Pesquisar
Close this search box.

É possível viver de arte em Sergipe? Mulheres negras sergipanas são as que mais sofrem com a ilusão do empreendedorismo como solução 

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

Nos últimos anos, a palavra empreender virou um conceito de acessibilidade e liberdade financeira para muitos, sobretudo para os que buscam viver das diversas manifestações que a arte comporta. Em Sergipe, o sonho de ser a sua própria “chefe” é ainda mais complexo, polêmico e problemático quando não há o amparo do poder público por meio de editais e fomento de políticas públicas ou a valorização por parte da população que ainda não demonstra ter o hábito de valorizar e consumir o que vem “da terra”.

Talvez, para reduzir a lógica individualista e ilusória do empreendedorismo, a ação coletiva pode ser uma resposta concreta a isso. É o que fazem as mulheres da comunidade remanescente quilombola do povoado Alagamar, município de Pirambu, a 38 km de Aracaju. Elas são mestras na produção da arte em palha de Ouricuri. Esse é o mesmo caminho das mulheres da Renda Irlandesa em Divina Pastora, a 40 km da capital.

Dados de uma pesquisa quantitativa sobre empreendedorismo feminino da SumUp, realizada entre fevereiro e março deste ano, informam que 55% das mulheres que trabalham como autônomas no Brasil são pretas e pardas, e a segunda maior concentração das mulheres encontra-se no Nordeste. A pesquisa aponta, ainda, que 42% das mulheres optaram pelo trabalho autônomo por uma questão de necessidade, além disso, ao fazer o recorte de raça, entre pretas e pardas, 60% afirmam já ter sofrido algum tipo de discriminação enquanto desenvolvia ou apresentava seu trabalho.

Para a antropóloga Yérsia Assis, o cenário geral que atravessa a vida e o corpo de mulheres negras é historicamente diverso. “Eles percorrem lugares complicados. O colonialismo moderno colocou essa mulher em lugares subalternos, então, diante disso, essas mulheres ainda hoje enfrentam dificuldades específicas para se colocarem em qualquer mercado, e aí têm mercados mais específicos em que isso vai ser mais intensificado, como o mercado das artes, por exemplo, porque historicamente ele sempre foi ocupado por um padrão específico de pessoas que não são essas mulheres”, afirmou a antropóloga.

Deslocando essa prerrogativa para o cenário sergipano, Yérsia destaca que o estado reproduz a perspectiva de que a subalternidade vai ser a tônica do mercado. “Essas dificuldades se revelam na falta de políticas públicas específicas, em olhares por parte, por exemplo, da iniciativa privada, porque não acreditam que essas mulheres produzem o que elas produzem, que elas realizam a duras custas. Essas mulheres não ocupam esses lugares simplesmente porque elas querem. Historicamente elas foram relegadas a isso. Se você não tiver estratégias de investimento, você não vai conseguir oportunizar esse lugar”, analisa Yérsia.


Artistas visuais e a reivindicação por direitos

O cenário audiovisual sergipano é repleto de grandes nomes que lutam para realizar. Dentre eles, estão a ilustradora Larissa Vieira, conhecida como Mundo Negro, e a cineasta Luciana Oliveira, co-idealizadora da Mostra de Cinema Negro Egbé. Elas denunciam os descasos e a falta de sensibilidade das gestões municipal e estadual para o setor. “Dentro do estado não tem leis e políticas públicas que de fato garantam que a gente vai ter investimentos que possam impulsionar a classe artística anualmente, independentemente de ser só o audiovisual, como as outras artes também”, lamentou a cineasta.

Luciana afirma que o estado tem uma TV pública que não é utilizada pelos artistas e produtores locais para o fomento do que é produzido no estado, o que traz uma grande problemática para quem gostaria de viver das suas produções, por exemplo. “Nós temos possibilidades e soluções para esse fomento. Outros estados já estão há anos-luz, a exemplo de Alagoas. E eu, que faço parte também do Fórum Audiovisual, reitero que estamos sempre abertas a dialogar com a gestão pública e com a iniciativa privada. Até mesmo o Sebrae, que em outros estados é tão atuante, aqui não é dessa forma”.

