
A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público.
De tempos em tempos surgem o que nos acostumamos a chamar de Trends, que, traduzindo, podemos denominar de tendências digitais. Um posta e todos querem fazer igual. Byung-Chul Han vai dizer que a “nova massa é o enxame digital”. E a trend é esse fenômeno capaz de mover um enxame na mesma direção.
A mais recente trend é o ato nostálgico de postar fotos de 2016. Ao longo da semana, vi vários amigos postando fotos de dez anos atrás e a única pergunta que fazia enquanto via os posts foi: de onde vem essa saudade?
As características das fotos dão uma pista. Todas sempre muito naturais, com fotos granuladas, penteados diferentes, poses que também imitavam um padrão não muito preocupado com as opiniões.
Isso nos faz chegar à autenticidade dessas fotos, à sinceridade de pessoas que pareciam não ligar para o julgamento alheio. Essa reflexão, por sua vez, me fez chegar a uma investigação simples: por que temos saudade dessa sinceridade? Ou o que “tirou” ou “moldou” nossa autenticidade?
A criação do Story
Esse debate com certeza é muito mais complexo do que este simples texto pode abarcar. Mas tem algo em 2016 que se relaciona com a perda dessa autenticidade que não pode passar despercebido: a criação do Story.
Em agosto de 2016, o Instagram lançou essa ferramenta que permitia um fluxo maior de “conteúdos”, até porque logo mais sumiriam. Deixamos de rolar o feed apenas para baixo e passamos a rolar também para os lados. Agora com uma lógica de curadoria diferente.
Os dinossauros do Instagram devem lembrar da sensação que era utilizar a rede como um álbum de fotografias. Naquela época, já existiam os preocupados com a “grade” do perfil. Em outras palavras, a combinação da disposição das fotos. A moda era foto com bordas brancas.
A chegada do Story fez com que esse jogo estético do perfil se tornasse mais performático ainda, garantindo uma liberdade maior para “selecionar” ainda mais o que seria postado e o que deveria sumir depois de 24 horas. Isso deu à grade um significado literal para sua funcionalidade.
A nova ferramenta consolidou um maior fluxo de “publis”
Além disso, a chegada da nova ferramenta consolidou um maior fluxo de “publis” alinhado com um maior tempo de tela. Passamos a interagir de forma mais ativa na rotina das pessoas que seguíamos e passamos a postar os pequenos detalhes dos nossos dias. Afinal, todo Story tem 24 horas. Ou seja, abria-se um leque de conteúdos possíveis que nunca iriam parar no feed.
Aqui o FOMO (Fear of missing out) se consolidou como um problema do nosso tempo, pois não abrir a rede social implicava não mais ter acesso a um álbum de fotografia pessoal, mas à rotina das pessoas que acompanhávamos.
Foram os stories que também nos deixaram mal-acostumados quanto à simplicidade das mobilizações digitais. Pois, o então presidente Temer terminou o ano de 2017 com a maior reprovação histórica dos presidentes, atingindo 77% em setembro, mas os insatisfeitos se contentavam em apenas usar a hashtag #foratemer.
Dez anos depois da criação dessa ferramenta, a palavra performance se tornou um chiclete na boca dos usuários dessa rede. Tudo hoje é performático. Postar foto de livro, comida, filme, música. Dez anos depois, a autenticidade deu vez a uma exposição frenética em que literalmente tudo vira conteúdo.
O hábito dos usuários de story é tirar mais de uma foto, e não mais postar a primeira que foi tirada, como antigamente. Expor a rotina hoje dá dinheiro e para muitos é um sonho viver disso. Afinal de contas, a autenticidade não é um dado mensurável, só quando lembramos que já fomos menos performáticos um dia.


