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Carta de uma escola ao prefeito de Aracaju: “NÃO QUERO SER DEMOLIDA”. A luta de crianças e professoras contra a destruição da área verde, da história e dos sonhos

Desde 1975, quando o empresário da construção civil João Alves Filho foi nomeado prefeito biônico de Aracaju pela Ditadura Militar, a capital vem sofrendo violentos ataques ao meio ambiente. A antiga cidade de inúmeras áreas verdes viu avançar a lógica do cimento, do concreto e do asfalto sobre esses espaços de respiros e vida.

A destruição de mangues, os aterros de rios, a derrubada de árvores eram parte da marcha para o progresso. Essa lógica destrutiva, que a narrativa oficial transformou em “construtiva e moderna”, nunca mais recuou. Nessa reportagem, a Mangue Jornalismo apresenta somente um exemplo  desse modo de agir destrutivo de governantes que, nesse caso, é do prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT). Acompanhe.

No bairro São Conrado, periferia de Aracaju, existem três escolas municipais, duas que atendem crianças da educação infantil, a Professora Áurea Melo Zamor e a José Conrado de Araújo e uma escola de educação fundamental, a Júlio Prado Vasconcelos. Sem nenhuma consulta pública e nem ouvir a comunidade escolar, ao que parece é uma prática recorrente, o prefeito Edvaldo Nogueira resolveu “reformar” as escolas.

Até aí, tudo bem, as escolas precisavam mesmo de reformas. O problema é que, para o prefeito, reformar significa DEMOLIR as unidades escolares. Colocar a escola inteira no chão e cobrir de concreto quase toda área verde, acabando com a condição horizontalizada das escolas de educação infantil. Tudo isso sem consulta à comunidade. A primeira unidade demolida foi a Júlio Prado Vasconcelos. As próximas são a Professora Áurea Melo Zamor e a José Conrado de Araújo.

O caso da Escola Professora Áurea Melo Zamor

“No último dia 28 de março, para surpresa dos professores, alunos e pais, o secretário de educação de Aracaju esteve na nossa escola e deu o prazo de 45 dias para a gente desocupá-la. A ordem é demolir e reconstruir uma escola vertical no lugar”, conta a professora Sandra Beiju, que também é vice-presidenta do Sindicato dos Profissionais do Ensino do Município de Aracaju (Sindipema).

Ao final desta reportagem, leia a emocionante CARTA AO PREFEITO DE ARACAJU escrita simbolicamente pela própria Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor.

Essa escola fica em frente a uma praça arborizada (o que é raro em Aracaju), é horizontalizada e possui uma área verde com muitas árvores plantadas pelas professoras e alunos. Sandra lembra que essa área da escola é parte fundamental do processo de aprendizagem das crianças. Lá os alunos e professoras realizam inúmeras atividades pedagógicas, a exemplo de pesquisas sobre  insetos, folhas e frutos, além da coleta e formação de mudas de várias plantas e árvores, como cajueiros.

 “A área verde da escola é vital para educação dessas crianças porque ali se promove o conhecer e a conexão das crianças com a natureza – sementes, terra, água, sol – nova vida, nova plantinha. Ajuda as crianças a compreender que elas e nós somos parte integrante da Natureza e dos seus ciclos complexos e perfeitos que garantem a reprodução de várias formas de vida”, revela a professora Sandra Beiju.

Em lugar da vida, prefeitura prefere o concreto

A prefeitura, além de informar que vai demolir completamente a Escola Áurea Zamor, apresentou uma “planta baixa” que acaba com a área verde. Tudo deverá ser concretado. No lugar de uma escola horizontalizada para as crianças da educação infantil será levantado um prédio vertical. “Isso é um absurdo. Estamos apelando ao prefeito Edvaldo Nogueira que ele não faça isso. Queremos a reforma, jamais a demolição e, principalmente, acabando com nosso quintal”, apela a professora Sandra Beiju.

Na semana passada, professores, pais, alunos e a vereadora professora Ângela Melo (PT) realizaram um ato em frente a Escola Áurea Zamor. A também vereadora professora Sônia Meire (PSOL) participou. Todas condenaram a possibilidade de demolição daquela unidade. Rita Silva, mãe de três crianças, disse que os pais querem a reforma da escola, mas não como o prefeito quer fazer. “Não há necessidade nenhuma de demolir e levantar um prédio. As crianças aqui têm cultura, música, teatro, desenho e as árvores onde elas aprendem. Então, prefeito Edvaldo Nogueira, pare com isso. Não aceitamos a demolição”, disse a dona de casa.

