
Romero Venâncio, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), anda preocupado com os rumos políticos e sociais do Brasil, mas acrescentando aí a condição religiosa e a manipulação pelas redes digitais. Ele pesquisa a presença da extrema-direita católica no País e avalia que o país pode até se transformar numa república fundamentalista cristã, um estado teocrático.
Ele lembra que não é de agora que a extrema direita católica fala em “recatolicização” do Brasil, mas até o país se transformar numa república fundamentalista religiosa deve levar algum tempo. “A estridência maior ocorre por conta das redes digitais e o seu uso por estes fundamentalistas. A participação de jovens num projeto assim é que deve preocupar aqueles que defendem o estado democrático de direito e sua posição laica”, analisa em entrevista à Mangue Jornalismo.
Para Romero, a direita extremada católica é um fenômeno real e que constrói um antipetismo e um anticomunismo com muita força. “As pautas com uma linguagem nova e agressiva como ‘ideologia de gênero’ e ‘escola sem partido’ se transformaram em ideologia política mobilizadora desses religiosos. A eleição de Bolsonaro deve-se a isto, também”.
O professor não vê grandes diferenças entre o frei Gilson e o pastor Silas Malafaia: “Um é protestante pentecostal e o outro é católico pentecostal. Ambos mobilizam as massas. O frei Gilson em franco crescimento. A pauta deles é muito próxima: defesa dessa masculinidade tóxica, acreditam em ideologia de gênero, são bolsonaristas, anticomunistas, antipetistas”.
Ele pontua a enorme diferença entre a igreja do padre Júlio Lancellotti e a do frei Gilson, este último que “consegue ser um fenômeno piorado do que foi Marcelo Rossi e Fábio de Melo. Gilson vem do contexto do bolsonarismo e isto faz toda a diferença. Frei Gilson já é fruto de uma formação teológica precária e devocionalista, típica das três últimas décadas na Igreja católica no Brasil”, afirma.
Romero Venâncio é graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia do Recife (ITER), em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutorado Interinstitucional em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Leia a seguir a íntegra da entrevista.
MANGUE JORNALISMO (MJ) – Nos últimos anos tem crescido a participação direta e decisiva de grupos religiosos, principalmente neopentecostais e católicos, nas eleições no Brasil. Rebanhos inteiros são levados a participar de uma “guerra santa” para vencer o “demônio” que estaria abrigado em partidos e pessoas de “esquerda”. Isso deixou de ser um fenômeno e se consolidou como prática concreta, ou seja, teremos isso como realidade por muitos anos? Esse é um quadro brasileiro ou também visto na América Latina e no mundo?
ROMERO VENÂNCIO (RV) – É uma realidade e que não nasceu apenas nas duas últimas décadas. Os anos 90 seriam um marco para a entrada dos pentecostais protestantes na esfera da política partidária e na disputa do Estado. A coisa cresceu e foi avançando no universo católico. Pós-2013, temos uma direita organizada nas redes digitais e nas ruas. Só cresceu. E uma direita extremada católica se colocou como um fenômeno real nessas disputas. O antipetismo e o anticomunismo veio com muita força. As pautas com uma linguagem nova e agressiva como “ideologia de gênero” e “escola sem partido” se transformaram em ideologia política mobilizadora desses religiosos. A eleição de Bolsonaro deve-se a isto, também.
MJ – É impressionante o crescimento e o envolvimento de adolescentes e jovens como militantes em grupos religiosos, de igrejas evangélicas e católicas. Pastores e padres reacionários e conservadores dizem e formam um exército para a tal guerra santa. Chama atenção nessas crianças, adolescentes e jovens um radical devocionismo religioso e uma fidelidade política atrelada. O Brasil pode se tornar uma República Fundamentalista Cristã?
RV – Sendo direto: pode. Podemos perceber a real possibilidade de o Brasil se transformar numa “república fundamentalista cristã”. A extrema direita católica fala em “recatolicização” do Brasil (velho projeto que vem do Cardeal Leme do Rio de Janeiro que liderou a igreja nas primeiras décadas do Século XX). Só que ainda não estamos em algo assim. Tem um caminho longo para esses fundamentalistas no Brasil. A estridência maior ocorre por conta das redes digitais e o seu uso por estes fundamentalistas. A participação de jovens num projeto assim é que deve preocupar aqueles que defendem o estado democrático de direito e sua posição laica. Ainda acredito na força de um protestantismo histórico e não fundamentalista e na esquerda católica e que estão na contramão de todo esse caldo cultural fundamentalista e extremado que ameaça o Brasil.
