Disputar a memória. Um chamado aos que se dedicam à rara atividade da leitura em tempos do feed infinito

Livro de Heitor: memória da família a partir de lembranças do seu avô (Crédito Divulgação)

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

Nestes últimos dias, como em tantos outros, eu estava rolando a tela do celular. Passei cerca de uma hora, minha média diária, consumindo vídeos curtos de, no máximo, dois minutos. Em muitos deles, não permaneci por mais de três segundos. Ao final dessa hora, estava mais cansado do que quando julguei ser uma boa escolha para descansar. Notei, então, que não me lembrava do primeiro vídeo. Nem do segundo. Na verdade, mal recordava da maioria, exceto os mais recentes da minha rolagem quase infinita. Será que estou perdendo a memória? A resposta é óbvia e simples: não! Mas, ao que parece, há quem se beneficie do contrário. 

Estou, cada vez mais, convicto de que a perda de memória faz parte do projeto das chamadas Big Techs. Isso não significa que elas queiram nos causar amnésia, mas que seus lucros estão diretamente ligados a um consumo superficial de informações de baixa retenção.

É preciso sempre lembrar que essas companhias não são nada mais que empresas de publicidade. Elas ganham dinheiro não com o chamado “tempo de tela”, mas com o que podem nos vender enquanto estamos expostos a ele. Entre um story e outro, sempre há uma propaganda daquele sapato específico que você admira. O motivo? Seus gostos são dados que alimentam algoritmos, sedentos por informações para direcionar publicidade de acordo com suas peculiaridades e preferências.

Ao longo dos últimos dez anos, os avanços de ferramentas que “prendem” mais a nossa atenção cresceram de forma exponencial. Antes, por exemplo, tínhamos a opção de escolher a quais vídeos daríamos o play. Hoje, basta abrir o aplicativo para que eles comecem a tocar, sem qualquer consentimento. Mas independentemente de ser um projeto deliberado ou não, nossa atenção está sendo ferozmente disputada, e isso, sim, pode afetar nossa memória. 

Fiz essa breve introdução para, agora, falar sobre meu encontro com Cristian Góes. O jornalista da Mangue Jornalismo, que também é tio de um grande amigo, foi chamado para a inauguração de um espaço de leitura na sede do IBGE, instituição onde trabalhei por três anos como Agente de Pesquisa e Mapeamento. Meu contrato terminou em março deste ano e, desde então, comecei a tirar alguns projetos do papel para levantar uma grana.

“A memória, por vezes, se parece com a poeira sobre os móveis velhos na casa do meu avô, que, com um sopro, se espalha e se perde no horizonte”, diz Heitor (Crédito Divulgação)

No final de julho, lancei meu primeiro livreto, chamado “Homens Não Recebem Flores”, no qual discuto a memória da minha família a partir de recortes e lembranças da minha relação com meu avô. Cristian foi um dos organizadores de um texto sobre atuação da Ditadura Militar em nosso estado, intitulado “Borracha na cabeça”. Tínhamos textos sobre memória em comum, eu discutia a memória particular e ele a coletiva.

A inauguração do espaço contava com uma roda de conversa com o tema “Disputar a memória coletiva”. E, em tempos de atenção deteriorada, passamos cerca de duas horas conversando com servidores e contratados naquela sala. Tive a oportunidade de conhecer sua história e sua trajetória no jornalismo independente. 

Ao final da conversa, fui convidado a escrever um pequeno texto e pensei: por que não falar de memória?

No meu livreto, faço uma provocação sobre como a memória, por vezes, se parece com a poeira sobre os móveis velhos na casa do meu avô, que, com um sopro, se espalha e se perde no horizonte. Nas famílias mais pobres, como a minha, a memória costuma residir na oralidade da tia ou do avô que sempre revisita as mesmas histórias, com os mesmos detalhes e as lembranças vivas. Uma memória que, assim como a poeira ao sopro, costuma desaparecer com a morte de quem a contava.

