
Foi divulgado ontem, 28, o importante relatório das Nações Unidas (ONU) sobre insegurança alimentar no mundo. No documento, o Brasil deixou o Mapa da Fome e isso é motivo de alguma alegria. O país está abaixo do patamar de 2,5% da população em risco de subnutrição ou de falta de acesso à alimentação suficiente. No Governo Bolsonaro tinha entrado no Mapa da Fome.
Esse mapa é um indicador global da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que identifica países em que mais de 2,5% da população sofrem de subalimentação grave (insegurança alimentar crônica). Estar no Mapa da Fome significa que uma parcela significativa da população do país não tem acesso regular a alimentos suficientes para uma vida saudável.
O relatório divulga esse indicador sempre na forma de médias trienais, considerando as informações dos últimos três anos. No ano passado, a Mangue Jornalismo divulgou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo IBGE. Nesse documento, Sergipe apareceu com 49,2% dos “domicílios particulares permanentes” em que os moradores estavam submetidos à insegurança alimentar leve, moderada e grave.
O percentual de Sergipe era o maior do país, superando o Pará (47,7%) e o Maranhão (43,6%). Em números absolutos, são 425 mil domicílios sergipanos com algum tipo de insegurança alimentar. Isso representa cerca de 1,2 milhão de moradores, sendo 766 mil deles estavam em grau “leve”, outros 314 mil na faixa “moderada” e 126 mil no grau de insegurança alimentar “grave”.
O quadro do IBGE e divulgado pela Mangue Jornalismo revela que a média nacional de insegurança alimentar mais severa (moderada e grave) foi de 9,4% dos domicílios, mas em Sergipe esse percentual da fome chegou a 18,7%.
Importante registrar que a pesquisa do IBGE não contabiliza a fome em nenhum nível nos barracos, ocupações e em tipos de moradia “não permanentes”.
Segundo a Escala Brasileira de Medida Domiciliar de Insegurança Alimentar (Ebia), na insegurança alimentar “leve” há o comprometimento da qualidade da alimentação, trazendo preocupação aos moradores quanto ao acesso aos alimentos no futuro; na “moderada” ocorrem modificações e restrições nos padrões usuais da alimentação, sobretudo nos adultos; e na insegurança alimentar “grave” há redução e privação da quantidade de alimentos, podendo incluir a fome em crianças e adolescentes.
Infância com fome, sem futuro
Em janeiro deste ano, a Manguepublicou a série de reportagens Infância Sem Futuro e o terceiro texto foi exatamente sobre o estudo Pobreza Multidimensional na Infância e Adolescência no Brasil (2017-2023), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Pelos dados do Unicef, Sergipe é o estado brasileiro onde crianças e adolescentes mais sofrem algum tipo de insegurança alimentar, com percentual de 59,8% entre as pessoas de 0 aos 17 anos. Isso significa que quase seis em cada dez crianças em Sergipe enfrentam problemas com a alimentação, desde a restrição até sua completa ausência.
No Brasil, a média percentual de crianças e adolescentes que têm privação de alimento é 36,9%. O estado de menor percentual de insegurança alimentar na faixa etária de 0 aos 17 anos é Santa Catarina, com 15,7%, uma diferença para menos de Sergipe de 44,1 pp.
Crianças e adolescentes com insegurança alimentar, por estado, entre 2017-2023

No estudo do Unicef, vale destacar e comparar a redução no quadro de insegurança alimentar nos estados entre os anos de 2018 e 2023, com uma queda significativa, mas que não foi verificada em Sergipe.
Ao olhar apenas os estados nordestinos, por exemplo, o percentual caiu no Maranhão de 73,5% em 2018 para 51,3% em 2023. Em Alagoas caiu de 69,7% para 43%. Em Pernambuco, a redução foi de 60,7% para 46,2%. Nesse mesmo período, em Sergipe, a redução foi de 0,1%, de 59,9% para 59,8%.
Crianças e adolescentes com insegurança alimentar no Nordeste
| Estados do Nordeste | Ano 2018 (%) | Ano 2023 (%) |
| Piauí | 57,2 | 51,2 |
| Maranhão | 73,5 | 51,3 |
| Rio Grande do Norte | 65,7 | 42,8 |
| Alagoas | 69,7 | 43,0 |
| Ceará | 59,2 | 42,8 |
| Paraíba | 63,3 | 44,1 |
| Sergipe | 59,9 | 59,8 |
| Bahia | 58,7 | 49,7 |
| Pernambuco | 60,7 | 46,2 |
Para Milena Barroso, assistente social e professora na Universidade Federal de Sergipe (UFS), uma das possíveis explicações da não alteração da pobreza multidimensional em Sergipe pode ser apreendida exatamente pela insegurança alimentar. “Segundo dados da PNAD de 2023, Sergipe é o estado que mais apresenta insegurança alimentar no país, em média 50% dos domicílios enfrentam a insegurança alimentar em algum nível, o que incide, em grande medida, na situação das crianças e adolescentes”, reforça.
