
Aos sete anos de idade já dominava as ferramentas da lavoura. Cresceu trabalhando com a terra e se formou assim. Quase 20 anos depois, a literatura chegou batendo à sua porta. Foi como se as palavras brotassem do livro em suas mãos que Leosmar Simplício viu sua vida ser transformada.
“Com 26 anos de idade eu li a minha primeira obra literária. Aí foi ali que eu percebi que existia outro mundo possível, e ali eu decidi que ia me dedicar a estudar, a buscar o conhecimento. E foi o que eu fiz. Quando eu completei 29 anos, já estava concursado como professor”, conta Leosmar.
Deixou a sua terra natal, Porto da Folha, município de Sergipe, para ir atrás do seu novo sonho. Na Universidade Vale do Acaraú, Leosmar se formou em Pedagogia, logo mais ingressou no curso de Letras Português/Espanhol, sempre em busca de estudar as palavras e ensiná-las de outras formas.
Hoje, Leosmar é professor na rede pública de educação do município de Nossa Senhora da Glória, em Sergipe. As palavras causaram um efeito quase mágico na vida do professor e a vontade de que esse feitiço alcançasse outras vidas como a dele, o levou a fundar, em 2018, o Clube de Leitura Antonio Carlos Viana.
Diferente de outros clubes, nesse, cada integrante lê um livro da sua preferência. No dia do encontro, os leitores mostram quais livros leram, um breve resumo e os temas centrais da obra. A partir da explicação, os outros componentes entram em debates e reflexões sobre o livro, mesmo que não tenha lido.
Essa foi uma forma que Leosmar, junto com os leitores, conseguiram encontrar para tornar a leitura mais leve. “Muitas das vezes a gente nem percebe que está acontecendo uma transformação na vida de alguém ali, naqueles debates, mas a pessoa está sentindo que está precisando daquilo, muitas das vezes sente que ali é uma luz, que pode tomar um novo rumo na sua própria vida”, contou.
Os clubes do livro são espaços para reunir leitores. Uma ideia que começa na simplicidade, na vontade de compartilhar as suas opiniões. Ser ouvido e ouvida. Em uma roda de conversa, as pessoas vão entrando em temas tão sensíveis do mundo ao seu redor, que em um próximo passo, estão falando sobre si mesmas.
É nesse ato de colocar para fora as suas emoções que o clube do livro deixa de ser um debate sobre literatura, e vira uma espécie de terapia em grupo. Uma espécie, pois não há a presença de um profissional guiando essa “terapia”, mesmo que entre os leitores exista um ou outro psicólogo, mas que está ali em seu momento de lazer.
A Mangue Jornalismo está realizando uma pesquisa para mapear os clubes do livro de Sergipe. Se você participa de algum e quer contribuir com a pesquisa, basta responder o formulário clicando aqui para informar alguns detalhes sobre o clube que você participa.
Grupos que salvam e se transformam em outros
Diana Keila tem 28 anos de idade e é advogada. Os estudos e a profissão tomavam conta de boa parte do seu tempo, o que a afastou da literatura. O excesso de demandas teve consequências em seu corpo e em sua mente, obrigando-a a fazer uma pausa para cuidar e priorizar a sua saúde.
“No ano passado eu comecei a desconfiar que eu estava com início de burnout. Foi uma situação que eu estava bem fragilizada, eu estava vivenciando muito o trabalho. Minha rotina e minha vida era voltada para o trabalho”, contou Diana.
A advogada encontrou nos clubes do livro uma oportunidade para descansar a sua mente das obrigações, e assim se curar. Começou ingressando no Clube do Livro Oxe, Leitor, que acontece em Aracaju. Ele foi essencial para que Diana retomasse o hábito da leitura que tinha ficado parado há quase dez anos.
“Como eu acabei participando de alguns clubes do livro, a gente tinha encontros na semana em que eu conhecia outras pessoas e comecei a fazer mais amizades. Quando eu estava cansada do trabalho, eu tinha essa experiência de ler e isso às vezes me tirava daquela situação de estresse”, disse Diana.

O clube do livro instigou tanto Diana, que ela fundou o seu próprio clube, voltado para leitura dos livros da escritora Colleen Hoover. Hoje o clube tomou outra forma e agora se chama “Entre Romances”.