MJ – Quais os fundamentos que fazem todo o discurso religioso ser manipulado e abrigado em partidos políticos e movimentos de direita e de extrema-direita no Brasil? Isso passa pela ideia de família, de machismo, de submissão da mulher? RV – Veja dois fundamentos: primeiro, uma leitura ao pé-da-letra do texto bíblico. A leitura literal da Bíblia tem sido uma arma potente na organização de movimentos de direita nesse Brasil atual. Esses fundamentalistas cristão jogam com o imaginário de que o Brasil é um país religioso e conservador. Nada mais propício ao discurso reacionário que esta crença e suas consequências. Segundo, um latente “pânico moral” disseminado nas igrejas (católicas e protestante) de que haverá uma “ditadura gay”, “mulheres vão dominar os homens”, os “LGBT” vão destruir as Igrejas, a esquerda quer implantar o “comunismo”. Calibrado pelas redes digitais, esses discursos nas igrejas criam um certo pavor que mobiliza massas inteiras e deixa sempre esses grupos prontos para uma guerra. Muito perigoso isto.

MJ – Quais as diferenças – se é que existem – entre o pastor Silas Malafaia e o frei Gilson?
RV – Diferenças “paroquiais”, ou seja, em questões de identidade religiosa. Um é protestante pentecostal e o outro é católico pentecostal. Ambos mobilizam as massas. O frei Gilson em franco crescimento. A pauta deles é muito próxima: defesa dessa masculinidade tóxica, acreditam em ideologia de gênero, são bolsonaristas (Frei Gilson é um bolsonarista incubado), são anticomunistas e antipetistas e defendem esse “integrismo cristão” antiencumênico. Só que ambos enfrentam oposição em suas igrejas. Frei Gilson, por exemplo, tem sido criticado nas redes digitais e tem refreado mais a língua.
MJ – A igreja Católica de frei Gilson, padre Marcelo, padre Fábio e a mesma do padre Júlio Lancelotti, de dom Helder? Se é, por que o frei Gilson e os demais padres midiáticos não foram punidos, ao contrário do Júlio? Se não é a mesma igreja, de que igreja estamos falando?
RM – Há uma diferença grande nesses modelos de Igreja que apresentou. A Igreja do padre Júlio Lancellotti é a de Dom Helder Câmara. Uma Igreja que enfrentou a ditadura pós-64, apoiou grupos de direitos humanos, criou toda uma rede de em favor dos mais pobres e ajudou na luta por causas democráticas. Padres como Marcelo Rossi e Fábio de Melo são fenômenos midiáticos pós-anos 90 que nasceram a partir da Renovação Carismática e suas celebrações massivas e emocionalistas. Em nada se liga historicamente a Igreja de Dom Helder.
Frei Gilson consegue ser um fenômeno piorado do que foi Marcelo Rossi e Fábio de Melo. Gilson vem do contexto do bolsonarismo e isto faz toda a diferença. Frei Gilson já é fruto de uma formação teológica precária e devocionalista, típica das três últimas décadas na Igreja Católica no Brasil. Basta ver as pesquisas do padre Agenor Brighenti, que fez um trabalho de investigação muito importante sobre o “novo rosto do clero” brasileiro. Trabalho singular publicado pela editora Vozes. Frei Gilson é a verdade da Teologia da Libertação em sinal trocado. O bom e piedoso frade é a prova de que seu catolicismo é o ópio do povo (do seu rebanho, em particular. Só para não ferir a revolucionária CNBB!!!).
A Teologia da Libertação lutou bravamente e nas bases para demonstrar que a religião não era o ópio de povo algum. A “derrota” da Teologia da Libertação não é a “vitória” de frei Gilson. Um frei atoleimado será sempre um atoleimado. A “vitória” do bom frei é a derrota de um projeto eclesial popular imolado no altar das classes dominantes (que adora abençoar achando que rico no Brasil tem fé).
MJ – No caso da igreja Católica, o papa Leão XIV, apesar de ter sido uma voz firme e pontual pela paz, parece assistir o avanço conservador e reacionário dentro da igreja, o que contraria muitos ensinamentos de Jesus. Muitos desses movimentos faziam campanha aberta contra o papa Francisco, não o aceitavam. A igreja Católica corre risco de um novo cisma?
RV – Corre esse risco de cisma e o Papa Leão XIV sabe disso em detalhes. Ele acompanha a situação de divisão na Igreja Católica. O Papa Francisco foi um dos maiores reformadores na/da Igreja em todos os tempos. Ainda é cedo para avaliarmos com atenção o impacto do papado de Francisco. Mas percebemos que só não avançou mais por conta do próprio catolicismo. O Papa Francisco acelerou essa divisão, não por alguma maldade ou capricho, mas por fidelidade ao Evangelho e a Francisco de Assis. A grande percepção do Papa Francisco foi a de uma “Igreja em saída” contra uma Igreja encalacrada e referenciada em si mesma. E isto incomoda demais ao movimento tradicionalista que cresce muito dentro do catolicismo mundial.
MJ – Você encontra alguma luz no fim do túnel, ou seja, que forças religiosas dentro ou fora da igreja Católica e das igrejas neopentecostais que podem fazer frente ao crescimento avassalador dos movimentos conservadores, reacionários, de partidos de direita e de extrema-direita?
