
Quando é dia de show, Gladson Ferreira, um homem de 43 anos, prepara a estrutura, monta a iluminação, deixa tudo pronto para os artistas brilharem.
De frente para o palco, assiste com os olhos brilhando, desejando um dia estar ali em cima. E quando os aplausos cessam e o adeus é dito, chega a hora de Gladson desmontar tudo, e de peça em peça, ele se orgulha de fazer parte do Coletivo Underground 79.
Gladson sempre teve um fascínio pela arte, não deixa de ouvir música nem um dia sequer, e tudo começou com um teclado sintetizador.
“Quando eu fui morar no Santa Maria [em Aracaju] eu consegui comprar um teclado, só que aí com o tempo ele se desgastou, eu criei duas boquinhas com o alto falante dele, peguei o plugue de um fone de ouvido, aí eu criei com as caixinhas de papelão, coloquei as bocas e fiz um fone de ouvido. Depois, com o passar do tempo, eu comecei a fazer passarinho de barro, que eu aprendi com meu pai, comecei em casa mesmo”, contou.
A arte cresceu nas mãos de Gladson anos mais tarde. Durante o cumprimento de regime fechado por homicídio, na antiga Casa de Detenção de Aracaju, Gladson teve acesso ao artesanato por meio de outros artistas que estavam no presídio. Com eles, Gladson foi aprendendo novas formas de fazer arte com as mãos e aprimorar o que já entendia. Hoje, o artista utiliza do artesanato como uma das fontes de renda e segue aprendendo ainda mais para poder criar o seu próprio curso de economia criativa.
Assim que Gladson cumpriu a sua pena, saiu do presídio com sede de trabalho, começou a prestar serviço como pedreiro, eletricista, encanador, faxineiro, pintor, e o que mais pedir que ele fizesse. Reajustou a sua vida para caber mais uma, Janete, a sua atual companheira. Nesse percurso, Gladson procurou Michael Silva, pedindo que lhe arrumasse algum serviço para ele dentro do Coletivo Underground 79. E encontrou um mundo.
O Coletivo Underground 79 nasceu em 2012, na Praça Luciano Barreto Júnior, conhecida como Praça da Juventude, no Conjunto Marcos Freire II, em Nossa Senhora do Socorro. O coletivo possui o propósito de valorização, preservação e difusão do patrimônio cultural sergipano, além de exaltar os artistas e fazedores de cultura de Sergipe.

Michael Silva é o idealizador do Coletivo e fomentador de cultura em Socorro. Ao perceber a carência de arte que a população vivia, Michael viu no espaço da praça uma ótima oportunidade de fazer crescer um projeto transformador.
“A Praça da Juventude é uma praça onde tínhamos muita incidência de crimes, de assalto no passado, de jovens que estão usando drogas. Então, o nosso objetivo maior foi também resgatar essa juventude e dar elas uma opção com as artes deles, poderem ver um pouco como é diferente e que há alternativas, que a gente não pode viver naquele ciclo vicioso” relembrou Michael.
Em 2017, o município de Nossa Senhora do Socorro era a 3ª cidade mais violenta do país, segundo o Atlas da Violência. Entre o período de 2019 a 2024, o índice de homicídio em Socorro diminuiu em 37%, de acordo com a Coordenadoria de Estatística e Análise Criminal (CEACrim).
Pessoas são ouvidas e transformadas
O termo underground surge para nomear um conjunto de manifestações culturais que são subalternizadas, seja na música, na dança ou na pintura. Mas para o Coletivo, essa palavra toma outras proporções.
“A gente escolheu o nome underground não só pela questão da cultura e dessa mistura brasileira que a gente realiza, mas também pela condição de resistência, porque o underground vem daquele subalterno dos subsolos, vem da resistência, vem da classe trabalhadora, vem da classe da resistência. Então, estamos ali resistindo, incomodando, não a comunidade, mas o poder público, por conta das ações revolucionárias que causamos”, explicou Michael.
Diego Texas é produtor cultural e toca o projeto Festival Rua Livre, entrou para o Coletivo Underground 79 em 2015. Diferente de Michael, que mora mais próximo da divisa entre Socorro e Aracaju, Diego vive no outro extremo da cidade, na comunidade Pai André. Cada um de um lado, os dois conseguem abraçar o município para que não falte cultura.
“Desde o início a gente já vinha sem incentivo [financeiro] nenhum. A gente já vinha de uma forma muito gratificante, de sentar e dizer ‘vamos fazer’ e só de tipo eu olhar no rosto de Michael e perceber a vontade dele querer fazer isso já me deixava com grande vontade de querer fazer também, independente de, se mais na frente, a gente ia ser receber alguma coisa ou alguém patrocinar ou não, a gente já estava na certeza de fazer. E assim, cada vez que a gente realizava alguma coisa, era essa vontade de saber a certeza de dar certo. De continuar”, relembrou Diego.

No Pai André, Diego começou a construção de uma praça. Ergueu as mangas e com a ajuda de Michael e alguns amigos, estão levantando um espaço que será palco para muitas apresentações do Coletivo Underground 79 e do Festival Rua Livre.
Um dos projetos mais marcantes do grupo é o Cine Tour Serigy, em que o coletivo passa por diversos municípios de Sergipe levando o cinema sergipano e nacional, de forma gratuita, para milhares de pessoas, realizando a expansão do trabalho que era realizado em apenas uma cidade.
Para além das apresentações, o coletivo abre um espaço de debate junto com a comunidade para propor novos projetos e ações. “A gente também tem o fórum de ideias, em que a gente sempre tem em nossos eventos as discussões sociais. Então a gente sempre leva pautas sociais para serem discutidas, leva essas ideias para o poder público, onde a comunidade se somou, debateu, discutiu, colocou o que seria melhor para ela”, disse Michael.
O Coletivo Underground 79 se tornou um ponto de representação e de pertencimento, em que faz a arte florescer cada vez mais, além de mostrar o poder transformador na vida das pessoas, como é o caso de Gladson e muitos outros.
“Quando conseguia levar um artista socorrense ao palco era um motivo de muita alegria porque nós estávamos compartilhando com o nosso povo, o nosso povo”, disse Michael com entusiasmo.


