Depois da ditadura, tensões entre Diocese de Propriá e elites comprometeram as lutas em favor dos pobres

OSNAR GOMES DOS SANTOS, especial para Mangue Jornalismo
(osnar.gomes@hotmail.com)

Na véspera de Natal do ano de 1999, dom José Brandão de Castro morreu (Crédito: CDJBC)

Em 1985, derradeiro ano oficial da ditadura militar, espalhou-se pelos corredores da igreja em Sergipe que o bispo de Propriá, dom José Brandão de Castro anunciou a sua intenção de renunciar. O padre belga Joseph Comblin estranhou essas conversas. Numa carta a dom Brandão, o padre fez ao bispo um apelo: “O sr sabe que a imensa maioria da diocese lhe fez confiança e conta com a sua proteção. Precisam do sr para que dom Luciano não coloque aí um dos seus capangas. Porque o sucessor será um capanga designado por ele e por dom Eugênio [Sales]”.[1]

Padre Comblin era um nome forte do catolicismo. Intelectual de renome internacional, estudou as ideologias de segurança nacional na América Latina e se mostrou um intérprete habilidoso da situação política e religiosa no continente.

Para Comblin, os jogos de poder estariam por trás da saída do bispo de Propriá. Naquele período, no plano nacional, havia uma grande discussão sobre a reforma agrária. Ele diz na carta: “Nesta época em que alguma coisa se vislumbra de possível reforma agrária, querem o sr. [dom Brandão] fora da diocese”.[2] Completou o padre:

Com o sr. em Propriá, os camponeses terão mais coragem para exigir reforma agrária. Sem a sua presença, estarão mais desanimados. O núncio presta auxílio aos latifundiários sergipanos e a CODEVASF que não querem reforma agrária. Pelo menos o sr. deve ficar até que se acabe a reforma agrária. Sem a Igreja, a reforma agrária é impossível e os camponeses não têm força.

Dom José, antes de decidir, pense nos milhares de miseráveis que irão sofrer. É melhor o sr. sofrer um pouco mais e aliviar esse sofrimento de milhares que sempre foram vítimas.

Todos os problemas canônicos de que lhe falarão em Roma, são fachada e pretexto. Por trás desses funcionários impassíveis, está a cara dos latifundiários de Sergipe. Eles estão trabalhando em Roma desde há anos. Acham que agora vão vencer. E com dom Luciano estão todos os opressores tradicionais de Sergipe. Por trás de cada monsenhor da cúria que o interpelar, o sr. poderá reconhecer as grandes famílias sergipanas que querem a sua pele e acharam o instrumento fiel. Lá continua o combate de Sergipe. O sr. não está só, porque ao seu lado, estão os 300.000 famintos da sua diocese.

Que o Espírito o ilumine e lhe dê a coragem dos profetas. Que o Senhor Jesus o acompanhe no meio dos vendedores do templo. Depois do sr. virão outros. Um por um o núncio vai querer acabar com todos. Mas os grandes não podem triunfar sempre.

O sr. desculpe esta minha liberdade. Estou adivinhando todas as pressões em sentido contrário.[3]

As palavras poderiam ser interpretadas como catastrofistas não fossem elas ditas pelo mesmo padre que alertou sobre as fragilidades do governo Allende, muito antes deste ter sido vítima de um golpe de Estado no Chile. Estudioso das conspirações políticas no continente, Comblin disse saber que as pressões da nunciatura contra dom Brandão eram fortes, ainda que inadmissíveis. Porém, em nenhum momento da carta citou o motivo da intenção do bispo em renunciar. Talvez porque ainda não tinha conhecimento do estado de saúde de dom Brandão.

Mesmo que o bispo tenha anunciado a sua intenção de renunciar em 1985, como aponta a carta de Comblin, ele resistiu por mais dois longos anos. Embora existissem pressões contra o seu pastoreio, recentes depoimentos apontam que o motivo principal para a renúncia foi mesmo o seu frágil estado de saúde, começando a ser afetado pelo mal de Alzheimer.

O depoimento de Hildebrando Maia ajuda a esgotar as dúvidas sobre as reais motivações por trás da renúncia de dom Brandão, oito anos antes da idade canônica para aposento. Hildebrando narrou uma importante conversa que teve com o bispo:

A publicação [da renúncia, no jornal A Defesa] foi depois que ele comunicou numa reunião dos agentes de pastoral e do clero […]. Ele celebrou a missa, como ele fazia de costume; tinha uma capelinha na casa dele. E, na mesa, ele chorou muito […] um choro compulsivo, aquele choro intenso, forte e, a Irmã Irene [religiosa e irmã biológica] ficou tentando acalmá-lo, e ele disse que […] tinha que renunciar. Ele tinha consciência de que a saúde dele não permitia mais ele continuar à frente da Diocese, e ele tinha que tomar aquela decisão no momento em que ele estava lúcido, porque ia chegar o momento em que ele não teria mais a lucidez para tal decisão. Acho que até nisso foi um ato de humildade […].[4]

De fato, é difícil imaginar um bispo que enfrentou, ao longo de duas décadas, pressões de todo tipo renunciar em razão de novas pressões. Essa também era a posição do padre Luís Rodrigues de Souza – padre ordenado por dom Brandão.

A renúncia de dom José Brandão de Castro

Ao longo dos seus 27 anos de episcopado, dom Brandão passou por várias reviravoltas. A metamorfose do bispo, acelerada após o episódio em Betume, o levou a conviver com situações impensáveis, para não dizer absurdas.

Assistiu a buscas policiais, a ameaças de morte, pedidos de expulsão e boicotes contra as atividades pastorais de sua diocese. Perdeu amigos, mas ganhou aliados. Foi chamado de “cão”, anticristo, papa do diabo e comunista. Responsabilizado pela discórdia local, conviveu com o monitoramento e a difamação. Eram os frutos a serem colhidos por romper com a ordem instaurada pela “Revolução de 64”; produtos do protagonismo que exerceu na luta pela terra e contra as iniquidades estruturais presentes em Sergipe e no país.

