Com mais idosos no eleitorado, participação política ainda é desafio em um Brasil que envelhece

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(Créditos: Reprodução/G1 Acre)

As eleições brasileiras de 2026 têm explicitado uma realidade que tem ficado cada vez mais evidente, a mudança na composição etária do eleitorado no país. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil tem 37,5 milhões de eleitores com 60 anos ou mais aptos a votar, o equivalente a 23,6% do eleitorado brasileiro, um crescimento de 74% em relação a 2010, enquanto o eleitorado geral cresceu apenas 15% no mesmo período. Em termos práticos, os números revelam que para vencer a eleição, é preciso dialogar com esse contingente pois o voto não se aposenta.

Parte desse contingente, cerca de 17 milhões ou 45,3% dos eleitores idosos, tem 70+, faixa etária na qual o voto deixa de ser obrigatório e que, portanto, exige maior atenção, pois é aí que tem ocorrido alta abstenção. Segundo dados do TSE, nas eleições de 2022, cerca de 60% desse grupo deixou de exercer seu direito ao voto.

O processo de envelhecimento demográfico aponta para um rápido crescimento do número e proporção de idosos no país e no estado. Segundo projeções do IBGE (2024), o Brasil dobrará o número absoluto e relativo de idosos nos próximos 25 anos, chegando a 65,5 milhões, mais de 30% da população brasileira em 2050. Entre eles, os idosos de 70+ serão mais de 36 milhões, correspondendo a cerca de 55% dos idosos. 

Em Sergipe, a proporção de idosos em 2050 deverá ser de 31,2%, o que significa mais de 700 mil sergipanos, sendo que destes 55,4% (387,8 mil) estarão com 70+ (IBGE, 2024). Sendo assim, observa-se que o envelhecimento demográfico é uma realidade que pressiona por diversas demandas e a ampliação da participação política desse grupo etário é uma delas. Isso coloca os idosos como uma crescente força social, a chamada força grisalha.

Diante disso, ressalta-se que o peso demográfico dos idosos por si só não garante que suas demandas sejam incorporadas à agenda pública ou que se convertam em representação política efetiva. Isso depende, entre outros fatores, de sua maior participação política, a qual é condicionada por elementos sociais, econômicos, culturais e institucionais, que influenciam tanto as oportunidades de engajamento quanto a capacidade de as pessoas idosas se organizarem, expressarem seus interesses e influenciarem as decisões políticas. 

Nesse ponto, convém abandonar a ideia de um eleitorado idoso homogêneo; o que caracteriza o eleitorado idoso é justamente sua heterogeneidade, posto que suas escolhas e possibilidades de participação devem ser compreendidas na perspectiva interseccional, considerando diferenças de gênero, etnia, escolaridade, condições de saúde e trajetórias de vida. É razoável supor, por exemplo, que uma idosa negra e periférica não enfrente as mesmas barreiras de participação eleitoral que um idoso branco de classe média.

Somam-se a isso as experiências geracionais, os vínculos com partidos, movimentos sociais e instituições políticas, que influenciam a maneira como eles interpretam a conjuntura sociopolítica e os problemas da realidade e consequentemente como avaliam as propostas eleitorais. Nesse sentido, não se deve falar de um voto grisalho homogêneo, mas de vários votos grisalhos. 

A despeito dessa diversidade, estimular a participação das pessoas idosas, sobretudo dos idosos com 70+, é essencial, dada a realidade de alta abstenção desse grupo. Mobilização consistente nesse sentido não significa cobrar o voto, mas criar condições para que ele seja exercido. 

Uma participação mais ampla dos idosos pressionaria candidatos e partidos a incluir em seus planos de governo pautas voltadas à melhoria da qualidade de vida na velhice, tais como: a ampliação dos serviços de saúde, assistência social, previdência, acessibilidade, mobilidade urbana, combate à violência, entre outras demandas. A 6ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em dezembro de 2025, aprovou 15 propostas prioritárias nesse sentido. É provável que elas não saiam do papel sem pressão política, que está vinculada à participação efetiva dos idosos na dinâmica eleitoral.

E o que se tem detectado como barreiras a maior participação dos idosos? 

Entre barreiras conhecidas há transporte pouco acessível, locais de votação inadequados, informações pouco claras para pessoas idosas, filas extensas, distância da residência com relação ao local de votação, a dependência de terceiros para o deslocamento, exclusão digital, pressão de familiares quanto às suas escolhas eleitorais, baixa escolaridade e, sobretudo, o etarismo. 

O etarismo (estereótipos, preconceitos e discriminação com base na idade) revela-se um importante obstáculo, embora nem sempre perceptível. Na política, ele manifesta-se de forma explícita, quando se trata os mais velhos como incapazes, desqualificando suas opiniões e por vezes menosprezando o seu voto, comprometendo o reconhecimento da sua autonomia política e reforçando um processo de exclusão.

(Créditos: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Reconhece-se que já existem algumas iniciativas nesse sentido. O programa Seu Voto Importa, do TSE, oferece transporte gratuito individual a eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida. O Movimento Voto 70+, campanha cidadã sem vínculo partidário, atua para levar de volta às urnas os eleitores idosos e os dois são exemplos de boas iniciativas. Entretanto, apesar dessas iniciativas mostrarem que o caminho existe, o efeito real, no fim das contas, depende do comparecimento do eleitor idoso.

Em um país que envelhece velozmente, a participação política da pessoa idosa deixou de ser uma questão particular para se tornar uma questão de representatividade democrática e soberania. O voto grisalho é um direito a ser exercido com consciência, porque a voz da pessoa idosa importa. E a democracia brasileira não será plena enquanto essa parcela crescente da população não participar da construção de uma sociedade que também lhes pertence. 

Que os idosos possam votar com confiança e com a consciência de que cada voz tem seu valor, porque na democracia a presença faz diferença. E que a força grisalha se manifeste nas urnas.

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Neilson Santos Meneses

Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe (DGE/UFS). Também integra o Núcleo de Pesquisa e Ações da Terceira Idade (NUPATI/UFS). 



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