
Ainda não é Carnaval. Mas a avenida já está cheia. Ainda não é Carnaval. Mas o bloco já saiu. Em Aracaju, o Carnaval se acostumou a sair de casa mais cedo. Foi por volta da década de 1990 que o Pré-Caju, um evento privado, ajudou a construir a cultura de que na cidade só funciona se tiver uma “prévia carnavalesca”. Além dos tradicionais blocos que circulam pelas ruas da capital sergipana gratuitamente ano após ano, existem dois blocos que insistem em saudar a alegria do povo de Sergipe.
Uma semana antes do feriado de Carnaval, os blocos Circuito Arrudeio e Vem Ni Mim, Arnesto fazem as suas aparições colocando as pessoas nas ruas. Mas para além de pular, festejar, encher o corpo de brilho, os blocos fazem questão de mostrar que o Carnaval é, acima de tudo, uma manifestação política.
No ano de 2025, o Circuito Arrudeio celebrou nomes essenciais da cultura sergipana, trazendo ao palco o Mestre Saci, quilombola e mestre de percussão que vem traçando um caminho ancestral na música do estado. Já o Vem Ni Mim, Arnesto resgatou a história do Carnaval sergipano, rememorando os blocos de rua e de clubes do século XX.
Este ano, o Circuito Arrudeio chega com a proposta de repensar a cidade e os seus espaços, colocando o Carnaval como uma manifestação urbana e popular, nos dias 06 e 07 de fevereiro.
O Vem Ni Mim, Arnesto celebrará os “10 anos de resistência” do bloco e dedicará essa conquista não só ao povo sergipano, mas, sobretudo, à Praça Fausto Cardoso, lugar que foi palco para diversos carnavais. Já parte de sua tradição, o bloco vai às ruas no último domingo que antecede o Carnaval, que este ano cairá no dia 08 de fevereiro.
10 anos de Vem Ni Mim, Arnesto
O Bloco Vem Ni Mim, Arnesto, da banda Samba do Arnesto, foi idealizado em 2015 a partir de uma festa com o tema de Carnaval que aconteceu no Che Music Bar, em Aracaju. “Ali foi plantada a sementinha”, disse Lucas Matos, do Samba do Arnesto. Ainda com uma estrutura pequena, o grupo se encantou com a possibilidade de botar um bloco na rua e juntar aqueles que acreditavam no som que os cinco integrantes faziam. E assim foi.
No ano seguinte, quiseram colocar essa ideia ousada em prática. Em parceria com uma rede de hamburguerias, o grupo conseguiu colocar o bloco na rua pela primeira vez. “Lembro que em 2016 tinha aquele misto de sentimento: o medo de dar errado e a glória de dar certo. E foi muito legal, porque recebemos o carinho do público, as pessoas chegaram junto”, contou Lucas.
Apesar da parceria firmada no primeiro ano, o bloco partiu sendo 100% independente, necessitando do apoio dos foliões. Lucas lembra que os anos de 2018 e 2019 foram os mais difíceis. Em cima de um mini trio, o Samba do Arnesto fazia a festa para milhares de pessoas. Mas o trio não andou, não tinha autorização do governo municipal de Aracaju para realizar o circuito.
“Pra chegar até aqui não foi fácil. Foi muita resistência mesmo. Organizar um bloco desse tamanho exige dinheiro e apoio logístico, coisas que nem sempre são fáceis de conseguir. Em 2019, por exemplo, quase tivemos o bloco censurado pela própria Prefeitura, que não autorizou o desfile. Foi preciso fazer uma grande mobilização pra garantir que o bloco saísse”, disse Roque Sousa, também integrante da banda.