No meio das adversidades, nunca esteve isolado. Aos 67 anos, apresentou o seu pedido formal à nunciatura. Renunciou. Como não poderia deixar de ser, em sua despedida, uma multidão o aguardou para dar o seu adeus derradeiro.

Despedida de dom Brandão e posse de dom José Palmeira Lessa, novo bispo de Propriá (Crédito: CDJBC)
Os cantores populares, os comitês de trabalhadores rurais, lideranças políticas e autoridades eclesiásticas participaram, pela última vez, de uma manifestação convocada por dom Brandão. (Crédito CDJBC)

Após a sua despedida, no dia 24 de janeiro de 1988, dom Brandão, na manhã do dia seguinte, voltou para Minas Gerais. Sua luta, então, passou a ser contra o mutismo imposto gradativamente pelo mal de Alzheimer.

Ano de 1996, o então bispo emérito dom Brandão na cidade de Curvelo, Minas Gerais, ao lado do seu enfermeiro. (Crédito: CDJBC)

Na véspera de Natal do ano de 1999, o bispo emérito faleceu. Segundo o padre Isaías Nascimento, sete anos depois, o pároco da catedral de Propriá, monsenhor Oldair Francisco, apoiado pelo terceiro bispo da diocese, dom Mario Sivieri, trouxe uma urna de madeira com os restos mortais de dom Brandão para a cidade de Propriá.[5]

A entrada da diocese nos anos 1990, após a ditadura 

Em seu discurso de despedida, naquele dia 24 de janeiro de 1988, dom Brandão recomendou ao novo bispo as 656 famílias (aproximadamente quatro mil pessoas) assentadas nos acampamentos. Falava das famílias de assentados que viviam próximas das localidades de São Clemente, Lagoa das Areias, Monte Santo, Pedras Grandes e Morro dos Chaves; e nos assentamentos morosos de Barra da Onça, Ilha do Ouro e Borda da Mata. Ademais, falou das 1.400 famílias que enfrentavam conflitos de terra em povoados dos municípios de Pacatuba, Malhada dos Bois, Brejo Grande e Neópolis.[6]

O novo bispo se chamava José Palmeira Lessa. Natural de Coruripe, Alagoas, foi ainda criança para o Estado do Rio de Janeiro. Passou pelo Seminário e, no ano de 1968, foi ordenado por dom Eugênio Sales bispo-auxiliar da arquidiocese de São Sebastião naquele Estado.

Curioso o fato de o padre José Comblin ter pressagiado que, com a saída de dom Brandão, um religioso ligado a dom Eugênio Sales seria o seu substituto. Porém, Lessa não pareceu ter chegado à região para servir como “capataz” de dom Eugênio. O novo bispo iniciou o seu pastoreio seguindo as recomendações de dom Brandão.

Acatando os apelos de dom Brandão para não abandonar as famílias de assentados, dom Lessa logo virou pivô de um conflito de terras que se enrolou por longos anos em Sergipe.

O conflito de terras no povoado de Lagoa Nova, município de Pacatuba, envolveu inicialmente 12 famílias de posseiros e o ex-deputado federal Bosco França, então proprietário da Destilaria Santana e um dos acionistas da Serigy. A disputa violenta ganhou novamente as páginas dos jornais.

O enredo da história trazia conhecidos elementos da violência no campo: jagunços com armas em punho, tentativas de diálogos fracassadas e denúncias graves de crimes hediondos contra posseiros.

Jagunços espancaram agentes de pastoral

Um episódio funesto aconteceu no dia 25 de março de 1991. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) diocesana soube que tratores passariam por cima da cerca e das plantações dos posseiros acampados de Lagoa Nova.

Irmã Hermínia tenta um acordo com jagunços. (Crédito: Jornal Cinform, 03 a 09 de janeiro de 1991)

Foi dito que, pressentindo a violência iminente, a CPT escolheu alguns visitantes para passar a noite na área, a fim de dar apoio aos posseiros. A irmã Hermínia, agente da CPT, e José Martins, seminarista diocesano, foram os escolhidos.

Os dois visitaram casas de trabalhadores e fotogravaram os lugares onde os pistoleiros tinham atirado dias antes.[7] À noite, foram descansar. Segundo testemunho, na madrugada, ouviram latidos de cachorro, barulho de carro e conversas altas. Tudo pareceu se acalmar. Pela manhã, o posseiro Deusdete dos Santos desconfiou que os jagunços armaram uma arapuca contra ele.

Ainda pela manhã, foram ouvidos os primeiros roncos dos tratores. De prontidão, José Martins e a irmã Hermínia resolveram registrar mais um episódio de violência. Mal sabiam eles que, naquele dia, a violência também os atingiria.

José Martins teve a sua máquina fotográfica arrancada das mãos. Em seguida, começou a ser espancado. Segundo relatos: “Derrubaram-no no chão e deram-lhe muitos murros nos olhos, na nuca, na testa e quando derrubaram-lhe, chutavam-no”.

Ferimento causado por jagunços no seminarista José Martins. (Crédito: CDJBC)

Manchas de sangue se formaram no chão devido às coronhadas que levou na cabeça. Enquanto jagunços espancavam o jovem seminarista, um deles se aproximou da irmã Hermínia.

