2012, p. 260-265.

[9] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_71038811_d0001de0001. Prontuário de Padres – 1971; 27 de setembro de 1971, 31f. As informações sobre o padre Dion estão entre as páginas 14 e 16.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem.

[12] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ppp_81001895_d0001de0001. Antecedentes – José Carvalho de Sousa – 1981; 28 de julho de 1981, 14f. O depoimento do padre José Carvalho está entre as páginas 9 e 11.

[13] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_71038811_d0001de0001. Prontuário de Padres – 1971; 27 de setembro de 1971, 31f. As informações sobre o padre Dion estão entre as páginas 14 e 16.

[14] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ppp_81001895_d0001de0001. Antecedentes – José Carvalho de Sousa – 1981; 28 de julho de 1981, 14f. O depoimento do padre José Carvalho está entre as páginas 9 e 11.

[15] Cf. CARDONHA, José. A Igreja Católica nos “Anos de Chumbo”: resistência e deslegitimação do Estado Autoritário Brasileiro – 1968-1974. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2011, p. 431-432.

[16] Cf. DOSSIÊ do padre Emile Dion, [19–]. Arquivo do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), nº P521/05. In: Acervo da Comissão Estadual da Verdade Paulo Barbosa de Araújo (CEV).

[17] Cf. CARDONHA, José. A Igreja Católica nos “Anos de Chumbo”: resistência e deslegitimação do Estado Autoritário Brasileiro – 1968-1974. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2011, p. 431-432.

[18] Ibidem, p. 432.

[19] Ibidem.

[20] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_71038811_d0001de0001. Prontuário de Padres – 1971; 27 de setembro de 1971, 31f. As informações sobre o padre Dion estão entre as páginas 14 e 16.

[21] Foram estes os padres que se despediram de Sergipe: Henrique Jacquemart, Armando Bihel, José Tounier, Francino Troulotte, Tiago Perraut, Cláudio Pilllonel e Bernard Bavand. Os padres atuavam em municípios acoplados pela arquidiocese de Aracaju.

[22] Cf. FIGUEIREDO, Ariosvaldo. História Política de Sergipe (1962-1975). Aracaju: s/e, s/d, p. 264.

[xxiii] Cf. FIGUEIREDO, Ariosvaldo. “E os padres foram embora”. In: Gazeta de Sergipe, 04 de maio de 1971, p. 2. Ibarê Dantas afirmou que o padre José Tounier foi para Recife trabalhar com dom Hélder. Porém, não obteve informações sobre o paradeiro dos outros padres. Cf. DANTAS, Ibarê. Ob. Cit., 2014, p. 238. Ariosvaldo Figueiredo recebeu uma carta dos padres Tiago Perraut e Domingos Nogues, último vigário do município de Maruim. Eles escreveram de Manaus, e disseram na carta: “Não deixamos o Brasil”. Cf. FIGUEREIDO, Ariosvaldo. Ob. Cit., s/d, p. 265.

[xxiv] Cf. DANTAS, Ibarê. Ob. Cit., 2014, p. 238.

[xxv] Ibidem.

[xxvi] Cf. MORAIS, Gizelda. Ob. Cit., 2008, p. 334.

[xxvii] Ibidem, p. 235.

[xxviii] Cf. DUARTE, dom Luciano Cabral. Estrada de Emaús. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 33.

[xxix] Ibidem, p. 35.

[xxx] Ibidem.

[xxxi] Cf. DUARTE, dom Luciano Cabral. A Igreja às portas do ano 2000. Aracaju: Secretariado de Estado da Cultura e Meio Ambiente, 1989, p. 134.

[xxxii] Cf. DUARTE, dom Luciano Cabral. Ob. Cit. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 38-39.

[xxxiii] Cf. SERBIN, Kenneth. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 237. 

[xxxiv] Ibidem, p. 280-282.

[xxxv] Ibidem, p. 281.

[xxxvi] Ibidem.

[xxxvii] Ibidem, p. 281.