“É uma sensação de refúgio, de saber que pode estar tudo tumultuado, tudo caótico lá fora, mas se eu chegar, entrar no meu quarto, pegar o meu livro, é o meu momento de paz, de sossego, é onde eu vou estar só pra mim. Ali é o meu espaço, o lugar onde sei que vou me sentir confortável. Que é a mesma sensação que eu sinto estando nos clubes de livro”, explicou Diana.
O Oxe, Leitor, clube do livro em que Diana faz parte, foi fundado em 2022 por Arthur Felix e Letícia Monalisa. Com uma pegada que remonta à sergipanidade, o clube surgiu de uma vontade de estar em contato mais próximo com as pessoas.
“O clube veio depois da pandemia. Então tinha aquela necessidade de encontro presencial, de ver pessoas, olho no olho, conversar sobre os livros e ter um espaço para a gente, presencialmente, debater e ter essa interação”, disse Letícia.
Os administradores do Oxe, Leitor criaram regras basilares que norteiam o clube, por exemplo, em cada ciclo de encontro, que acontece a cada dois meses, são escolhidos dois livros, um pelos fundadores e outro pelos integrantes.
Outra regra, é a proibição de pirataria dentro do grupo, para contrapor isso, Arthur e Letícia incentivam para que os leitores vão até as bibliotecas da cidade para poder frequentar esse espaço como também usufruir de um lugar público e gratuito.
“A gente percebe que também o problema da não leitura no país é sobre o acesso aos livros e sobre o encarecimento desse produto até chegar na pessoa que vai ser a consumidora”, disse Arthur.
De acordo com o Painel de Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pela Nielsen Book, no ano de 2024 o preço médio do livro fechou em R$ 53,25. Abaixo da falta de tempo, o valor do livro é o segundo maior fator da não leitura, segundo o Panorama de Consumo de Livros divulgado em janeiro de 2025 pela Câmara Brasileira do Livro.
O clube do livro se tornou um espaço terapêutico
O ato de se reunir em grupo para contar histórias não é de hoje. Desde os primórdios, os humanos sentiam a necessidade de se comunicar e de se expressar. Até mesmo antes de se constituir narrativas por meio da oralidade, as pessoas utilizavam outras técnicas para poder repassar informações, uma delas era a arte.
Era ao redor de uma fogueira que pessoas se reuniam à noite para compartilhar saberes e histórias. Alguns povos africanos chamam o responsável por contar essas aventuras de “griôs”, grandes sábios da cultura e da vida. Hoje, a fogueira que ilumina os rostos e se mostra como uma chamariz para o falar é o livro.
A psicóloga Ivna Ariane, diz que o ato de falar é como uma vazão para os sentimentos. “É dar vazão àquilo que está aqui dentro, que está guardado. E aquilo que a gente não consegue, infelizmente, transformar em palavras, muitas vezes se transforma em uma doença. Óbvio que a gente não pode falar tudo que a gente sente, que a gente sofre, para qualquer pessoa, mas quando a gente sente que é um ambiente protegido, que vai ter uma escuta apurada, um acolhimento, tudo isso é muito bem-vindo”, disse Ivna.

A psicóloga desenvolveu o projeto “Biblioteca Livre”, que transformou a sala de espera do seu consultório em uma biblioteca aberta, em que as pessoas levam livros e trocam por outros, sem custo algum. O objetivo principal é democratizar e incentivar a leitura.
Com esse projeto, Ivna pode sentir mais ainda o poder da literatura como dispositivo terapêutico. “Às vezes a identificação com o personagem, a história, é o aprendizado que é possível. Você muitas vezes ressignifica sua história a partir desse contato com outras histórias. Na psicologia a gente fala que é o coinconsciente do autor entrando em contato com o coinconsciente do leitor”, explicou Ivna.
Obstáculos estruturais que impedem a leitura
Taylane Cruz é escritora e vice-presidente da Academia de Letras de Aracaju. Durante o seu percurso na escrita, Taylane teve a oportunidade de ser convidada por clubes do livro que tinham lido um dos seus livros.
Enorme amante da literatura, Taylane sabe muito bem o potencial dessa arte na vida das pessoas, principalmente quando ela se torna ponte para discussões, debates e autoconhecimento.
