O 25 de outubro de 2026 entrou para a história como o dia em que a maioria do povo brasileiro optou por manter, mesmo com imperfeições, a democracia e a soberania do país. O presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos contra 48,21% do candidato da extrema-direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL). Lula recebeu mais de 65 milhões de votos e ganhou em todos os estados do Nordeste.
Lula tinha terminado o primeiro turno, em 4 de outubro, atrás de Flávio Bolsonaro e, graças a uma enorme mobilização popular nas redes digitais e nas ruas nos últimos 21 dias, conseguiu virar no segundo turno, tornando-se o primeiro presidente a governar o Brasil pela quarta vez. Lula tem 81 anos e esta deve ser a sua última eleição para a Presidência da República.
Entretanto, a eleição deste ano foi mais que história; ela registrou características quase inéditas no país, o que revela o tamanho da grandiosidade do resultado: a maioria do Brasil derrotou nas urnas a interferência eleitoral direta e sem disfarces do Governo dos Estados Unidos; as ações da Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp; as censuras impostas pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes, indicado por Jair Bolsonaro à corte; e principalmente derrotou o conluio entre crime organizado miliciano e grandes empresários, banqueiros, agronegócio, mídias tradicionais e religiosos com interesses espúrios.
Três dias antes da votação, o presidente Lula participou ao vivo de uma live no YouTube com o deputado federal André Janones (Rede-MG), um dos responsáveis pela criação de um grupo no WhatsApp com mais de 12 milhões de seguidores. Na live, Lula disse que depois da vitória quer “discutir um novo jeito de governar este país. A participação do povo nesta campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar este país. Este país nunca mais será o mesmo”.
O dia de votação neste domingo, 25, começou aparentemente tranquilo, com grande mobilização das campanhas buscando levar mais gente para votar no 2º turno. Entretanto, logo se percebeu que prefeitos de capitais ligados à extrema-direita, a exemplo das cidades de Salvador e São Paulo, reduziram drasticamente o fornecimento de transporte público, impedindo o deslocamento de eleitores. Em Sergipe, o Tribunal Regional Eleitoral teve que intervir na Coopertalse, que faz transporte intermunicipal, porque os veículos não saíram da garagem. O caos se estabeleceu em vários estados e somente às 16h45 o TSE resolveu atender os pedidos das duas campanhas para estender a votação até às 19 horas.
O ministro presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, foi duramente criticado porque buscou interferir no resultado em favor do candidato da extrema-direita. A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) protocolou no TSE um pedido de suspeição por parcialidade partidária contra o ministro.
Além do presidente do TSE, a empresa Meta também foi acusada, com uma série de provas, de interferir nas eleições. Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) chegaram a assinar uma carta em que apontaram graves restrições à liberdade de expressão em plataformas como Instagram, Facebook e WhatsApp, todas da empresa Meta. Os observadores internacionais que participaram das eleições detectaram tratamento desigual das plataformas para prejudicar a candidatura do presidente Lula. Entre os episódios registrados estão interrupções temporárias de contas de campanha e engajamento e alcance de publicações políticas de um dos candidatos severamente menor. Eles também citaram que milhares de contas e perfis de influenciadores, jornalistas e criadores de conteúdo ligados a Lula foram suspensos.
O fato é que a gigante mobilização popular pela reeleição do presidente Lula é um combustível vital para que ele consiga enfrentar a enorme força oposta que lhe espera a partir de 2027. A extrema direita elegeu a grande maioria dos senadores, deputados federais e governadores. Apenas no Senado, casa que dirige o Congresso Nacional e pode aprover o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do presidente da República, partidos como o PL, União, PP, Republicanos e Novo garantiram 43 das 81 cadeiras, atingindo a maioria absoluta.
Candidato da extrema direita atolado em denúncias de corrupção e milícia
Somente na reta final de campanha parte da sociedade brasileira foi tomando conhecimento de uma série de escândalos de corrupção e associação com as milícias envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, que tem 26 anos de vida pública. Aos 19 anos ele ocupou um cargo de 40 horas semanais em Brasília, na liderança do então PPB na Câmara dos Deputados, onde seu pai era deputado federal. Ocorre que Flávio, no mesmo período, cursava Direito e era estagiário na Defensoria Pública do Rio de Janeiro.
Quando foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro, aos 21 anos, Flávio foi acusado de liderar uma organização criminosa que exigia a devolução de parte dos salários de assessores em seu gabinete. O esquema conhecido como “rachadinha” teria movimentado mais de R$ 6 milhões com 1.512 depósitos fracionados em espécie, tendo Fabrício Queiroz como operador financeiro. As apurações nesse caso se desdobraram em várias linhas, incluindo negociações imobiliárias com uso de dinheiro em espécie e a contratação de familiares do ex-policial Adriano da Nóbrega, um matador de aluguel, membro de grupo de extermínio e líder da milícia Escritório do Crime, grupo especializado em assassinatos por encomenda.