[xxxviii] Cf. ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ggg_83006623_d0001de0001. Teologia da Libertação aplicada nas Comunidades Eclesiais de Base/RS pela Igreja Popular – 1983; 08 de julho de 1983, 7f.

[xxxix] Cf. COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE “PAULO BARBOSA DE ARAÚJO”. Doc. ASV_ACE_6484_84, 6f.

[xl] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_84046088_d0001de0001. Propaganda Adversa. Literatura […]. – 1984; 09 de novembro de 1984, 27f.

[xli] ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_zd_0_0_0015a_0056_d0003. Encontros estaduais de comunidades eclesiais de base. – 1983; 24 de janeiro de 1983, 10f.

[xlii] Sobre a polêmica em torno do caso Boff, ver: BRITO, Lucelmo. Uma análise da polêmica em torno do livro “Igreja: Carisma e Poder”, de Leonardo Boff, na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2008.

[xliii] Cf. DUARTE, dom Luciano Cabral. O caso Boff e a rebeldia contra Roma. Brasília: SBEF, 1985, p. 7-8.

[xliv] Ibidem, p. 9-10. 

[xlv] Esse é mais um exemplo que revela a necessidade de problematizar os tipos ideias “progressista” e “conservador” para não cair em esquematismos vagos. Sobre a posição de dom Ivo, ver: Cf. [Entrevista] Dom Ivo Lorscheiter, então presidente da CNBB, Revista Veja, 10 de outubro de 1979, p. 3-6. Entrevista concedida a Pedro Maciel.

[xlvi] Cf. “Igreja não opina sobre Partido Comunista”. In: Jornal da Cidade, 20 de junho de 1979.

[xlvii] Seu artigo Por que o PC deve ser ilegal repercutiu em jornais dos mais variados estados brasileiros. Dentre eles: Diário de Sorocaba, O Combate (de Corumbá-MS), Diário de Mogi, Jornal do Comércio (do Amazonas), Jornal da Manhã (de Ponta Grossa) etc.

[xlviii] SANTOS, Magno. “O Bispo da Terra” e as agruras dos camponeses de Dom Luciano: escrita biográfica e a reinvenção de si. Revista Brasileira de História das Religiões, v. 09, n. 26, p. 101-126, set./dez., 2016, p. 102.

[xlix] Kenneth Serbin chamou a atenção para os limites da dicotomia conservador/progressista. Porém, advogou ser necessária. Criticou a sua aplicação rígida. Cf. SERBIN, Kenneth. Ob. Cit., 2001, p. 434. O historiador Iraneidson Santos chamou de “aplicabilidade circunscrita” a forma flexível de encarar e utilizar os esquemas de classificação progressista/conservador. Cf. COSTA, Iraneidson. “Eu ouvi os clamores do meu povo”: o episcopado profético do nordeste brasileiro. Revista Horizonte, v. 11, n. 32, p. 1461-1484, out./dez., 2013, p. 1471.

[l] Cf. COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE “PAULO BARBOSA DE ARAÚJO”. Doc. ASV_ACE_5077_82, 5f.

[li] Ibidem.

[lii] DUARTE, dom Luciano Cabral. [Carta] 17 de maio de 1977, Aracaju [para] dom José Brandão de Castro, Propriá, 1f.

[liii] Cf. COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE “PAULO BARBOSA DE ARAÚJO”. Doc. ASV_ACE_2298_81, 6f.

[liv] Cf. SANTOS, Fábio. Ob. Cit., 1990, p. 45. 

[lv] Cf. COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE “PAULO BARBOSA DE ARAÚJO”. Doc. ASV_ACE_2297_81, 5f.

[lvi] Integristas como dom Sigaud e Plínio Côrrea de Oliveira, líder da TFP, eram contrários à reforma agrária. Contra a opção pelos pobres da Igreja, Plínio Côrrea de Oliveira defendeu a “opção pelos nobres”. Dom Luciano chegou a criticar posições da TFP sobre a questão agrária. Ver: DUARTE, dom Luciano Cabral. Ob. Cit., 1989, p. 82.