Os dados do Unicef acabam revelando a ausência de políticas públicas que atendam às reais necessidades das famílias sem ou com renda de até um salário mínimo, que estão na informalidade e vivenciam diversas formas de desproteção.
“Existe uma incapacidade e ineficácia das políticas municipais e da política estadual de garantir uma proteção econômica e social que enfrente a insegurança alimentar”, analisa a professora. Ela aponta que ao se considerar os dados da vulnerabilidade de crianças e adolescentes, “estamos também tratando de desigualdades e ausências enfrentadas por famílias, especialmente de mulheres responsabilizadas pelo cuidado, que estão em situação de pobreza”.
A professora chama atenção para a condição da mulher quando se trata da insegurança alimentar de crianças e adolescentes. “É indispensável pensarmos na responsabilização indevida que recai sobre as mulheres, mães, avós, tias, especialmente negras, historicamente responsabilizadas pelo cuidado das crianças. A pobreza não é responsabilidade das mulheres e/ou das famílias, resulta, por outro lado, das desigualdades econômicas e sociais, da concentração de renda, da ausência de proteção das instituições e de políticas que favorecem ‘os grandes’ e contribuem para a permanência dessa situação”.

Governo reafirma combate à fome e erradicação da pobreza infantil
A Mangue Jornalismo republica parte da nota enviada pelo Governo do Estado de Sergipe, através da Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), sobre a temática. O governo “reafirma seu compromisso com a erradicação da pobreza infantil e a inclusão social, por meio de ações concretas e investimentos contínuos que garantam proteção e dignidade às famílias sergipanas”.
Segundo a nota, “os dados do Unicef refletem um cenário herdado de um contexto de crise sanitária global e desafios estruturais, que vêm sendo enfrentados com determinação pela atual gestão desde 2023”.
Para a Seasic, “a pobreza multidimensional infantil em Sergipe é influenciada por diversos fatores históricos e conjunturais, como desigualdades regionais persistentes e os impactos econômicos da pandemia de Covid-19. O Governo do Estado tem atuado com compromisso e determinação para mitigar esses desafios, com ações e programas que já demonstram impactos positivos na vida das famílias sergipanas”, garante.
Na nota, o governo relacionou ações implementadas em 2023 e 2024: “Cofinanciamento Estadual: Repasse total de R$ 43 milhões aos municípios, garantindo a sustentabilidade dos serviços socioassistenciais e fortalecendo os serviços de Proteção Social Básica e Especial. Cartão Mais Inclusão (CMais): Beneficiou 320 mil sergipanos, com investimentos totais de R$ 82 milhões, assegurando alimentação e suporte financeiro para famílias em situação de vulnerabilidade. Segurança Alimentar: Distribuição de 1,4 milhão de refeições pelo programa Prato do Povo e aquisição de 3.000 toneladas de alimentos pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), beneficiando 500 agricultores familiares e 157 entidades assistenciais. Inclusão Social: Expansão do programa Ciranda Sergipe para 37 municípios, atendendo 1.917 cidadãos com serviços essenciais e apoio técnico. Política Estadual da Primeira Infância: Lançamento do Plano Estadual da Primeira Infância, abrangendo os 75 municípios e fortalecendo as políticas intersetoriais para o desenvolvimento infantil”.
Para o Governo de Sergipe, “de acordo com os dados oficiais do IBGE, a taxa de pobreza reduziu de 45,6% em 2023 para 43,2% em 2024, refletindo os impactos das ações implementadas”.
Seasic informou que para este ano (2025) estão previstas ações estratégicas, como: “Expansão do Cofinanciamento Estadual: Totalizando R$ 34 milhões, garantindo maior suporte aos municípios e ampliação da cobertura dos serviços assistenciais. Cartão Mais Inclusão (CMais): Ampliação para 350 mil beneficiários, com investimento de R$ 60 milhões, garantindo maior segurança alimentar e suporte financeiro às famílias sergipanas. Segurança Alimentar: Distribuição de 1,2 milhão de refeições pelo programa Prato do Povo, expandindo o acesso à alimentação saudável. Infraestrutura: Construção de mais 50 creches-escolas pelo Programa Amei, assegurando espaços adequados para o desenvolvimento infantil. Inclusão Social: Fortalecimento dos programas de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade, com ampliação da cobertura e melhoria dos serviços prestados”.
A nota informou que “o Governo de Sergipe reafirma seu compromisso com a promoção da dignidade e do bem-estar da população, por meio de políticas eficazes, planejamento estratégico e ações de impacto que asseguram direitos e oportunidades para todos”.