Proferiu algumas palavras. Disse que a freira tinha idade para ser sua mãe, mas que, ainda assim, não a pouparia. Não pareceu existir um dilema moral em agredir uma freira:

Deu-lhe um soco no olho esquerdo. Retirou-lhe a bolsa que continha documentos pessoais, revistando tudo o que havia dentro. Ao ver a Bíblia que ela tinha na bolsa, perguntou-lhe que livro era aquele. Quando ela disse que era a Bíblia, ele disse-lhe que fosse rezar em vez de ficar roubando terra e agitando o povo pobre. Todas essas acusações foram ditas sob a mira de uma escopeta, bem perto do rosto [da freira].[8]

Irmã Hermínia após os ocorridos no povoado de Lagoa Nova.(Crédito: CDJBC)

José Martins, por sua vez, era levado pelos jagunços. Ao passar por perto da casa de Deusdete, ouviu deste: “Venha José Martins, se tivermos que morrer, morremos juntos”. Deusdete abrigou o seminarista.

A porta de sua casa foi derrubada pelos jagunços. Queriam de Deusdete informações sobre a localização de José Pretinho, outro posseiro. Os jagunços retiraram os seis filhos e a mulher de Deusdete da casa. Foi a vez de Deusdete conhecer a fúria dos jagunços.

Segue as descrições da violência contra ele: “Não conseguindo as informações desejadas, um [dos jagunços] pisou em seu peito, obrigando-o a colocar a língua para fora e abrir a boca, disparando sua arma dentro da boca do trabalhador”.[9]

A freira e o seminarista fugiram para o meio da mata temendo serem mortos. Por mais de duas horas, ficaram perdidos nos canaviais. Em seu relato, José Martins contou que, durante a fuga, avistou duas casinhas de longe.

Na esperança de alcançá-las, ele e a freira “caminhavam e caminhavam”. Mas, em suas palavras, aquelas casinhas pareciam ser ilusão de ótica ou um sinal para encontrar, enfim, a saída.[10] Sentiam sede, pois perdiam muito sangue. No meio da fuga, encontraram um pé de jurubeba. Dividiram as frutinhas para mastigá-las e produzir saliva.[11] Preocupavam-se com os acontecimentos e principalmente com a vida de Deusdete. 

Sindicalistas que circulavam pela área foram informados do episódio de violência dirigido pelos jagunços. Comunicando à polícia, os sindicalistas foram até o local, acompanhados pelas forças de segurança do Estado.

A primeira imagem que avistaram foi a de um homem com um pano no rosto, ensanguentado.[12] Era Deusdete. Jurado de morte pelos jagunços, Deusdete, um homem de 40 anos de idade, foi socorrido e levado ao Hospital de Cirurgia, em Aracaju, onde ficou internado.

Dom Lessa conversa com os trabalhadores e policiais, 26 de março de 1991.(Crédito: CDJBC)

O desenrolar do caso na Justiça

Naquele mesmo dia, os jagunços foram detidos. Segundo informação veiculada na imprensa e nos jornais, poucos dias depois da prisão, um advogado de Bosco França libertou todos os jagunços mediante o pagamento de fiança. Após o clímax do episódio, um longo conflito judicial entre dom Lessa, CPT e Bosco França foi iniciado. Isso porque o promotor de Pacatuba, Patrício Ferreira de Farias, arrolou como réus todos os envolvidos, direta ou indiretamente, no caso.

Foram indiciados posseiros, jagunços, Bosco França, a irmã Hermínia, o seminarista José Martins e, até mesmo, dom José Palmeira Lessa. O apoio de dom Lessa aos posseiros de Lagoa Nova o levou a ser processado juntamente com os dois agentes de pastoral da sua diocese.

Nos jornais, pulularam notas na imprensa local e nacional comentando o fato de um bispo estar sendo processado por “incitar invasões de terras”.[13]

Bosco França chamava o bispo e seus agentes de “pistoleiros da fé”.[14] Enquanto sua esposa, em entrevista, perguntava o motivo de não existir invasões de terra nos municípios de Boquim, Riachão e Umbaúba. Ela mesma respondeu: “Logicamente porque naquela região não há padres e freiras belgas”.[15] Bosco França disse não ser contra a reforma agrária. Entretanto, não concordava com a atuação de religiosos que, no seu entender, queriam “uma reforma agrária de sangue”.[16]

No campo político, Bosco França recebeu o apoio intrépido do seu parente e deputado Luiz Mitidieri (PMDB-SE). Mitidieri chamava o bispo de mentiroso, acusava os religiosos de “armar os trabalhadores” e caracterizava Bosco como um homem pacífico.[17] Por sua vez, dom Lessa recebeu o apoio de dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).[18]

Na imagem, irmã Francisca, Marcelo Déda, Renato Brandão, Elda e Hildebrando Maia, presentes na audiência, agosto de 1991. (Crédito: CDJBC)

Ao passo em que se desenrolava o conflito em Lagoa Nova, a diocese manteve envolvimento noutras tensões sociais. A título de exemplo, dom Lessa participou das passeatas públicas que pediam explicações da Justiça sobre o desaparecimento do menino Cosme, de 14 anos de idade. 

Dom Lessa participa das manifestações sobre desaparecimento do menino Cosme. (Créditos: CDJBC)
Imagem de manifestação sobre o desaparecimento de Cosme (Crédito: CDJBC)

Caso de grande repercussão envolvendo um garoto, filho do trabalhador rural Rafael José dos Santos, desaparecido há meses.[19] O caso repercutiu internacionalmente. Entidades se manifestaram em solidariedade a Rafael dos Santos, dentre elas a Anistia Internacional, que enviou uma carta ao governador João Alves Filho cobrando empenho nas buscas do menino Cosme.

Além da Anistia Internacional, outras entidades do exterior, conhecidas na defesa dos direitos humanos, enviaram notas de solidariedade e cobranças para as autoridades políticas.