[lvii] A jornalista, roteirista e cineasta sergipana Ilma Fontes deu um depoimento surpreendente para a Comissão Estadual da Verdade de Sergipe. Aprovada em primeiro lugar no concurso para lecionar na Faculdade de Medicina, assistiu ao segundo colocado ser convocado em seu lugar. Comentou Ilma Fontes que questionou o reitor da Universidade sobre os motivos de não ter sido chamada. Segundo ela: “[O reitor] Luiz Bispo me disse que eu não tinha idoneidade moral para ensinar numa universidade, porque minha casa era frequentada por comunistas e bêbados”. Ilma Fontes lembrou que, como boa jogadora de xadrez, buscou “a torre e o bispo”. E o bispo era dom Luciano. Este a levou para o 28° BC. Através do arcebispo, Ilma conheceu um general que, como ela, era leitor de Isaac Asimov. O general comprou a sua briga. Ela foi convocada. Cf. PERSEGUIÇÃO na Faculdade de Medicina. 1 vídeo (06min40seg). Publicado pelo canal Comissão Estadual da Verdade de Sergipe. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=kQjQv8eFESM>. Acesso em 11 de março de 2022. A entrevista foi realizada no dia 18 de maio de 2016. Publicada no canal no dia 29 de outubro de 2018. Gizelda Morais colheu alguns depoimentos de jocistas e jucistas livrados da prisão graças à intervenção de dom Luciano. Cf. MORAIS, Gizelda. Ob. Cit., p. 218-227.

[lviii] Cf. “Arcebispo lamenta a ‘guerra da fechadura’”. In: Jornal do Brasil, 17 de agosto de 1980, p. 23.

[lix] Ibidem.

[lx] Ver matérias do Jornal de Sergipe: “Concentração pública será realizada hoje” e “O povo no Calçadão”, datadas de 14 de agosto de 1980.

[lxi] COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE “PAULO BARBOSA DE ARAÚJO”. Doc. AC_ACE_10096_80, 13f.

[lxii] Ibidem.

[lxiii] Ver matérias: “Bispo declara luta aos progressistas”. In: Gazeta de Sergipe, 25 de agosto de 1983, p. 1; e “Arcebispo prega contra comunismo nas Américas”. In: Gazeta de Sergipe, 25 de agosto de 1983, p. 2.

[lxiv] Cf. VOZ DO BRASIL. Senador Lourival Baptista, Brasília, 12 de dezembro de 1979. Senado Federal.  

[lxv] Cf. MACEDO, Nertan. “Os Miracapillos de Propriá”. In: Correio de Propriá, 05 de novembro de 1980.

[lxvi] Cf. “Com mão pesada: o papa altera delegação brasileira ao sínodo”. In: Revista Veja, 28 de setembro de 1983.

[lxvii] Cf. “D. Hélder será homenageado hoje pelos seus 75 anos”. In: Folha de São Paulo, 07 de fevereiro de 1984, p. 5.

[lxviii] Cf. NASCIMENTO FILHO, Isaías. Dom Brandão – um pastor com cheiro de ovelhas. Belo Horizonte: O Lutador, 2017, p. 190-191.

[lxix] Ibidem, p. 191.

[lxx] DEPOIMENTO de Hildebrando Maia para a Comissão Estadual da Verdade de Sergipe. 1 vídeo (1hora, 06min23seg). Publicado pelo canal Comissão Estadual da Verdade de Sergipe. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=VyxAXgKdTHc>. Acesso em 21 de fevereiro de 2022. A entrevista foi realizada no dia 18 de setembro de 2018. Publicada no canal no dia 29 de outubro de 2018.

[lxxi] Ibidem.

[lxxii] Ibidem, p. 197.

[lxxiii] Cf. OLIVEIRA, Frei Roberto. Caminhando com Jesus: uma experiência missionária no Nordeste. João Pessoa: Ideia, 2006, p. 62.

[lxxiv] Obtive essas informações através do próprio padre Isaías.

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Osnar Gomes dos Santos

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