RV – É difícil na atual quadra histórica ver alguma “luz no fim do túnel” diante de uma cultura religiosa cristã tão reacionária, tradicionalista e antimoderna. Mas estou do lado do humanismo radical que tem em fontes no Papa João XXIII e no Papa Francisco… Acredito no ideal de Martin Luther King Jr. e James Cone (o pai da “teologia negra” nos EUA). Acredito em Igrejas inclusivas, acredito nas esperanças do que restou da Teologia da Libertação latino americana. Na história, o Cristianismo sempre foi uma religião marcada por uma “flexibilidade semântica” incrível. Viradas históricas singulares.
MJ – O papa Leão XIV publicou um pedido de perdão pelo papel da Santa Sé na legitimação da escravidão, inclusive pela igreja ter demorado séculos para condená-la. O que isso representa?
RV – De fato, foi inédita a forma de pedido de perdão do Papa Leão no que diz respeito o apoio da Igreja à escravidão negra nas américas. E isto tem muito do Papa Leão XIII (no qual Leão XIV se inspirou). Em 1888, o Leão XIII envia um documento aos bispos do Brasil e a Princesa Isabel pedindo o fim da escravidão e fazendo críticas a esta nefasta forma de acumulação do capital (palavras minhas, não do Papa). O documento tem o seguinte nome: “In Plurimis” – Entre os muitos. Publicado em 05 de maio de 1888. No documento, o Papa Leão XIII chama os negros de “infelizes escravos” e conclama a Igreja do Brasil e as figuras do poder a “abolir a escravidão de todo o território nacional”. Vejo que o atual Papa Leão, queria seguir e ampliar os passos daquele Papa que lançou as bases da doutrina social da Igreja. Ainda que acredito que o Papa Leão XIV foi sincero: sabe ele que a escravidão e o apoio da Igreja foi um negócio lucrativo para os senhores do Capital, mas uma lástima para a condição humana.
A Igreja demorou muito a reconhecer isto por duas razões históricas: primeiro, as mudanças na Igreja são lentas. A igreja católica é uma instituição originalmente conservadora. Muda em forma lenta. Basta ver a situação do Concílio Vaticano II hoje. As modernas e necessárias mudanças que trouxe o Concílio, está sendo hoje atacada por todos os lados. Mudança não é uma palavra forte no vocabulário católico. Salvo as exceções de sempre. Vejo o Papa Francisco como uma dessas exceções na história da Igreja. Segundo e mais grave, um setor considerável da Igreja sempre foi atraído por uma “mentalidade escravocrata”. A igreja católica sempre foi próxima ao modelo monárquico e essa “cultura monárquica” sempre foi acompanhada da forma escravista. Entrou na igreja uma forma de pensar servil, escravocrata… E isto marcou as hierarquias católicas. Triste isso, mas real. Uma opinião pessoal: um “mentalidade escravocrata” ainda hoje seduz os setores mais conservadores e tradicionalistas do catolicismo romano.
MJ – Ainda sobre Leão XIV. Ele finalizou um texto do papa Francisco (Dilexi Te), uma exortação de esperança e engajamento no acolhimento aos mais pobres. Agora, Leão XIV solta sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, onde expressa preocupação, mas sem medo, com as novas tecnologias. O subtítulo do documento é “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. Duas coisas: a nova encíclica é um outro documento engajado nos problemas reais, reduzindo o catecismo devocional? E que medida essa nova encíclica mexe com as extrema-direita católica que se movimenta nas redes?
RV – A primeira Encíclica do Papa Leão XIV será um marco em seu pontificado e uma obra para a posteridade. Afirmo isto baseado na importância do tema da IA (Inteligência Artificial) que aparece no terceiro capítulo do documento. O Papa não é um “especialista” em IA. A preocupação central é: salvaguardar a pessoa humana diante da avalanche que se tornou a IA na era das redes digitais e na nova forma de acumulação do Capital em termos midiáticos. Sem dúvida, o texto papal vem em boa e difícil hora da humanidade. Em tudo o documento é o oposto dos tradicionalistas católicos. No estilo e no conteúdo. O Papa não parte de nenhuma condenação a priori. Inclusive, raramente aparece a palavra “inferno” no texto. No estilo, o Papa se diferencia da forma tradicional de escrever documentos oficiais na Igreja. Leão XIV se filia diretamente ao Concílio Vaticano II. E com isto, isola uma ala mais conservadora e devocionalista do catolicismo romano atual.
A Encíclica é uma crítica indireta a uma extrema direita católica que se filia a gente como Curtis Yarvin, Steve Bannon, Peter Thiel ou Olavo de Carvalho. O Papa se posiciona em situação diametralmente oposta ao “Vale do Silício” e sua cultura digital. O documento se torna um aliado daqueles e daquelas que tem em seus estudos sobre redes digitais as preocupações ético-políticas num meios pantanosos que se tornou essas redes digitais. O documento papal retoma uma tradição que chamo de “humanismo radical”, onde a salvaguarda humana é fundamental. De Jacques Maritain a Frantz Fanon chegando ao Papa Francisco, o Papa Leão situa o catolicismo romano numa linha de pensamento que vai posição oposta ao extremismo de direita que cresce dentro da Igreja mundialmente.


