
Alunas, ainda no ensino médio, ouvem os estigmas e preconceitos que lhes impõem por apenas fazerem ciência, que são revertidos em força, coragem e didática. Nas ladeiras do bairro Eduardo Gomes, em São Cristóvão, Sergipe, o Centro de Excelência Professor Hamilton Alves Rocha tornou-se um espaço de desvendamento. A ciência é feita por mulheres que, ao estudar os processos orgânicos, vêm testando formas mais práticas e rápidas de compostagem.
O projeto científico teve início em 2024 e é orientado pela professora e doutora em Química Patrícia Fernanda Andrade. Sempre apaixonada pela pesquisa, retirou do próprio bolso investimentos para que suas alunas pudessem mergulhar no conhecimento e não só transformar o mundo, mas as próprias vidas com a educação. O esforço foi coletivo, as alunas começaram a vender brigadeiro para poder ajudar a custear os equipamentos que faltavam. Hoje a equipe é formada por seis alunas e dois professores.
Apenas neste ano de 2025 foi que o corpo estudantil conseguiu apoio financeiro a partir do edital da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec), que destina bolsas para pesquisadores e auxilia com alguns custos.
Com a coorientação do professor Matheus da Silva Góes, em que dá suporte na parte técnica e nas práticas realizadas, o projeto foi ganhando novas formas. Ao se depararem com um enorme desperdício de comida ao fim de cada refeição do colégio, que chegou a bater mais de 30 kg em apenas um dia, professores e alunas buscaram alternativas eficientes e sustentáveis de reverter esse quadro: a compostagem inteligente.
“Trinta quilos de comida dá para alimentar tantas pessoas, tantas crianças, idosos, adultos que estão agora passando por tanta dificuldade, é um problema social e a compostagem acaba conscientizando” disse Maria Eduarda. E Letícia dos Santos complementa: “ela vem como forma de conscientização e também como modo de controlar esse desperdício que está sendo realizado, tem como objetivo remediar e conscientizar, da mesma forma que encontra um meio que não seja o desperdício do alimento”. Ambas são do 3º ano do Ensino Médio e participam da pesquisa desde o seu início.

A compostagem inteligente surge com muita pesquisa e referência. Inspirado no método do japonês Koji Takakura, essa compostagem se remodela para a realidade das alunas e da comunidade do Eduardo Gomes, pois o método original foi desenvolvido para degradar alimentos com muitos cereais em sua composição.
No processo da compostagem tradicional é feito uma composteira com três compartimentos, após inserido o alimento cru, como cascas de legumes e frutas, precisa de mais de três meses para que seja coletado o biochorume, líquido que potencializa a adubação de hortas e plantas.
Na compostagem inteligente esse processo é mais rápido, fazendo com que os alimentos, inclusive os cozidos, sejam degradados em apenas duas semanas. “Uma compostagem diferenciada, porque ela vai fazer essa degradação do alimento cozido que numa compostagem tradicional você não consegue, porque você não tem um ambiente de microrganismo que vai fazer essa degradação”, explicou a professora Patrícia.
Diferente da tradicional, a inteligente não resulta no biochorume, todo o alimento degradado pode se tornar um adubo rico em nutrientes ou apenas continuar no reservatório para que outros alimentos se degradem. Ainda estão sendo realizados estudos no colégio para identificar a potencialidade desse adubo derivado da compostagem inteligente e como ele se comporta na produção de alimentos.
Mas já é um grande avanço científico para as alunas e professores envolvidos, consequência de todo esse empenhoso trabalho foi a premiação em primeiro lugar na Mostra Atheneu de Ciências, além do recebimento das credenciais para a feira de ciências em Santa Catarina. O projeto também será levado para Lima, no Peru, por meio da Cientec — Feria Internacional de Ciencia y Tecnología.
Modo de preparo
Para realizar a compostagem inteligente primeiro é preparado o fermentado salgado, a partir de cascas de frutas e legumes, e o fermentado doce, com vinho e leite. “Os fermentados servem para inocular os microrganismos, porque na natureza não encontramos microrganismos que degradam o material orgânico cozido. No laboratório criamos os microrganismos capazes [de degradar], então fazemos um ambiente para que eles possam se reproduzir e depois de inoculados à matéria adicionamos a comida para que ela possa ser degradada”, explicou Letícia.