Adriano foi homenageado duas vezes por Flávio com a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, anos antes de ser expulso da PM por envolvimento com o jogo do bicho. Flávio empregou a mãe e a então esposa do ex-PM em seu gabinete na Alerj por 11 anos. Na Assembleia, o então deputado estadual fazia pronunciamentos defendendo as ações violentas de milicianos e das milícias. Ele homenageou no Legislativo 23 milicianos. Flávio e Domingos Brasão foram os únicos deputados estaduais que não votaram a favor da CPI das Milícias no Rio. Brasão foi um dos condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco.
Milícia é um grupo armado formado principalmente por ex-policiais expulsos da corporação, geralmente por assassinatos e roubos, e por policiais da ativa que age controlando territórios, realizando o tráfico de drogas e armas, comandando os serviços públicos, privados e religiosos, dominando os moradores, cobram taxa de tudo e mata a quem se opõe. As milícias e as facções criminosas são as partes mais violentas e executivas do crime organizado no Brasil, mas elas têm fortíssimas relações e ramificações em prefeituras, governos estaduais, assembleias legislativas, câmara de vereadores e no alto sistema financeiro do país. No primeiro turno das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro venceu em 86% dos locais de votação em áreas dominadas por milícias no Rio de Janeiro.
Além dos antigos questionamentos sobre sua relação com Adriano da Nóbrega, Flávio Bolsonaro voltou a ter seu nome associado ao tema das milícias em um caso mais recente. Reportagens apontaram que uma assessora de seu gabinete manteve conversas com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado por participação no assassinato da vereadora Marielle Franco. A assessora trocava mensagens sobre a destinação de uma emenda parlamentar de R$ 199 mil para um projeto esportivo no Rio de Janeiro.

Uma das frentes da investigação tratou de uma franquia de uma rede de chocolates da qual Flávio era sócio. Promotores suspeitavam que a loja teria sido utilizada para lavar recursos provenientes do suposto esquema de rachadinha, apontando depósitos em dinheiro vivo considerados atípicos para o perfil do negócio. A investigação também examinou a origem dos valores utilizados para a aquisição da franquia e a movimentação financeira da empresa.
Outra frente de investigação relacionada ao caso envolve a compra de uma mansão em Brasília por Flávio Bolsonaro no ano de 2021. A PF apura um financiamento de R$ 3,1 milhões concedido pelo Banco de Brasília (BRB) para a aquisição do imóvel, avaliado em R$ 6 milhões. O empréstimo é uma das linhas de investigação do inquérito que examina o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a relação do Banco Master com o BRB.
Um dos escândalos mais recentes é o que envolve o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, inquérito que tramita no STF. Flávio Bolsonaro é investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas a aportes milionários atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro. Segundo documentos da investigação, Flávio atuou diretamente e há inúmeros áudios dele para Vorcaro.
A PF apura o envio de recursos ao exterior e busca esclarecer a origem e o destino final dos valores. Já se descobriu uma “divergência contábil severa” entre os recursos enviados ao exterior e os valores que retornaram ao Brasil para financiar o filme: mais de 12 milhões de dólares deixaram o país, mas apenas 2,8 milhões de dólares tiveram ingresso registrado no Brasil. A relação entre Flávio e Daniel Vorcaro passou a receber atenção dos investigadores para além do financiamento do filme. Reportagens e documentos analisados pela PF apontaram contatos frequentes entre ambos, incluindo viagens e tratativas comerciais.
Um segundo inquérito em andamento no STF no qual Flávio Bolsonaro é investigado examina a relação do senador com o advogado Willer Tomaz, personagem de diferentes apurações da Polícia Federal e citado em investigações relacionadas ao esquema de fraudes no INSS. O caso levou o STF a autorizar diligências sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e sobre uma possível participação oculta do senador na empresa de apostas Best Bet, licenciada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). A PF afirma ter identificado elementos como registros de viagens custeadas por empresas ligadas a Tomaz, além de documentos que apontavam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira e controlada pelo advogado.
Nos últimos dias, a revista piauí revelou que durante a pandemia da Covid, Flávio Bolsonaro teria participado de um churrasco numa lancha no Lago Paranoá com garotas de programa. Na festa, organizada por empresários interessados em negociar vacinas com o governo de seu pai, ele teria ganhado um Rolex de presente. A revista reconstitui o episódio a partir do relato de uma pessoa que estava na embarcação, além de documentos de quebras de sigilo enviados a CPIs, entrevistas e registros de voos. O passeio ocorreu em 17 de julho de 2020, dia em que o Brasil registrou 1.110 mortes por Covid. Danilo Trento e Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, encarregaram um agente de viagens de preparar o encontro e levar três mulheres de São Paulo a Brasília em um jatinho. Trento participou do passeio com o senador e com Alexandre Santini, então sócio de Flávio numa loja de chocolates da franquia Kopenhagen.
