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Da antiga foto oiti à representatividade preta e LGBTQIA+. Fotógrafos sergipanos registram a diversidade do estado, apesar da falta de incentivo

ANA PAULA ROCHA, da Mangue Jornalismo

“Dentro do candomblé, eu aprendi que eu não consigo ser só”, explicou o fotógrafo sergipano Matheus Vinícius, mais conhecido como Mavi. Nascido e criado em Aracaju, Mavi é um dos nomes de destaque no cenário da fotografia contemporânea em Sergipe que tem retratado grupos historicamente invisibilizados, como as comunidades negra e LGBTQIA+.

Marcados por trajetórias autodidatas e coletivas, fotógrafos sergipanos negros como Mavi e Luiza Bomfim – que é também cientista social formada pela UFS e diretora de fotografia – ressaltam a falta de incentivo público estadual para além de editais pontuais e a necessidade de aquilombar-se. “Se não for autogestionado, o que é que a gente tem?”, afirma Luiza.

A Mangue Jornalismo conversou com os dois jovens artistas e com a historiadora e jornalista Cândida Oliveira, cuja dissertação escavou a memória da fotografia lambe-lambe em Aracaju entre 1950 e 1990.

Com forte presença na Praça General Valadão e, após remoção, no Mercado Central da capital sergipana, os fotógrafos lambe-lambe ofereciam serviços com preços acessíveis para a população mais pobre, mas também registravam figuras políticas importantes do estado. “Por meio da fotografia, eles contam a história da capital”, ressalta Cândida.

Sob os oitizeiros

Com suas caixas-câmeras, equipamento portátil que permitia a revelação do material em poucos minutos, os fotógrafos lambe-lambe atendiam desde a população de baixa renda que precisava de fotografias para documentos, por exemplo, até clientes ricos e importantes. Parte deles abrigava suas barracas sob as árvores oitizeiros da praça, originando o apelido de “foto oiti”.

Cândida Oliveira explica que com a visita do ditador e presidente do Brasil Emílio Garrastazu Médici a Aracaju em 1970, os fotógrafos foram removidos da praça e alocados na Avenida Coelho e Campos, a pouco mais de 200 metros de distância do local que ocupavam originalmente. “Os fotógrafos contam que disseram que poderia haver uma bomba [na praça] contra o Médici”, explica Cândida. “É muito irreal.”

A imagem de capa do seu livro sobre esses lambe-lambe é representativa da situação de trabalho que muitas vezes eles enfrentavam em Aracaju: barraquinhas improvisadas em meio a uma área parcialmente alagada. A pesquisadora esclarece que, para o poder público da época, eles eram vistos como entulho, “um monte de barracas na praça que não embelezavam a área, pois cada um tinha a sua do jeito que dava.”

Cândida é autora do livro “Lentes, memórias e histórias: os fotógrafos lambe-lambe em Aracaju (1950-1990)” Foto: Marcos Rodrigues.

Da avenida, os fotógrafos lambe-lambe foram realocados para o Mercado Central. Contudo, com a reforma deste no final dos anos 1990, eles perderam novamente seu espaço de trabalho, pois não foram destinados boxes para que pudessem desenvolver suas atividades dentro do mercado. Com os anos 2000, as opções analógicas de fotografar foram pouco a pouco escanteadas pela clientela. “Muitos trocaram de profissão quando houve a migração para o digital”, diz Cândida.

Em sua pesquisa de mestrado, a historiadora localizou apenas quatro fotógrafos lambe-lambe na capital sergipana, sendo que três continuavam ativos. Após a pandemia, nenhum dos profissionais fotografava usando a curiosa câmera, e um deles combinava o valor da aposentadoria com trabalhos como fotógrafo de festas.

Cândida encontrou menções a apenas dois nomes de mulheres em Sergipe exercendo a profissão de fotógrafa lambe-lambe: Maria Izabel da Rocha, que assumiu o lugar do pai após seu falecimento entre 1908-1909, e Railde Marques Cruz, viúva de um fotógrafo falecido na década de 1980.

De origem pobre e esquecidos pela memória oficial do estado, os quatro entrevistados pela pesquisadora não guardaram nem mesmo o equipamento que utilizavam. No momento, não há qualquer iniciativa legislativa para resgatar ou preservar a história da fotografia lambe-lambe em Sergipe.