A vontade de construir uma cultura carnavalesca em Aracaju que faça pensar o território e o próprio povo, motiva o grupo a cada ano. Aquela semente que foi plantada há 10 anos já brotou alguns frutos. Na edição de 2025, o bloco conseguiu reunir mais de 25 mil pessoas, chegando a uma marca histórica na trajetória do grupo e do Carnaval aracajuano.
Em 2023, o bloco Vem Ni Mim, Arnesto foi reconhecido como Patrimônio Imaterial da Cidade de Aracaju, por meio da Lei Municipal n° 5761. Além disso, ele foi incluído oficialmente no calendário de eventos da cidade. “É um bloco que fala muito de Aracaju: dos nossos símbolos, da nossa música, da nossa identidade”, disse Roque.
Para além de celebrar as pessoas e o espaço físico em que estão, a iniciativa também traz a saudação para outros blocos carnavalescos que fazem parte da história de Aracaju, caso do Rasgadinho, manifestação cultural que acontece na capital sergipana durante o Carnaval. Fundado em 1962, o bloco resgata o frevo e a efervescência do povo entre os bairros Centro, Cirurgia e Getúlio Vargas.
‘Arrudiar’ a cidade
O Circuito Arrudeio nasceu em 2018, ainda como um projeto da Doca, um centro cultural que há anos funciona em uma das principais vias públicas de Aracaju. Em frente ao espaço, que fica localizado no bairro Cirurgia, os organizadores montaram um bloco de Carnaval. Porém, enfrentaram muitos problemas, um deles a vizinhança incomodada com o som e a movimentação.
O desejo de realizar mais um circuito permaneceu. Até que, no ano seguinte, o bloco se deslocou para a Praça General Valadão, no Centro. Ali, os organizadores perceberam o quão importante é deslocar o olhar para outros lugares da cidade e resgatar as histórias que estão escritas nas ruas. “A gente entende que é um momento de chamar a atenção pra essa localidade, de entender, de ocupar, de fazer parte dessa história, de ressignificar o que o Centro é, pode ser, pode se tornar”, explica Vinícius Benevides, idealizador do Circuito Arrudeio e presidente do Instituto Camaleão Urbano.
Até aquele momento, o evento ainda não se chamava Arrudeio. Foi em 2020, quando o bloco saiu pelas ruas do Centro até o Getúlio Vargas, onde fica o quilombo Morro dos Negros, conhecido como Maloca, que o bloco tomou outras proporções.

“A gente faz o icônico Arrudeio no Centro de Criatividade. E aí, todo mundo ficou: ‘ah, meu Deus, que lindo, que incrível’. A gente encheu aquela concha acústica. E houve muita gente dizendo que não conhecia o Centro de Criatividade, e a partir disso, a gente começa a perceber também o esvaziamento de certos locais, que as pessoas não conhecem, as pessoas não sabem a história, e o Arrudeio vai se moldando muito nesse viés de memória também”, explicou Vinícius.
Neste ano, o Circuito Arrudeio volta à Praça General Valadão, um lugar simbólico para o bloco. Com o tema “Meu Bloco é Minha Cidade”, o Arrudeio tem o objetivo de ocupar a cidade e afirmar que ela também é símbolo de resistência, arte e identidade.
Impactos da prévia carnavalesca
O Pré-Caju, prévia carnavalesca criada na década de 1990, é uma festa privada que acontece cerca de três meses antes do Carnaval. Hoje um marco econômico e turístico de Aracaju, o Pré-Caju também consolidou uma cultura de curtir o Carnaval antes da hora, deixando de lado as fantasias e abraçando o abadá como representação da festa.
Em 2015, o Pré-Caju parou as suas atividades por falta de patrocínio. Aquela sensação de que faltava algo começou a permear pela cidade. “A gente não tem uma cultura carnavalesca, porque a gente privatizou nosso carnaval”, disse Vinícius Benevides.
Com o Pré-Caju fora de cena, outros blocos começaram a surgir em um momento que foi essencial para conseguir visibilidade, já que competir com uma festa que atrai a maior parte dos recursos públicos nesse período era praticamente impossível.
“Essas iniciativas nasceram quase como um ato de resistência dos produtores, no sentido de ocupar espaços que antes eram pouco vividos. Os blocos novos se somaram aos mais antigos e, aos poucos, foi se formando um circuito de prévias de Carnaval. Esse movimento é um primeiro passo importante pra que o carnaval em si ganhe mais força e retome sua tradição”, explicou Roque Sousa.



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