“Os clubes do livro, além de ser um espaço em que as pessoas que gostam de livros podem se encontrar, são, sobretudo, um espaço de troca de afeto. Porque eu acho que é, inclusive, um dos chamados maiores da literatura, é para esse afeto. E o afeto não só no sentido do afeto, afeto no sentido do afetar-se mesmo. De provocar uma reação em quem lê e partilhar isso em um grupo, tem uma força muito grande”, contou Taylane.
Filha de uma professora apaixonada pela literatura, Taylane sempre acompanhou de perto os desafios de incentivar a leitura nas escolas. Mesmo que professores elaborem projetos de leitura, falem sobre livros em todos os cantos, há um obstáculo maior no meio disso tudo. “Eu acho que a questão da leitura no Brasil tem muito mais a ver com uma estrutura econômica e política da qual nós, que fazemos literatura, não damos conta”, diz a escritora. Ainda acrescenta que “as escolas ainda são muito precárias. Como é que a literatura vai dar conta de um país que não paga nem um salário digno para um professor?”, pergunta Taylane.

No Centro de Excelência Barão de Mauá, em Aracaju, a professora Adélia Mota comanda um clube do livro com os seus alunos. Não é uma tarefa fácil manter os estudantes engajados na literatura, mas mesmo assim a professora segue apaixonada pelos livros, que se houver um só leitor, ela está feliz.
“Para participar de um clube de leitura em escola pública, você tem que ou ser leitor, ou ser como um aluno que eu encontrei, alguém que tem um respeito tão grande por esse objeto chamado livro. É como se ele dissesse, eu não sei o que que está aí, mas é algo que mexe muito com a cabeça das pessoas e eu sei que será bom para mim”, lembrou Adélia.
Entretanto, às vezes, a rotina que se torna pesada para algumas pessoas, as impede de ter um contato afetuoso com o livro. De enxergá-lo como um objeto transformador. “Diante de um cotidiano extremamente duro, que é um cotidiano que nos pede sobrevivência, e para essa sobrevivência a gente às vezes tem que deixar os estudos, os hobbies, para lutar, para ganhar o sustento. É preciso saber que existe leitura como amor e como estudo”, detalhou Adélia.
A professora acredita que o aumento dos números de leitores acontecerá quando houver mais bibliotecas públicas espalhadas pela cidade, um lugar que ela considera como sagrado. São nesses lugares que as pessoas podem mergulhar em diferentes universos, participar de projetos e entrar em contato com outros apaixonados pelos livros.
Um clube, um tema
Os clubes do livro são vastos. Cada um possui um tema que norteia toda a escolha das obras. Em Sergipe, há uma diversidade de clubes, desde infantil até idosos. Na Biblioteca Pública Estadual Epiphânio Dórea acontece o projeto de leitura clássica para crianças. Nesse clube, os pequenos têm contato com a literatura clássica de forma divertida e atraente.
O projeto também se estende para as demais faixas etárias. Paula Tauana, professora e idealizadora do clube, diz que sempre procura trazer outras artes para os debates, como música e teatro, sempre de artistas sergipanos.
Em Itabaiana/SE, tem o Clube de Leitura Maria de Thetis Nunes, desenvolvido por Júlia Pereira e Luara Almeida, em que priorizam a leitura de livros escritos por mulheres. As mediadoras fazem questão de levar atividades que envolvem o livro para as escolas públicas como uma forma de expandir o alcance da literatura. E com esse ato, somado com o clube do livro, Júlia pode dizer que “ficou mais sensível” após ouvir histórias tão distintas.
Na Biblioteca Municipal Ivone de Menezes Vieira, em Aracaju, Verônica Santana media um clube do livro voltado para o público idoso. O que instiga a bibliotecária a continuar com esse projeto é a sua vontade de integrar e acolher pessoas que, muitas vezes, acabam ficando solitárias na vida. Projetos como esse, ajudam a trazer uma resignificação para a pessoa idosa, como também se torna essencial para trabalhar a memória e o imaginário, o que contribui para a prevenção do Alzheimer, como bem explica Verônica.



Uma resposta
Aracaju tem um circuito literário efervescente. Para listar alguns clubes de leitura: @clubedeliteraturaclassica.se @clubecriadora @cafepoetico.se @saraudemulheres.se @amigos_biblioteca_ivone