Havia uma suspeita de que a Usina Grande Valle, de Neópolis, estivesse por trás do desaparecimento, dado que mantinha uma relação conflituosa com Rafael, o pai do garoto, ao ponto de enviar os seus jagunços para destelhar a casa do trabalhador.[20]

Casa de Rafael, destelhada pela Usina Grande Valle, ano de 1992 (Crédito: CDJBC)

A prática de intimidar trabalhadores destelhando as suas casas era tão comum que um membro da família proprietária e supervisor da Grande Vale, Guilherme Tenório, chegou a confirmar, numa entrevista por telefone, que houve o destelhamento de três casas, “mas sem violência”. Ainda na entrevista, afirmou que, por ordem judicial, as telhas estavam sendo recolocadas.

Casa de Cícero, filho de Rafael, destelhada pela Usina Grande Valle, ano de 1992. (Crédito: CDJBC)

Para piorar a situação, a diocese fez denúncias graves de crimes hediondos, que envolviam torturas, mutilações, corpos carbonizados, cemitérios clandestinos e ossadas humanas misturadas às de animais no meio dos canaviais das usinas instaladas na região.[21]

Dom Lessa apontou que corpos de trabalhadores eram sepultados nesses cemitérios e que alguns desses corpos já haviam sido desenterrados! Essas denúncias sobre a existência de cemitérios clandestinos tiveram ampla repercussão.

O documento que expunha os crimes foi assinado pelo bispo dom Lessa, pela coordenadora da CPT local, irmã Maria Pereira Chaves, pelo conselheiro da diocese, frei Enoque, pelo coordenador da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Franklin Magalhães Ribeiro, e pelo coordenador do Centro Sergipano de Educação Popular, Carlos Trindade.

Todos esses casos de extrema violência aconteceram num Brasil pós-ditadura. Mas, os laivos autoritários não desapareceram como num passe de mágica. As sequelas do autoritarismo brasileiro vinham de longe. E a ditadura militar de 1964 a 1985 não foi um caso desconexo de uma longa história de golpes e arbitrariedades.

Apesar disso, a ditadura caiu. Os anos 1990 iniciavam com um presidente brasileiro democraticamente eleito. O país tinha até uma nova Constituição, fruto do clamor por liberdades civis e políticas.

As mudanças políticas refletiram na Igreja em Sergipe

A situação religiosa na América Latina mudou radicalmente. Os envolvimentos da diocese na tessitura política e social pareciam estar indo longe demais. Para alguns, não tinha mais motivos para a Igreja continuar a se envolver tão diretamente naquelas lutas.

Era preciso recuar, deixar que os novos movimentos seculares tomassem as rédeas no terreno político e social. À Igreja, caberia voltar a centralizar as suas atividades no “campo da fé”.

O retrato de uma freira, em jornais de ampla circulação do Estado, com o olho esquerdo roxeado por jagunços não era um bom sinal, muito menos naqueles anos de “volta à grande disciplina” católica.

Na primeira imagem, irmã Hermínia dá entrevista à TV Globo. Na segunda, aparece Deusdete. (Crédito: CDJBC)

Importa reforçar que o novo bispo deu apoio às vítimas de agressão, chegando até a contratar o advogado Eduardo Greenhalgh para defender os envolvidos de sua diocese naquele conflito. O advogado era conhecido por suas defesas a presos políticos durante a ditadura.

Porém, segundo um documento confidencial da polícia política, a presença do advogado no caso Lagoa Nova gerou a revolta de Bosco França, que a considerou uma clara demonstração do vínculo político da “parte doente da Igreja” com o PT, partido ao qual Greenhalgh era filiado.[22]

Apesar da sintonia entre a equipe missionária e a alta hierarquia da diocese, o episódio de Lagoa Nova foi muito desgastante, de acordo com a irmã Dalila Caetano.[23] Dalila, que escreveu a biografia da irmã Hermínia, comentou que os anos 1990 começaram com uma caminhada quase inversa à caminhada dos anos anteriores.

Citou alguns pontos pertinentes. Segundo ela, fazia algum tempo que o grupo, sobretudo de padres, que assumia a causa dos pobres estava sendo desfalcada.[24] Irmã Dalila não especificou os motivos, mas alguns acontecimentos podem responder à questão.

Importantes religiosos saíram da diocese para atuar em outras regiões voluntariamente, como foi o caso do frei Roberto Eufrásio e do marista Fábio Alves dos Santos. Por outro lado, alguns religiosos embarcaram para a política institucional, como foram os conhecidos casos do frei Enoque e do padre Gerard Olivier.

O primeiro chegou a se eleger por três vezes prefeito da cidade de Poço Redondo. O segundo foi eleito prefeito de Japaratuba em quatro ocasiões. Também veio a morte precoce do padre Nestor Mathieu, que veio a falecer na Bélgica.

Contudo, nem todas as perdas foram voluntárias ou naturais. De fato, desgastes internos também contribuíram para outras saídas. Posições de dirigentes da CPT se desencontraram com a postura de dom Lessa.

Num documento da entidade, revela-se que relatório assinado pela equipe local da CPT de Propriá acirrou os ânimos entre a entidade e o bispo. A CPT assumiu que o relatório, que tornou públicas divergências entre a entidade e o bispo, continha erros e imprecisões.

As tentativas para contornar o mal-estar criado em decorrência da sua publicação não lograram êxito.[25] Segundo a irmã Dalila, duas freiras da Santíssima Eucaristia – que eram lideranças da CPT local – passaram a ser consideradas pessoas não gratas naquela diocese.[26]

Depois da saída dessas duas irmãs, outras freiras da Congregação tomaram a posição de abandonar as atividades na diocese em março de 1993, incluindo a atuante irmã Hermínia.[27] Ainda neste ano, no primeiro semestre, a CPT local foi extinta.