“Minha história vem de muitos lugares”

Nascida em Aracaju, Luiza Bomfim define seu trabalho a partir de uma vivência multidisciplinar diretamente relacionada à realidade de corpos negros e LGBTQIA+. “Para mim, é muito importante pensar a responsabilidade social e a potência das pessoas para uma mudança local”, afirma Luiza.

Ela cita o termo “fotoescrevivência”, que ouviu pela primeira vez com a fotógrafa soteropolitana Vilma Neres e que é inspirado na ideia de escrevivência desenvolvida pela escritora mineira Conceição Evaristo.

“Minha história vem de muitos lugares”, definiu Luiza Bomfim sobre sua fotografia. Imagem: Luiza Bomfim/Reprodução.

“Isso me fez entender muito sobre localidade. O que eu estou retratando aqui não são apenas pessoas, clientes. Eu estou retratando a comunidade sergipana. Eu estou retratando a comunidade negra sergipana e isso é muito valioso, principalmente do ponto de vista da memória”, assegura Luiza.

Mavi compartilha desse posicionamento e recorda o meio familiar como berço de seus primeiros contatos com a fotografia. “Lá em casa a gente tinha muitas fotos de quando eu era pequeno, mas eu não me lembro da câmera em si. Eu tenho uma tia por parte de pai que sempre teve uma câmera. Ela fotografava todos os momentos que a família se encontrava”, lembra o fotógrafo.

“Dentro do candomblé, eu aprendi que eu não consigo ser só”. Foto: Mavi/Reprodução.

Os dois fotógrafos se juntaram a Pretty Reis, Janaína Vasconcelos e Renata Cruz para fundar o Coletivo Câmera Escura, que por quatro anos ofereceu oficinas e exposições. Segundo Luiza, “o coletivo nasceu com o propósito de buscar uma prospecção para os fotógrafos daqui.”

“Existe uma exclusão de fotógrafos pretos nos espaços comerciais, artísticos, culturais. Tirando os editais, o que é que a gente tem de mobilização para a fotografia preta sergipana? Esse tipo de falta de apoio é algo que afeta muito a vida financeira dos fotógrafos, que acabam tendo que fazer outras mil coisas para se sustentar”, explica Luiza.

Com um amplo trabalho na fotografia publicitária em Sergipe, Mavi explica que “as pessoas procuram o meu trabalho enquanto textura. Trabalhar com pele negra me deu condição de aplicar técnicas para que as pessoas vejam que nós temos uma série de cores dentro da pele negra e que nós consumimos produtos”, informa. Ele destaca que o bom resultado desses trabalhos se dá por conta da ação conjunta entre profissionais, de modelos a maquiadoras, muitos deles também negros.

Uma das três fotos publicadas por Mavi na Vogue Brasil em 2019

Apenas recentemente o cenário da fotografia sergipana se abriu para a diversidade de quem retrata e de quem é retratado. “Quando comecei a fotografar, eu pensei como hobby. Nunca imaginei a fotografia como profissão. Demorei muito, inclusive, para chegar nesse ponto”, disse Mavi. O ano de 2023 se mostra menos monocromático. “Parece que o meu momento é agora”, completa.

Paralelamente à visibilidade preta, Luiza Bomfim também registra espaços de entretenimento para mulheres cisgêneras, transexuais, lésbicas e bissexuais, bem como a nascente cena ballroom sergipana. “Existe [em Sergipe] um cenário no qual a gente tem uma diversidade de linguagens fotográficas.”

Quésia Sonza, atriz do curta-metragem “Espelho” (2022). Imagem: Luiza Bomfim/Reprodução.

Em 2022, Luiza assinou a direção de fotografia do curta-metragem ficcional “Espelho”, dirigido por Luciana Oliveira. Desde seu lançamento, a produção foi exibida em festivais no Brasil e fora do país, passando por México, Itália e Estados Unidos.

Errata: a matéria foi atualizada para corrigir a cidade de nascimento de Luiza Bomfim. Na versão anterior afirmávamos ser Tobias Barreto, mas é Aracaju.

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