Escrevi o livreto principalmente para meus filhos, pois quero que eles saibam quem foi seu bisavô. Quero que se lembrem do Seu Carlito e saibam quem ele foi. Não por alguma grandeza específica, mas pela simplicidade de ser um homem comum, com seus defeitos e amores. 

Durante o processo de produção da identidade visual do projeto, pensei na frase “Disputar a memória” como slogan principal para o projeto. Pois, para mim, já era óbvio que a memória estava em constante disputa. A decisão de contar a história do meu avô em um pequeno livreto foi, antes de tudo, uma tomada de posição. Se uma história pode ser contada de diferentes formas, ela pode também nunca ser contada e, por consequência, ser esquecida.

Mas o que devemos esquecer? Qual o critério? Para mim, a resposta está na pergunta oposta: o que precisamos lembrar? E aqui provoco você caro leitor ou leitora.

“Se uma história pode ser contada de diferentes formas, ela pode também nunca ser contada e, por consequência, ser esquecida”, diz Heitor (Crédito Divulgação)

Precisamos lembrar dos heróis, para que inspirem os próximos; das violências, para que nunca se repitam; e das nossas histórias, para que saibamos quem somos. A mim, não interessa tanto saber quem foi Alexander Hamilton; mas sonho que um dia todos saibam a história de Tobias Barreto, que, no interior do menor estado brasileiro, aprendeu alemão sozinho. É preciso disputar a memória e contar a história dos nossos. Contar os crimes e as injustiças. Mesmo que os incomodados nos processem. 

No momento em que escrevo este texto, acabo de regressar da exposição de Roméo Mivekannin, artista beninense radicado na França, no Museu de Arte Moderna da Bahia. Parte de sua obra consiste na recriação de trabalhos clássicos com o seu estilo e, principalmente, com o seu rosto. Ele faz isso de forma proposital, para nos levar a questionar as figuras negras esquecidas na história da arte. Abro aspas para o texto da exposição: “O artista interpela-nos com o seu olhar, perguntando: Quem pinta? Quem é pintado? Quem está presente nas obras, mas também quem está ausente?”.

Em uma de suas obras expostas no museu baiano, ele recria um famoso quadro do Museu do Prado chamado “Retrato da Rainha Isabel de Bourbon a cavalo”. No original, pintado pelo espanhol Diego Velázquez, a então rainha está montada em um cavalo, coberta por uma vestimenta que nos permite ver apenas a cabeça e um pouco das patas dianteiras do animal. A rainha ocupa a maior parte da tela, em uma demonstração de poder e elegância. Roméo, então, apropria-se dessa obra e a replica, colocando-se no lugar da rainha. Nessa releitura do quadro de Velázquez, o artista parece se preocupar com outra questão e nos provocar: E os nossos reis? Onde estão? 

Roméo, assim como eu e Crístian, também parece estar preocupado com a memória. E então, eu me pergunto: a esta altura do campeonato, quem não está? E por que não estaria? Quanto a estes últimos, deixo minha preocupação. Devem estar mais interessados no que a blogueira comprou ou na nova trend da semana, que logo será esquecida. Aos leitores que chegaram até aqui, este texto é um chamado. Nossos cérebros estão literalmente apodrecendo (brain rot) com a rolagem infinita, e nossa memória parece incapaz de reter algo além das superficialidades que os algoritmos nos oferecem.

Quando digo que é preciso disputar a memória, estou convidando a todos para que leiam, conversem, fiquem em silêncio e exercitem o músculo mais importante da vida humana. Disputar a memória pressupõe conhecê-la. Pressupõe explorá-la. E não, ela não está nas telas. Aproveitem enquanto há tempo, pois, embora o relógio continue seguindo sua cadência, como em toda a história, não sabemos o que o futuro nos reserva, mas podemos sempre lembrar do passado.

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Luis Heitor Santana

Graduando em Economia na Universidade Federal de Sergipe, membro do grupo de pesquisa Natureza Humana, Pluralismo e multiculturalismo no âmbito dos Direitos Humanos (NAHMU-UFS). Escritor e roteirista é também autor do livreto “Homens não recebem flores”. Também coleciona trabalhos audiovisuais.

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