Divergências na tática: entre o basismo e o leninismo 

Além desse desgaste, alguns anos antes já se pavimentavam divergências de táticas em meio às lutas. Um caderno de experiência do Movimento de Educação de Base (MEB) em Mundéu da Onça comentou sobre as diferentes formas de atuação da Igreja e apontou como o basismo dificultava uma maior articulação das organizações.[28]

Em relação ao basismo adotado por alguns católicos, o sociólogo Michael Löwy lembrou:

[…] é verdade que entre muitos dos membros das CEBs e agentes pastorais, existe normalmente uma forte tendência basista, que leva ao localismo, a um ritmo lento de organização, à desconfiança de “estranhos” e de intelectuais e a um baixo nível de politização. Isso foi objeto de críticas por parte dos teólogos da libertação (como Clodovis Boff e Frei Betto) e marxistas. Mas é preciso deixar claro que as comunidades de base ajudaram a criar uma nova cultura política no Brasil, “a democracia nas bases”, em oposição não só ao autoritarismo militar, como também às três tradições políticas principais do país: o clientelismo […], o populismo […] e o verticalismo, muitas vezes utilizados pelas forças principais da “velha” Esquerda, seguindo o exemplo soviético e chinês.[29]

Diferentes concepções de luta chegaram ao auge no conflito em Barra da Onça, quando os métodos utilizados por frei Enoque entraram em atrito com os de Manoel Dionísio da Cruz, um importante líder sindical que cobrava ações mais enérgicas na luta pela terra.

Alguns estudiosos observaram que Dionísio apostava numa reforma agrária politizada, “cuja produção deveria ser coletiva – uma espécie de ensaio para o socialismo”. Enquanto que frei Enoque defendia um enfrentamento mais contido, baseado na tática da não-violência, como rezava a cartilha da Igreja.[30]

A disputa entre Dionísio e Enoque atiçou a curiosidade da Polícia Federal, que levantou informações sobre os conflitos em Barra da Onça e mencionou em seus relatórios as divergências entre o frei Enoque e Dionísio.[31]

Sobre as diferentes concepções de luta, vale lembrar que, com o fim da ditadura, havia no país um clima de efervescência política. Novos partidos e movimentos sociais foram formados e, entre eles, existiam diferentes táticas para a luta política.

O choque entre táticas causou desgastes no caminho da diocese. Dito isso, com erros e acertos, divergências e convergências, a diocese chegou aos anos 1990 com desgastes que mexeram na sua estrutura de atuação. E esses desgastes foram, indiscutivelmente, ainda maiores em razão da inflexão que atingiu toda a Igreja da América Latina naquele início da década de 1990.

Governo Reagan articulou estratégias para frear o avanço da Teologia da Libertação

Não custa lembrar que algumas convergências entre mudanças políticas e religiosas foram decisivas à atenuação do movimento do cristianismo da libertação no continente.

Já em fins da década de 1960, mais precisamente em agosto de 1969, foi publicado o Relatório Rockfeller. Este Relatório era o resultado da viagem de Nelson Rockfeller – então governador de Nova York – a países latino-americanos. O documento foi o primeiro alerta para a Casa Branca sobre os perigos de atitudes progressistas no continente.

Sobre a Igreja, o Relatório dizia que, embora passando a incentivar reformas positivas na sociedade, a instituição poderia dar uma guinada para o antiamericanismo.[32]

No limiar da década de 1980, na capital do Novo México, títeres da política externa americana, hostis ao governo Carter e articulados com a candidatura oposicionista de Ronald Reagan, elaboraram o primeiro Documento de Santa Fé.

O caráter alarmista do documento asseverava para a iminente ameaça da hegemonia americana na América Latina.[33] Defendiam que as manifestações inamistosas para com os Estados Unidos deveriam ser combatidas de modo implacável.

Uma dessas “manifestações inamistosas” era a Teologia da Libertação. No Documento de Santa Fé I, diz-se que: “A política externa dos Estados Unidos deve começar a enfrentar a Teologia da Libertação tal como é utilizada na América Latina […]”.[34]

O segundo Documento de Santa Fé, lançado em 1988, quando Reagan já era o presidente, foi ainda mais radical. Para eles, a Teologia da Libertação se tratava de uma “ofensiva cultural marxista”, a saber: uma estratégia dos comunistas para conquistar o regime político não mais através da guerrilha ou da conquista dos operários, mas da dominação da cultura da nação.[35]

Numas poucas palavras, assim resumiram a Teologia da Libertação: “doutrina política disfarçada de crença religiosa, com um sentido antilivre-empresa e antipapal, para enfraquecer a independência da sociedade do controle estatista”.[36]

Para os autores do documento de Santa Fé, que se tornaram importantes quadros do governo Reagan, a Teologia da Libertação não poderia ser tolerada. Não à toa, o governo Reagan financiou os “contras”, milícias contrarrevolucionárias na Nicarágua, e articulou uma operação que visava espalhar igrejas protestantes anticatólicas e pró-americanas pelo continente.[37]

As oposições do Vaticano contra a Teologia da Libertação

As ofensivas americanas contrárias à Teologia da Libertação foram fortalecidas por ofensivas que vinham de Roma.

Jeanne Kirkpatick, importante nome do Comitê de Santa Fé, tornada embaixadora nas Nações Unidas nos tempos de Reagan, chegou a comentar que o seu grupo de pressão compartilhava o mesmo interesse do papa João Paulo II em desestimular “cabeças de praia comunistas” no hemisfério. Disse ela:

O Papa é muito anticomunista e tinha uma visão do mundo que não divergia muito da que tínhamos, aqueles de nós do governo Reagan, sobre o comunismo […]. A questão da Igreja popular era um problema muito real. E o Vaticano, inclusive o papa e os seus representantes, compartilhava da ideia de que a Igreja popular de fato negava a autoridade do Papa. E isso não era bem-vindo. Nem por nós nem pelo Vaticano.[38]

Analisando relatórios da CIA, os vaticanistas Carl Bernstein e Marco Politi sustentaram que a Igreja ocupou um lugar de destaque nos projetos do governo Reagan para combater o comunismo e os movimentos de traços marxistas nas Américas.[39]

Logo nos seus dias iniciais, o governo neoconservador americano resolveu que o bloco sandinista na Nicarágua tinha que cair. Mas não foram os “contras” financiados por Reagan que derrubaram a Junta Sandinista. Pior: foi o voto democrático na eleição do ano de 1990.