Em seguida, os fermentos são colocados em uma base sólida com fonte de carbono, para que seja criado um composto semente. É nesse ambiente que os microrganismos serão reproduzidos para que seja possível realizar a degradação dos alimentos. Passados seis dias, o composto apresenta um ph acima de 6 e a presença de fungos, com isso é possível colocá-lo em uma base de serragem e misturá-lo com o alimento que será decomposto.
Para atingir uma umidade correta para a decomposição, é adicionado uma solução de açúcar mascavo e água sem cloro. Após esse processo, a composteira é fechada com um tecido de tnt, pois auxilia na troca de gases, estimulando a ação dos microrganismos. O final de todo esse processo resulta em um substrato rico em nutrientes que pode ser utilizado em hortas e plantações.

Desafios e transformações
Mesmo que o esforço seja máximo para desenvolver um trabalho respeitoso e de grande valor, as alunas passaram por algumas situações incômodas durante o desenvolvimento do projeto.
Quando o fungo começa a se formar dentro da composteira, ele libera um cheiro que se assemelha ao chulé. Por haver um cheiro atípico, alguns alunos, que ainda não entendiam o processo da pesquisa, zombaram das cientistas.
“Eu acho que o que mais nos impulsionou para conseguir realizar o projeto e ter o resultado como a gente está vendo agora foi realmente as críticas, porque nós conhecemos o que o nosso projeto faz, até onde ele pode ir e o potencial dele. Nós sabíamos que era uma coisa extraordinária. Então a gente queria que as pessoas conhecessem isso também. Quando a gente escutava alguma coisa, a gente parava para explicar a causa do cheiro, o que aquilo ali poderia retornar de bom para a humanidade, então as críticas fizeram a gente querer que as pessoas soubessem realmente como o nosso projeto pode fazer um bem”, disse Letícia.
O trabalho científico desenvolvido pelas alunas não se limitou apenas aos processos químicos, orgânicos e biológicos, mas a um desenvolvimento pessoal de autoconfiança e até de oralidade. A professora Patrícia sempre que pode, pratica com as meninas as formas de se apresentar um trabalho, o potencial delas e como manter a crença no propósito que aquela pesquisa é capaz de entregar.
“A gente vai estudando, vai lendo artigos científicos e vendo o experimento não como um simples fazer, mas o experimento de dar possibilidade de resolver problemas da sociedade. Isso é que o cientista faz. Alguns alunos sabem que eu sou bem rígida, porque é preciso de uma seriedade naquilo que você está fazendo, a gente não está aqui brincando, lá fora você vai ser cobrado dez vezes mais”, falou Patrícia.
Antes de começar a realizar pesquisa, Letícia era uma pessoa mais reclusa, tímida para se comunicar e encontrava grandes desafios para falar em público. “Depois do projeto, depois das apresentações, a pessoa acaba desenvolvendo a fala, acaba desenvolvendo as outras coordenações. Então é um peso muito grande que esse projeto me trouxe, que foi melhorar minhas ações.”
Um trabalho que seguirá por toda a vida. As alunas já almejam entrar na universidade, mesmo que não sigam na área de química, sabem que continuarão pesquisando e fazendo ciência. “Eu penso em cursar biologia ou farmácia, mas eu não sei se vou seguir essa área [da compostagem], mas eu não pretendo esquecer completamente, porque foi um aprendizado que eu vou levar para a vida e eu sei que em algum momento, em alguma forma, eu vou usar ou replicar, eu acho que em alguma forma eu vou sempre usar todo esse conhecimento que eu tive”, disse Maria Eduarda.
O professor Matheus relembra toda a trajetória com muito orgulho e sentimento de dever cumprido. “Eu me encho de orgulho com essas meninas e desse projeto. Foi muito emocionante a emoção da família assistindo a filha falando. Todos aqui tiveram suas parcelas e sacrifícios de momentos desafiadores, seja com colega, seja com a comunidade escolar de modo geral.”



Respostas de 4
Parabéns a todos, ótima experiência…. Que possa servir de incentivo a todos! A ciência e a sustentabilidade devem ser, sempre, a base do crescimento.
Que maravilha! Parabéns a todos os envolvidos nesse maravilhoso e impirtantíssimo projeto! ???
A todos os alunos e professores do projeto parabéns pela iniciativa e os resultados. Sou especialista em compostagem e atuo em diferentes métodos. Caso eu possa ajudar tecnicamente me coloco a disposição com meus 33 anos de experiência atuando no assunto no Brasil e fora do Brasil.
parabéns a todos, professores e alunos, ótima iniciativa, sou produtor rual e sei das quimicas no campo, seria bom criar um kit p comercialização!