Luciana Oliveira, Larissa Vieira e Yérsia Assis (Foto: Divulgação)

Larissa Vieira reitera que a solução não está somente no poder público, mas em outras formas de reconhecimento e inserção. “Ser negra em nenhum lugar do mundo é fácil. É tanto que eles tentam exterminar física e estruturalmente a nossa existência. Então, na arte, que já é uma área que não tem reconhecimento, a não ser que você esteja em um circuito que geralmente é branco, isso é extremamente difícil”, avalia Larissa.

Para ela, esse quadro é mais “difícil ainda porque a gente está num país de terceiro mundo, no menor estado do Brasil, sobretudo para as mulheres pretas, e, para mim, a solução não é somente esperar pelo poder público, mas é preciso que haja a inserção de mulheres negras em espaços de poder, isso é de extrema importância para que a mudança aconteça”, concluiu.

Em nota, a assessoria do Sebrae em Sergipe afirma que tem projetos voltados para atender a economia criativa. De acordo com a assessoria, no mês de julho foi lançado um edital no valor de 500 mil reais para apoiar iniciativas nesta área. Todas as normas estão disponíveis no site da instituição (www.sebrae @se.com.br) ou nas redes sociais @sebrae.


Elas existem e resistem

Sergipe é pequeno em tamanho territorial, mas imenso em quantidade de artistas e manifestações culturais. Na comunidade remanescente quilombola do povoado Alagamar, município de Pirambu, as mulheres se organizaram em associação para buscar recursos para divulgar a produção da arte em palha de Ouricuri, um trabalho manual geracional que é fonte de renda da maior parte das mulheres da comunidade.

“Hoje, uma parte da minha renda vem do artesanato, feito pelas minhas mãos, mas não dá para viver só disso porque ainda não somos reconhecidas, o poder público não ajuda a gente, não incentiva o nosso artesanato. Nós vendemos nossas peças para o país inteiro, mas em nosso estado, não somos reconhecidas e há o agravante do preconceito que existe por sermos mulheres negras de uma comunidade quilombola, e o mercado é cruel, muita gente quer nos enganar, desvalorizando o nosso fazer”, conta Josilene Tavares, artesã de Alagamar.

Josilene Tavares (Foto: Divulgação)

A realidade das rendeiras do município sergipano de Divina Pastora não é tão diferente. A cidade é conhecida internacionalmente por ser polo fazedor da Renda Irlandesa, técnica secular, reconhecida como patrimônio material do Brasil. No município, a Associação de Desenvolvimento da Renda Irlandesa (Asderen) é a única no país que possui o selo de Indicação Geográfica, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial em 2013.

“Sou rendeira há 35 anos, e eu sinto a falta de uma política pública efetiva, uma política pública que transforme a nossa comunidade como um comércio desenvolvido ou uma comunidade desenvolvida. Nós temos o selo de indicação geográfica, que abre as portas para o comércio internacional, mas eu não vejo uma política pública que tem incentivo à nossa cultura aqui”, afirma Maria José de Souza, vice-presidente da Asderen.

Maria José, rendeira (Foto: Arquivo pessoal)

Para ela, Sergipe tem uma diversidade de cultura e de artesanato muito grande, apesar do seu tamanho geográfico. “Eu espero que um dia a gente seja mais vista, que consiga uma política pública de desenvolvimento efetivo, com pessoas técnicas, com pessoas que abracem a causa e desenvolvam não só por um período, mas que seja algo permanente”, ressaltou Maria José.

Isso aqui é importante!

Fazer jornalismo independente, ousado e de qualidade é muito caro. A Mangue Jornalismo só sobrevive do apoio das nossas leitoras e leitores. Por isso, não temos vergonha em lhe pedir algum apoio. É simples e rápido! Nosso pix: manguejornalismo@gmail.com

2 respostas

  1. Muito pertinente e necessária matéria!’parabéns Dijna Torres e Mague Jornalismo… vida longa!

Deixe seu comentário:

Pular para o conteúdo