É indiscutível a força desmoralizante que a derrota eleitoral sandinista exerceu sobre os militantes cristãos espalhados pelo continente. O declínio da Revolução Sandinista, da forma que se deu, teve para o cristianismo da libertação um peso muito maior que a queda do Muro de Berlim, derrubado três meses antes.

As vitórias do neoliberalismo, os fracassos das “terceiras vias” e o desmanche do socialismo real pavimentaram o caminho para uma generalizada crise das utopias.

Esse cenário global e os impasses locais convergiram para frear o impulso do movimento também em Sergipe. Nos anos 1990, o cristianismo da libertação na diocese de Propriá perdeu a sua dimensão.

A instituição foi deixando para os novos agentes políticos o papel principal nas lutas que se desenrolavam na região. De todo modo, a Igreja local ainda mantém a presença no campo político e social; porém, com uma nova roupagem.

Para além da situação religiosa, o mundo também mudou. A nova fase de ameaças nucleares, o triunfo do neoliberalismo e a consolidação de agendas antirreformistas e antirrevolucionárias criam horizontes de expectativas decrescentes.

Para muitos, as lutas pela libertação ou pela revolução foram substituídas pela luta por “políticas mitigadoras de sofrimento”. E, assim, as políticas focalizadas minaram as políticas universais. Ao invés das sonhadas reformas estruturais, o que temos é a gestão da catástrofe. Os apóstolos do status quo se apressam em dizer que não há alternativa.[40]

Numa conjuntura em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo[41], cabe a pergunta: a libertação faltou ao encontro?

O encontro entre o passado e o presente 

No ano de 1970, dois anos após a Conferência de Medellín, frei Juvenal realizou o que seria uma histórica pintura no altar-mor da paróquia de Porto da Folha. No centro da pintura, um Cristo não europeizado, mas de pele morena igual à pele de um sertanejo exposto ao sol.

Ao seu lado, figuras populares que representavam a opção de Cristo pelos servos sofredores locais: o vaqueiro, o agricultor, a rendeira, a bordadeira, o feirante, as plantadoras de arroz, o carreiro, a canoa de tolda, o jegue, o pilão, a professora e a pomba do Espírito Santo.

A obra artística passou a simbolizar a Igreja Popular em Sergipe e a sua opção pelos pobres em tempos de resistência.

Pintura de frei Juvenal no mural da paróquia. (Créditos: CDJBC)

Ao que parece, atitudes hostis contra o cristianismo da libertação na diocese de Propriá não cessaram ao longo dos anos. Mais recentemente, uma longa batalha foi iniciada em defesa da simbólica pintura do mural da Igreja Matriz de Porto da Folha.

Tudo começou quando, em razão das comemorações pelo bicentenário da paróquia Nossa Senhora da Conceição, no ano de 2016, surgiu a defesa pela reforma da Igreja Matriz.[42] A reforma previa a retirada do mural do altar-mor. Para os defensores da medida, depois da reforma, a pintura seria reproduzida em outro local da paróquia.

A reação contra a medida veio rapidamente. Aquilo que o historiador Antônio Fernando Sá chamou de “crime de lesa cultura” desencadeou na comunidade católica uma campanha para a preservação da pintura.

Novamente, como nos tempos de franca perseguição, a discussão em torno da defesa dos símbolos da Igreja Popular foi chamada pejorativamente de “debates claramente político-ideológicos”.[43]

Os defensores daquela memória e da pintura do frei Juvenal não se aquietaram. De acordo com Fernando Sá, no dia 16 de maio de 2018, um abaixo-assinado foi organizado reivindicando o seu tombamento.[44]

A defesa pela manutenção da pintura no altar-mor conseguiu o apoio de instituições culturais do Estado de Sergipe. As vozes começaram a engrossar a seu favor. O Conselho Estadual de Cultura deliberou pelo início do processo de tombamento da obra.

De acordo com Fernando Sá, foram oficiados sobre o andamento do processo o então bispo de Propriá, dom Vitor Agnaldo de Menezes, e o pároco de Porto da Folha, Melchizedeck de Oliveira Neto, idealizador da reforma.[45]

Contudo, como afirmou o pesquisador Rogério Andrade dos Santos, em meio a essas discussões e com a abertura do processo de tombamento, a Igreja foi invadida na madrugada e uma parte do mural foi destruída.[46]

Mural vandalizado (Créditos: F5News)

O vandalismo desmanchou no ar a luta pelo tombamento do mural. Rogério Andrade deixou pertinentes indagações sobre o caso:

A comunidade, inclusive com algumas pessoas que viveram a missão dos franciscanos no município, não merece ser consultada sobre uma mudança desse porte na Igreja que sempre enxergaram com o mural? O padre recém-chegado no município e o bispo recém-chegado na diocese têm o direito de mudar algo que pertence a comunidade onde eles recém chegaram?[47]

Os recentes acontecimentos na diocese de Propriá, felizmente, não se resumem a confrontações. Com o fim da CPT local, no ano de 1993, alguns dos seus antigos agentes pastorais fundaram, em Aracaju, no dia 11 junho de 1995, o Centro Dom José Brandão de Castro (CDBJC).

Instauração Oficial do Centro Dom José Brandão de Castro (Crédito: CDJBC)

O CDJBC tem por objetivo “contribuir para o fortalecimento das formas de organização e qualificação dos/as trabalhadores/as rurais sergipanos/as na luta pela superação da exclusão social”.[48] O CDJBC tem o reconhecimento de utilidade pública municipal, estadual e federal.