Imagens: Ana Caru

Os sete pontos contra a demolição da escola

As professoras, pais e crianças resumiram em sete pontos o porquê são contra a demolição da Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor:

1. Não tem laudo condenando a estrutura física do prédio;
2. A demolição vai provocar grande impacto ambiental (produção de entulhos para descarte na natureza, poeira e etc, sem necessidade); Haverá a perda das árvores plantadas e cuidadas por crianças que passaram pela escola – Projeto ” Coração da Natureza”. A escola tem no seu Projeto Político Pedagógico a Educação Ambiental e a área verde existente é o Laboratório de todas as Vivências realizadas com as crianças;
3. A obra ficará muito mais cara;
4. A escola vai demorar muito mais tempo para ficar pronta e nós e as crianças sofrendo em um prédio improvisado para funcionamento da escola;
5. Sabemos que há tecnologias modernas disponíveis para Reforma e Ampliação de escolas, aproveitando edificações existentes;
6. A Comunidade escolar, o Conselho Escolar – as famílias, as crianças,  ninguém foi convidado a ser escutado e dialogar sobre o “novo Projeto Arquitetônico” para a escola. Queremos uma escola sustentável e com área verde e menos cimento nas áreas externas;
7. As crianças precisam conviver na e com a natureza. Nossas crianças ( do Bairro São Conrado) só têm essa convivência na escola;


Uma carta emocionante da escola para o prefeito


Na semana passada, as professoras e pais de alunos da Escola Áurea Zamor protocolaram na Prefeitura de Aracaju uma carta endereçada ao prefeito Edvaldo Nogueira. É um documento emocionante e a Mangue Jornalismo recomenda a sua leitura da íntegra. Além disso, sugere partilhar essa carta para todas as pessoas.

Carta de uma Escola para o Prefeito de Aracaju

NÃO QUERO SER DEMOLIDA

*Em memória de José Miguel Santana da Paixão – uma criança que amava estar no meu chão. (falecido em 03/10/2022 – vítima de Meningite bacteriana)

Senhor Prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira.

Meu nome é Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor e existo desde 1994. Estou localizada no bairro São Conrado.

Por mim já passaram milhares de crianças e cada uma ficou em minha memória histórica, mas também nos documentos arquivados. Também muitas professoras e professores passaram por mim e comigo encerraram suas carreiras. São tantas histórias alegres, tristes. No tempo atual, recebo crianças cuja mãe ou pai já passaram por mim. Recebo as crianças da melhor forma possível: ofereço meu quintal, meus pátios abertos (tenho dois), salas amplas.


Sou uma escola que está situada em uma praça, com muitas árvores, e sinto que as crianças gostam de estar no meu chão, elas curtem muito o tempo que passam comigo.

No ano passado, fiquei sabendo que vão me “reformar”. Essa notícia chegou sem nenhuma oficialidade, alguém que disse a alguém. Bom, gostei da ideia porque é sempre bom melhorar uma coisa aqui outra acolá. Na verdade, faz tempo que desejo que retirem as quinas das minhas colunas de sustentação nas áreas abertas, porque elas oferecem riscos às crianças. Já ocorreu até um acidente com uma criança, mas nada grave.

Com a notícia da reforma, fiquei muito curiosa: o que vão fazer em mim? Quando vão me reformar? Alguém vem aqui me explicar? Isso foi no ano passado. Bom, o tempo passou, e nenhuma informação oficial me chegou.  Chegaram a pedir a “planta baixa” e eu sem saber o que vão reformar em mim.

Para a minha grande tristeza, descobri nesta “planta baixa” que não serei reformada. Nada disso. Eu serei DEMOLIDA. Isso mesmo, vou repetir devagar: D-E-M-O-L-I-D-A. Como assim, não teve qualquer conversa, nenhum diálogo, nem uma reunião, nada. Não chamaram nem as pessoas que vivem aqui comigo!!!

Calma aí. Não posso ser DEMOLIDA. Por acaso, minha estrutura está condenada? Não, não é? Estou a oferecer algum risco a quem vive no meu interior? Não, não é? Querem me DEMOLIR, por quê?

Veja, as pessoas que estão comigo me cuidam tão bem: estou limpa, paredes pintadas, tenho um quintal maravilhoso, arborizado e que as crianças adoram nele brincar: correr, pular, esconderem-se nos galhos do cajueiro anão, local que elas chamam de “esconderijo secreto”. As crianças também observam borboletas e abelhas buscando alimentos nas flores, logo pela manhã. As crianças plantam no meu quintal, aliás a maioria das árvores que hoje tenho foi plantio feito por crianças que por mim já passaram. Minha árvore mais velha é o “Ipê amarelo” plantada por uma professora que por aqui passou. A segunda árvore mais velha é uma adolescente: cajueiro vermelho que completou 14 anos, plantio feito por uma turma de crianças (5 anos “F” – 2010) e sua professora, e dá frutos belos e deliciosos.

Desalentada com a informação confirmada pela “planta baixa” de que serei DEMOLIDA, para no meu lugar erguerem uma construção vertical, quis saber da engenheira algumas explicações. No dia 12 de janeiro de 2023, pela manhã, chegaram no meu chão: a engenheira do quadro efetivo da EMURB (Empresa Municipal de Obras e Urbanização), a arquiteta da Secretaria Municipal de Educação e duas técnicas da Coordenadoria de Educação Infantil da mesma Secretaria. As pessoas que vivem comigo no dia a dia foram minhas porta-vozes e fizeram as perguntas sobre a “planta baixa”: O que vai acontecer com a nossa escola? Por que não nos consultaram para a elaboração da planta baixa? E o quintal das crianças, como vai ficar? E as árvores? E o nosso Projeto Político Pedagógico?

