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O artigo do professor de Filosofia da UFS faz uma crítica contundente à instrumentalização da figura de Jesus Cristo e de discursos bíblicos no cenário eleitoral brasileiro, especialmente visando as eleições de 2026. O autor argumenta que transformar processos eleitorais em “lutas espirituais” entre o bem e o mal distorce tanto a política quanto a religião.

Dado o clima de completa intolerância e confusão que reina nos tempos atuais em torno de qualquer tema que envolva política e religião, quero, antes de desenvolver esta brevíssima reflexão, destacar que não pretendo, aqui, julgar posturas religiosas de “a” ou “b”. Meu interesse é simplesmente contrapor alguns aspectos da figura de Jesus, em suas “boas novas”, a determinados usos panfletários e midiáticos de suas palavras no cenário eleitoral brasileiro. Parto do princípio de que, quando um processo eleitoral passa a ser caracterizado como uma “luta espiritual” entre forças do “bem” contra o “mal”, há algo de errado tanto na concepção de política quanto na de religião.
A política, desde o estabelecimento das formas constitucionais baseadas na laicidade do Estado — cujas origens remontam ao século XVIII e que, no Brasil, consolidaram-se nas Constituições de 1891 e 1988 — eliminou a vinculação oficial entre uma religião específica e o sistema republicano, prevalecendo, com isso, a liberdade de culto e o respeito às diversas formas de manifestação religiosa. Nesse sentido, não há justificativas propriamente políticas para o recurso retórico — por vezes tratado como decisivo — a imagens bíblicas ou evangélicas, senão em função de interesses de natureza estritamente populista e contrários ao espírito democrático.
No que se refere à religião — e me limito aqui ao cristianismo, entendido como um desdobramento dos ensinamentos de Cristo —, diria que ela nasce, precisamente, de uma ruptura entre o reino dos homens, figurado na pessoa de Pilatos, e o Reino de Deus como promessa vindoura, isto é, como anúncio, mas também como proclamação de uma nova ordem espiritual que, por princípio, recusa a lógica do combate violento: “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).Essa passagem é interpretada de várias formas, mas comumente é compreendida em dois sentidos: antipolítico e escatológico. No primeiro, Jesus estaria proclamando, por meio de suas palavras, uma inversão da lógica da violência que historicamente tem caracterizado as disputas pelo poder entre os homens. Isso pode ser constatado na continuação da própria passagem, quando afirma: “Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui”. Poderíamos citar ainda outros exemplos, como o episódio de sua prisão. Diante da reação de Simão Pedro ao atacar o servo do sumo sacerdote, Jesus ordena: “Embainha a tua espada” (Jo 18:11).

No que se refere ao segundo sentido, o escatológico, são numerosas as passagens que apontam para o desenvolvimento da promessa do Reino como advento: “Desde agora não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai” (Mt 26:29). Outras indicam algo já em curso, como: “O Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17:21). O que importa destacar é que, em ambos os casos — seja no sentido antipolítico, seja no escatológico —, fica excluída a possibilidade de que Jesus estivesse tratando o Reino de Deus como uma esfera político-institucional ou, no caso brasileiro, partidária.
Não quero, com isso, dizer que as palavras de Jesus não tenham consequências políticas, mas que as têm na medida em que fundamentam uma postura ética e, portanto, implicam um modo de vida que não temo, guardadas as devidas diferenças conceituais e suas implicações filosóficas, aproximar daquilo que Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, nomeou de sabedoria prática (phronesis). Trata-se de uma forma de viver e deliberar a partir de valores estruturados, não simplesmente sobre um conhecimento teórico objetivo, mas sobre escolhas realizadas diante de situações contingenciais, sempre condicionadas à realização do bem coletivo. Nesse sentido, ética e política se encontram, mesmo diante do abismo que separa as concepções de sociedade e liberdade caras a Aristóteles e a Jesus, na defesa dos fins e dos meios como justos e necessários para uma vida feliz. Entendo que é justamente nisso que residem os elementos ético-políticos que certos movimentos sociais encontram no cristianismo e dos quais se nutrem.
Dito isso, quero tecer algumas considerações sobre o subtítulo deste artigo: “como seria bom que todo joelho se dobrasse e toda língua confessasse que Jesus é o Senhor”. Em primeiro lugar, não se trata, aqui, de uma pregação religiosa dogmática de minha parte, o que, certamente, contrariaria o espírito deste artigo. O que me proponho explorar é a dimensão senhorial implícita nessa formulação — recentemente mobilizada por um movimento de cunho supostamente religioso, mas eminentemente político-partidário —, e uma leitura que considero mais condizente e próxima do espírito dos evangelhos.
No que se refere ao “senhor” — e uso, propositalmente, a palavra com minúscula —, não se trata, em absoluto, de um valor hierárquico comum às posições de poder típicas dos líderes das nações: “Sabeis que os governantes das nações as dominam (…) entre vós não será assim; quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva” (Mt 20:25–28). Temos aqui, de imediato, a superioridade da figura do servo em oposição à lógica senhorial presente também em Lucas: “O maior entre vós torne-se como o mais jovem; e o que governa como aquele que serve” (Lc 22:26). Talvez o gesto mais expressivo de Jesus esteja no lava-pés: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13:15). O que encontramos nessas poucas passagens? Uma inversão da lógica do poder por aquilo que eu nomearia de cuidado.