Inscrita no Conselho de Assistência Social Estadual, possui atestado junto ao Conselho Nacional de Assistência Social. No ano de 2003, recebeu o Prêmio Bem Eficiente outorgado pela Kanitz & Associados.[49]

Inspirados na linha deixada pelo bispo dom José Brandão de Castro, os agentes dessa organização mantêm o olhar inteirado sobre a situação do homem do campo sergipano, estimulando projetos sociais para os trabalhadores rurais, comunidades quilombolas e grupos vulneráveis no meio urbano e agrário do Estado.

O CDJBC trouxe em suas fileiras quadros importantes em sua luta pela terra, pela educação popular e pela dignidade da pessoa humana.

O cristianismo da libertação na diocese de Propriá também deixou como legado importantes quadros, tanto na esfera estadual quanto nacional. A título de exemplo, os maristas Fábio Alves dos Santos e Hildebrando Maia.

O primeiro, envolvido em tantos episódios de resistência da diocese, tornou-se um importante advogado da causa dos direitos humanos no Estado de Minas Gerais. O segundo se mantém como um histórico quadro do maior sindicato de Sergipe, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado (Sintese).

Identicamente, quadros da diocese mantiveram o seu empenho na questão da terra e na preocupação com a educação popular. Espionado durante a ditadura, o agente pastoral Remy Gauvin foi um dos fundadores da importante Escola Família Agrícola de Sergipe (EFAL).

Localizada em Ladeirinhas, município de Japoatã, a EFAL concentra as suas atividades na formação de jovens e adultos das comunidades rurais da região.

Mais recentemente, no ano de 2019, o educador popular do MEB, Carlos Alberto dos Santos, recebeu da Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese) a Medalha de Direitos Humanos “Dom José Vicente Távora”, pela sua dedicação à luta pela educação popular e pela terra.

Como visto, o apoio que a Igreja deu aos trabalhadores rurais foi basilar para muitos dos avanços sociais no campo. Esse fato é inteiramente reconhecido pelo MST, pelos Xocó e pelas muitas comunidades de posseiros que foram auxiliadas pela Igreja nesses anos.

Histórica equipe missionária da diocese de Propriá. (Crédito: CDJBC)

Na seara política, pode-se reiterar que alguns religiosos diocesanos foram verdadeiros campeões de votações, vencendo pleitos de forma esmagadora e por repetidas vezes.

No ano de 2019, em razão do centenário de dom José Brandão de Castro, homenagens foram realizadas pela cidade de Propriá. Caciques, padres e freiras, parentes do bispo e agentes pastorais se revezaram na Câmara Municipal para relembrar os tempos do pastoreio daquele bispo. Mais homenagens na Alese e debates sobre a trajetória do religioso na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

No final do ano de 2021, frei Enoque completou 50 anos de vida sacerdotal. As comemorações pela data não poderiam ser realizadas em outro local que não fosse a ilha de São Pedro, terra dos Xocó.

Combalido pela idade, sentado numa cadeira de rodas, frei Enoque foi congratulado tanto pelos xocó contemporâneos dos episódios da década de 1970 quanto por aqueles da nova geração, que procuram manter viva a memória de luta e resistência da comunidade indígena. 

Apesar das mudanças ocasionadas pela atenuação do cristianismo da libertação na diocese, alguns religiosos atuantes procuram reascender a linha pastoral mais combativa.

Nos anos 2000, o envolvimento do padre Isaías Nascimento numa questão agrária lembrou os eventos mais traumáticos da diocese durante a ditadura. O padre Isaías vinha denunciando roubos de gado, assassinatos e espancamentos nos municípios de Brejo Grande e Ilha das Flores.

Além disso, o padre acompanhava a questão dos quilombolas, sem-terra e posseiros da região. Numa noite, a casa paroquial de Brejo Grande foi incendiada. Um galão com resíduos de gasolina encontrado no local indicava que o incêndio se tratava de um atentado contra o padre.

Apesar do ataque, o padre Isaías disse, na imprensa, que o trabalho da Igreja iria continuar. Em suas palavras: “Estamos na força para continuar a missão, preservando a vida do povo mais pobre. Essa é a missão do pastor”.[50]

Aquelas palavras, pronunciadas no ano de 2006, são um demonstrativo de que, na diocese de Propriá, os sinais do cristianismo da libertação ainda pulsam, mesmo que ofuscados pelos novos tempos.


Osnar Gomes dos Santos é doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Defendeu a tese: “Os sinais da conversão: o movimento do cristianismo da libertação na diocese de Propriá-SE (1960-1991)”. O texto na íntegra pode ser baixado aqui. Osnar possui Mestrado em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde integrou o Laboratório Interdisciplinar de Estudo das Religiões (LIER/UFAL). Possui Graduação em História pela Universidade Tiradentes (2012) e Pós-Graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo (2014). Atualmente, é professor efetivo da Rede Pública do Estado da Bahia.


[1] Cf. COMBLIN, Joseph. [Correspondência] 14 de setembro de 1985, São Paulo [para] dom José Brandão de Castro, Propriá, 2f.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Cf. NASCIMENTO FILHO, Isaías. Dom Brandão – um pastor com cheiro de ovelhas. Belo Horizonte: O Lutador, 2017, p. 198-199.

[5] Cf. Ibidem, p. 206.

[6] Cf. CASTRO, dom José Brandão de. Discurso de dom José Brandão ao entregar a Diocese a Dom José Palmeira Lessa. 24 de janeiro de 1988, 5f.

[7] Conferir o relatório da CPT local sobre os episódios que se seguiram, em Lagoa Nova, com a irmã Hermínia, o seminarista José Martins e o trabalhador rural Deusdete dos Santos, em: COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflito Lagoa Nova – Pacatuba/SE. 26 de agosto de 1991, 11f. A irmã Mariza Rios assinou o relatório da CPT.

[8] Ibidem.

[9] Ibidem.