A engenheira respondeu “o meu olhar foi para o aproveitamento do terreno, algumas árvores serão sacrificadas. Vamos construir uma escola de alto padrão, com piso superior, mais salas para atender mais crianças.  Vai ter rampa e escada”. Daí em diante só foi desalento.

O que eu sou, toda minha história de quase três décadas, as histórias construídas em mim pelas pessoas adultas e pelas crianças, de nada importa para alguém cujo olhar foi só “para o aproveitamento do terreno”???? Tudo poderá virar “escombros, poeira e pó, muito pó”, produzindo quantidade imensa de resíduos sólidos que serão descartados na natureza. Logo eu, uma escola tão empenhada e comprometida com práticas pedagógicas de defesa da natureza? Elas estão lá, inscritas no meu Projeto Político Pedagógico.

Senhor Prefeito de Aracaju e senhor Secretário Municipal de Educação a minha DEMOLIÇÃO é o apagamento de muitas histórias e não estabelece diálogo algum com o Projeto Político Pedagógico. Este também será sacrificado.

Eu preciso “gritar” para o senhor Prefeito de Aracaju, para o senhor Secretário de Educação e para a senhora Engenheira, cujo olhar só enxergou em mim “o aproveitamento do terreno” –  não sou somente uma construção a ser DEMOLIDA, não sou somente portão, paredes, telhados, pátios de cimentos, salas e banheiros. Dentro de mim há vidas, em mim há histórias, há afetos trocados, há ternura. Há crianças que fazem excursões no meu quintal procurando joaninha, observando para onde as formigas “trabalhadeiras” levam comida. Eu sou as crianças que vivem comigo a cada ano letivo, durante essas quase três décadas de existência.

NÃO ACEITO SER DEMOLIDA, quero ser melhorada, ficar mais bonita e melhor adequada para receber mais crianças e fazê-las felizes nos seus percursos de desenvolvimento integral. Com tanta tecnologia de construção civil disponível há possibilidades inúmeras de não demolirem as minhas estruturas na totalidade e também de não DEVORAREM o quintal e as árvores que ofereço às crianças. Há possibilidades inúmeras de realizarem uma reforma (e não demolição) me tornando uma ESCOLA SUSTENTÁVEL: implantar sistema de captação de águas da chuva, instalar placas de energia solar, dentre outras.

A minha importância não poderá nunca ser medida na prancheta de uma engenheira que só enxergou em mim “o aproveitamento do terreno”. A engenheira deveria ter me visitado e conversado com as pessoas mais importantes que comigo convivem: as crianças. Vocês deveriam ter perguntado a elas o que gostariam de modificar em mim. As crianças podem dizer como me querem em “alto padrão”.

INSISTO: NÃO ACEITO SER DE-MO-LI-DA

Assina a carta:

Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor – a escola RE existente!

Aracaju-SE, Outono de 2023

Prefeitura Aracaju prefere não falar

Com muita antecedência, a Mangue Jornalismo procurou a Prefeitura de Aracaju para esclarecer o projeto de reforma/demolição da Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor. Foi procurada a Secretaria Municipal de Educação (Semed) e a Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb). A comunicação da Emurb informou que ainda não tinha um posicionamento sobre as obras da Escola Áurea Zamor. A comunicação da Semed informou: “a Semed não vai se manifestar”.
A Mangue Jornalismo encaminhou as seguintes questões e que ficaram sem resposta da Prefeitura de Aracaju:


1 – Professoras, alunos, pais da Escola Áurea Zamor estão se organizando para tentar rever a ideia de demolição da unidade porque a escola tem uma ampla área verde, fica inclusive numa praça, e pela “planta baixa” apresentada, toda a área verde será suprimida. É isso mesmo?
2 – A Escola Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Melo Zamor será demolida e, em seu lugar, construída outra escola verticalizada?
3 – Qual o cronograma dessa obra?
4 – Quanto custará essa obra?
5 – As áreas verdes serão suprimidas e utilizadas para levantar essa outra escola?
6 – Ocorreu algum tipo de consulta pública sobre a demolição dessas escolas?
7 – Professores, pais de alunos e a comunidade foram ouvidos nesse processo?
8 – A prefeitura já encontrou lugares para as crianças e professores no mesmo bairro?

CRISTIAN GÓES

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3 respostas

  1. Como professora sinto uma tristeza imensa com toda essa situação criada pela Gestão do Prefeito Edvaldo Nogueira. Essa falta de escuta da Comunidade escolar trará muitas consequências ruins para nós e para as crianças. O prejuízo Pedagógico será profundo. A estrutura física de uma escola precisa dialogar com as práticas que nela são desenvolvidas.

  2. Verdade um absurdo com a população. Demolir uma escola boa daquela cm área verde. Minha filha especial ama aquele quintal cheio d plantas

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