Enfrentar o feminicídio é tarefa coletiva… mas quem se dispõe?

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

Só em 2025 foram registrados 15 casos de feminicídio em Sergipe, mais de um por mês em média. (Créditos: Pixbay)

Não vou me ater aos números. Eles são fundamentais para dimensionar o problema, mas escolho afirmar: as mulheres são mortas todos os dias e, quando uma mulher é assassinada, nenhuma de nós permanece inteira. Morre uma mãe, uma filha, uma irmã, uma professora, uma policial, uma trabalhadora. Morrem meninas. Morremos todas um tanto.

O feminicídio é a expressão mais extrema da violência dirigida a mulheres e corpos femininos. Não se trata de um fenômeno recente, tampouco de casos isolados ou privados. É violência estrutural, sustentada por relações históricas de poder. Uma violência da crueldade que se ancora numa engrenagem hétero-cis-patriarcal-racista-capitalista de base colonial que naturaliza desigualdades e transforma corpos em territórios de dominação.

Essa lógica opera por meio do que a antropóloga Rita Segato chama de “pedagogia da crueldade”: práticas violentas mantidas pela indiferença, naturalização do sofrimento que definem, pela ameaça ou pela violência direta, quais vidas importam menos. A persistência dessa violência não deixa dúvida: certos corpos devem ser contidos, silenciados, eliminados. Esse controle atinge todas nós, mas incide com brutalidade e abrangência particular sobre mulheres racializadas de forma subalterna — mulheres indígenas, negras, quilombolas —, corpos historicamente colocados na linha de maior exposição às violências.

A crueldade dirigida às mulheres se estende também às violências LGBTfóbicas e cumpre função semelhante: controlar existências que desafiam “esse estado de coisas”. Trata-se de um mecanismo de disciplinamento social que preserva privilégios e desigualdades de classe, raciais e de gênero, e sustenta o que muitos insistem em chamar de “ordem”.

Não há lugar nem relação plenamente segura para mulheres e meninas. A violência atravessa o espaço doméstico e os ambientes de poder, relações íntimas, institucionais e de trabalho. Mulheres ativistas e aquelas que ocupam posições de liderança seguem sendo violentadas e assassinadas por serem mulheres. Violência que não se limita ao ato consumado da agressão; manifesta-se como possibilidade, modos de vida, ameaça contínua. Nem o porte de arma nem o treinamento para a autodefesa garantem proteção. Nesse “estado normal” de coisas, de naturalização da violência, administramos riscos como parte da rotina, calculamos e recalculamos rotas, horários, roupas, palavras, desejos, sonhos.

Tiago Sóstenes é um dos homens acusados de feminicídio no final de semana em Sergipe. (Crédito: Reprodução/Redes sociais)

Os feminicídios são mortes evitáveis. Vivemos o avanço da extrema-direita e de agendas conservadoras que normalizam e agudizam opressões. 

Esse cenário se sustenta também pela conivência institucional e social com desigualdades e violências cotidianas. Assistimos ao incentivo ao armamento da população, à exaltação de uma masculinidade agressiva, à reafirmação da supremacia branca, à xenofobia e à defesa de um modelo de família patriarcal que mantém o persistente trabalho doméstico não remunerado destinado às mulheres. Assimetrias e discriminações se fortalecem tanto nas instituições e espaços de poder quanto nos discursos morais e religiosos. 

Nesse cenário, a violência contra as mulheres e meninas deixa de ser “escândalo” e passa a ser tolerada, quando não estimulada.

Nomear essa realidade é também recusar sua naturalização. Porque enfrentar a violência contra as mulheres exige mais do que comoção episódica ou espetacularização midiática: exige organização e coragem política, responsabilidade coletiva, mudanças estruturais.

Se morremos todos os dias e se mulheres são mortas por serem mulheres, não há democracia possível. Talvez nosso maior desafio seja ultrapassar a visão moral da violência contra as mulheres e reconhecê-la como questão estrutural. Tipificar essa violência foi um avanço importante, mas enfrentá-la exige ir às raízes: compreender como essas violências e essas mortes estão conectadas e se articulam à forma como a sociedade se organiza, como as instituições funcionam e como as estruturas políticas e econômicas controlam corpos e hierarquizam vidas.

A proteção às mulheres precisa ser prioridade de Estado. Políticas públicas de reparação das desigualdades históricas são parte central desse caminho. Não basta punição ou declarações de boa vontade. São necessárias ações capazes de transformar a nossa organização social: valorização e financiamento das tarefas de cuidado, educação feminista e antirracista nas escolas, incentivo à participação e organização política e à autonomia econômica das mulheres, ações afirmativas de raça e gênero nas instituições, além de políticas ambientais que enfrentem à destruição da natureza, que atinge de forma particular a vida das mulheres.

O papel dos homens é incontornável: pais, filhos, gestores, líderes religiosos, ativistas, trabalhadores. Enfrentar a violência contra as mulheres também implica renunciar aos privilégios associados ao “ser homem” nessa sociedade patriarcal. Da mesma forma, nenhuma mulher pode ser culpabilizada pela violência que sofreu. Nenhuma agressão pode ser relativizada pelo silêncio ou pela dor da vítima. A violência e os julgamentos que a sucedem têm marca patriarcal e racista. Culpa, medo e criminalização caminham juntos no mesmo moinho de opressões.

Se o problema é estrutural, a resposta também precisa ser. O Estado, por ação ou omissão, tem responsabilidade direta na perpetuação dessas violências e mortes. Parlamentares, gestores e lideranças políticas precisam assumir esse debate e garantir recursos para uma Política de Proteção às Mulheres que seja ampla e efetiva.

Enfrentar o feminicídio exige combater a violência estrutural contra as mulheres. Escrevo convicta: este não é um “problema das mulheres”. Trata-se de uma guerra contra as mulheres e sua superação exige compromisso coletivo. Uma sociedade que se afirma democrática e plural não pode aceitar essa epidemia de feminicídios.

A saída é coletiva — ou não será. Quem se dispõe?

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Milena Barroso

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Uma resposta

  1. Obrigada Milena por expressar nossa mais profunda indignação e revolta pela forma cruel que mulheres cis e trans têm sido violentadas!

    A questão que finaliza o texto é crucial para decidir que rumo queremos tomar frente a essa barbárie!
    Tomemos posição: luto pela vida e luto pelas mulheres!

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