[10] Cf. CAETANO, Dalila. Sonhadora de um Sonho. Espírito Santo: Copigráfica, 2018, p. 97.

[11] Ibidem, p. 96-97.

[12] Cf. COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Ob. Cit., 26 de agosto de 1991, 11f.

[13] Cf. ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_h4_mic_gnc_ppp_910011547_d0001de0001. Envolvimento de Dom José Palmeira Lessa em questões fundiárias […] -1991; outubro de 1991, 5f.

[14] Cf. “Bosco troca farpas com Bispo por questões de terras”. In: Cinform, 13 a 19 de setembro de 1993.

[15] Cf. “Esposa de Bosco França desabafa sobre o conflito”. In: Cinform, 09 a 15 de outubro de 1991.

[16] Cf. […] Doc. n° br_dfanbsb_h4_mic_gnc_ppp_910011547_d0001de0001, outubro de 1991, 5f.

[17] Cf. “Luiz Mitidieri defende Bosco e denuncia falsos religiosos”. In: Gazeta de Sergipe, 18 de abril de 1991, p. 3. “Mitidieri acha que bispo é mentiroso”. In: Cinform, 22 de abril de 1991, p. 3.

[18] Cf. “PCdoB quer vereadores defendendo Dom Palmeira”. In: Jornal de Sergipe, 13 de agosto de 1991, p. 05; PARTIDO DOS TRABALHADORES. Nota oficial da Presidência do Diretório Regional do PT. 27 de março de 1991, 1f. A nota foi assinada por Tânia Magno, então presidente do diretório regional do partido.

[19] Conferido em pasta com o nome “Correspondências Internacionais recebidas”, localizada no Centro dom José Brandão de Castro (CDJBC). Ela carrega todas as cartas das entidades estrangeiras.

[20] Cf. “Donos da usina garantem: ‘não somos violentos’”. In: Cinform, junho de 1992.

[21] Cf. “Violência também na destilaria”. In: Cinform, 19 a 25 de setembro de 1990; “Igreja denuncia: Polícia e usineiros massacram e escravizam os trabalhadores”. In: Cinform, 03 a 09 de setembro de 1990; “Justiça apura denúncias da Comissão Pastoral da Terra”. In: Jornal da Cidade, 01 de novembro de 1990, p. 5.

[22] Cf. […] Doc. n° br_dfanbsb_h4_mic_gnc_ppp_910011547_d0001de0001, outubro de 1991, 5f.

[23] Cf. CAETANO, Dalila. Ob. Cit., 2018, p. 101.

[24] Ibidem, p. 106.

[25] Cf. NASCIMENTO FILHO, Ob. Cit., 2017, p. 219-220.

[26] Cf. CAETANO, Dalila. Ob. Cit., 2018, p. 109.

[27] Ibidem, p. 110.

[28] Cf. MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO DE BASE – PROPRIÁ-SE. Caderno de Experiência: Mundéu da Onça, n° 1, 20f.

[29] Cf. LÖWY, Michael. A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 148.

[30] Cf. SILVA, Rosemiro; LOPES, Eliano. Conflitos de terra e reforma agrária em Sergipe. Aracaju: EDUFS, 1996, p. 86. Ver também:. ARQUIVO NACIONAL. Doc. n° br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_88068316_d0001de0001. Perseguição a parceleiros da Fazenda Barra da Onça, no município de Poço Redondo […] – 1988; 01 de agosto de 1988, 14f.

[31] Ibidem.  

[32] Cf. LIMA, Décio. Os demônios descem do Norte. São Paulo: Francisco Alves, 1987, p. 41-43.

[33] Sobre as formulações de Washington contra o clero progressista no continente, ver: SANTOS, Osnar. Do Relatório Rockfeller ao Comitê de Santa Fé: a Igreja Católica da América Latina ante a desconfiança do tio Sam (1969-2000). Revista Crítica História, v. 12, n. 23, p. 399-418, jul., 2021.

[34] Cf. DOCUMENTO Secreto da Política Reagan para a América Latina. Apresentação de Fernando Peixoto. São Paulo: HUCITEC, 1981, p. 14.

[35] Cf. DOCUMENTO DE SANTA FÉ II. Disponível em:<http://www.elcorreo.eu.org/Documento-de-Santa-Fe-II1988?lang=es>, acessado em 23 de julho de 2019.

[36] Ibidem.

[37] Cf. LÖWY, Michael. Ob. Cit., p. 186-187.

[38] Cf. BERNSTEIN, Carl; POLITI, Marco. Sua Santidade: João Paulo II e a História Oculta do nosso Tempo. São Paulo: Objetiva, 1996, p. 372.

[49] Ibidem, p. 368.

[40]There is no Alternative” (Não há alternativa), o famoso e soturno recado de Margareth Thatcher.

[41] Frase atribuída a Fredric Jameson e Slavoj Zizek. Cf. FISCHER, Mark. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020, 218f.

[42] Cf. SÁ, Antônio Fernando. Arte Sacra em Tempos Sobrios (1970-2018): a pintura mural de Frei Juvenal Bonfim na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição em Porto da Folha (SE). Tempos Históricos, v. 23, n. 1, p. 717-735, 2019, p. 718.       

[43] Ibidem.

[44] Ibidem.

[45] Ibidem.

[46] Cf. SANTOS, Rogério. Comunidades Eclesiais de Base na Província Eclesiástica de Sergipe. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão, 2019, p. 78.

[47] Ibidem, p. 79.

[48] Cf. OLIVEIRA, frei Roberto. Caminhando com Jesus: uma experiência missionária no Nordeste. João Pessoa: Ideia, 2006, p. 211.

[19] Ibidem.

[50] Cf. “Padre de Brejo Grande sofre atentado”. In: Jornal da Cidade, 27 de julho de 2006, p. 4.

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Osnar Gomes dos Santos

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