Cumpre observar que Jesus não elimina, necessariamente, as hierarquias — “Dai pois, o que é de César a César” (Mt 22:21) —, mas certamente as relativiza ou, melhor ainda, as despotencializa, submetendo-as à finalidade para a qual deveriam existir: servir. Sendo assim, ser senhor, mais do que símbolo do exercício de um poder superior, abre-se ao sentido de pastor: “Iahweh é meu pastor; nada me faltará” (Sl 23:1) ou “Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas.” (Jo 10:11). Nesse enfraquecimento da lógica do domínio reside um poder que desafia, pelo esvaziamento de si mesmo, toda forma de dominação fundada na força e na opressão senhorial. Inclusive quando mais se esperava uma demonstração de poder, no sentido forte do termo, Jesus frustra aqueles que, diante da cruz, o desafiavam com palavras belicosas: “Salva-te a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27:40). Em Filipenses lemos: “A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:8).
Impotência? Incapacidade daquele que disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10:10)? Ou não seria o anúncio de Jesus muito mais desafiador do que o simples cumprimento de um plano de um Deus todo-poderoso que entrega o próprio Filho para depois cobrar da humanidade o preço de seu sacrifício? A quem serve, de fato, o mantimento de uma estrutura de poder encabeçada por um Deus que, atento às decisões humanas, opta nas eleições por um dos lados conduzindo o futuro dos países e optando entre siglas partidárias, em certos casos, enlameadas por corrupções e processos penais de seus líderes?
Não seria bom que todo joelho se dobrasse e toda língua confessasse que a Constituição é senhora e que a política constitui o espaço da expressão de ideias, valores, projetos e, acima de tudo, do respeito às diferenças, sejam elas de que ordem forem? Não se trata de tomar a Constituição como aquilo que ela não pretende ser — uma lei divina e inviolável —, mas de estabelecer os lugares próprios de cada coisa.
Políticos recitando trechos bíblicos aos gritos, descontextualizando aspectos profundos, como: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32), utilizando aquilo que acreditam — se é que acreditam — ser a “palavra de Deus” como livreto para seus interesses partidários é, no mínimo, a expressão máxima de uma hipocrisia que, lamentavelmente, perdura no seio do cristianismo e invade, por razões puramente eleitoreiras, as mídias nestes tempos de caça ao voto.
Finalmente, é lamentável ver a fé sendo instrumentalizada por candidatos que enxergam, em parcelas da sociedade, a possibilidade de alcançar interesses particulares e partidários. No entanto, diante deste inevitável cenário político brasileiro, resta, em matéria de cristianismo, aos que creem nas palavras de Jesus reconhecer, inspirando-se em Mateus 15:8, aqueles que honram com os lábios, mas mantêm o coração distante daquilo que efetivamente vigora no nome de Jesus: amor, caridade, solidariedade, partilha e tantos outros valores que, para além de sua expressão religiosa, permanecem fundamentais para a construção de uma sociedade mais fraterna e justa.



Uma resposta
Parabéns professor Cícero!
É uma pena que tantos que instrumentalizam a religião, a fé, o nome de Jesus em pró de interesses particulares e nada públicos não serão capazes de ler o seu texto para mudar de postura ou apresentar outros argumentos convincentes de que esse egrejo professor estaria equivocado.