Flávio Bolsonaro também foi acusado pelo jogador Richarlison de participação em uma disputa pela posse de uma mansão localizada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ). O atleta afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel e sustenta que perdeu seus direitos sobre a propriedade após se recusar a vendê-la ao senador. Segundo Richarlison, Flávio teria atuado em conjunto com Willer Tomaz para viabilizar a transferência dos direitos de ocupação da área. A PF afirmou que vai incluir a apuração sobre a contenda no mesmo inquérito que investiga as relações entre Flávio e Willer Tomaz.

Interferência dos Estados Unidos na eleição
Desde agosto deste ano, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaborou um relatório que alertava sobre a influência e a interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. O documento mostra como o governo estadunidense buscava o comando de todo o continente americano a partir do controle das terras raras, infraestruturas, agronegócio, petróleo e gás, afastando os países da região de seu rival, a China.
“Acompanho as eleições muito de perto. O Brasil é um país muito importante”, disse o presidente Donald Trump. Flávio Bolsonaro esteve nos Estados Unidos com o presidente e prometeu que se fosse eleito iria levar o Brasil a aderir a política de Trump. Logo depois do encontro, o presidente estadunidense atacou o Pix e aumentou a taxação de produtos brasileiros. “Flávio queria submeter o país a uma estrutura militar e política comandada por uma potência estrangeira, ampliar a dependência externa e reduzir a autonomia brasileira para decidir sobre sua segurança, sua economia e sua política externa”, analisou a professora Talita Tanscheit, professora de Ciência Política da PUC/RJ.

Na verdade, a interferência dos EUA mais explícita nas eleições de 2026 começou em abril de 2025, quando o Brasil foi alvo de tarifas de exportação. Inicialmente, foram 10%, e logo depois Trump assinou uma Ordem Executiva que considerava o Brasil uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA”, e elevou a tarifa para 50%. Na justificativa estava nítida a ação política eleitoral: que o Judiciário brasileiro era contra as empresas de mídias sociais que incitam discursos de ódio e atentados à democracia, e alegaram “perseguição a Jair Bolsonaro”.
Além das tarifas, o governo norte-americano aplicou a Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, ministro do STF, relator dos processos da trama golpista. Essa lei prevê o bloqueio de contas bancárias, ativos e aplicações financeiras nos Estados Unidos, a proibição de transações com empresas americanas que estão no Brasil, além do impedimento de entrada no país. Também foram alvo de cancelamento do visto de entrada nos EUA os ministros do STF Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes.
Grande parte dessas ações foram articuladas pelo então deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que já havia fugido para os Estados Unidos. Ele festejou nas redes digitais a imposição das tarifas contra o Brasil e a aplicação da Lei Magnitsky, numa tentativa clara de interferência nos processos judiciais envolvendo Jair Bolsonaro. Eduardo foi condenado pelo STF em junho deste ano.
No dia 22 de julho, os EUA anunciaram nova sobretaxa de 25%. A medida atingiu 19% das exportações brasileiras para o país norte-americano. Entre as alegações do governo Trump estava o uso do Pix no Brasil, sem passar pelas grandes corporações bancárias dos EUA.
Em maio deste ano, os EUA anunciaram o desígnio das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Para o Governo Lula, essa ação poderia abrir caminho para uma ação militar daquele país no Brasil. De acordo com especialistas, a classificação dessas facções como terroristas pode, na verdade, atenuar eventuais punições a quem comete crimes de narcotráfico, lavagem de dinheiro, extorsão, latrocínio e contrabando de armas e munições.
“A nossa extrema direita, antinacional e entreguista, tem relações profundas com o crime organizado, que hoje tem um grande peso econômico e político. Portanto, essa ideia do Escudo das Américas combater o crime organizado, é o contrário disso: ele vai fortalecer setores vinculados a ele”, disse ao Brasil de Fato o historiador Luiz Eduardo Fernandes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O plano Escudo das Américas é um projeto de Donald Trump que já tem adesão de 14 países latino-americanos.
A intervenção do Governo dos Estados Unidos é tão nítida nas eleições no Brasil que 31 parlamentares estadunidenses assinaram e enviaram uma carta ao secretário de Estado do país, Marco Rubio, afirmando que Donald Trump não pode interferir nas eleições do Brasil. Os democratas falam em um “esforço coordenado do governo [de Donald Trump] para ameaçar nossa aliança estratégica com o Brasil e enfraquecer a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental às vésperas da eleição presidencial de outubro de 2026”. Na carta, os parlamentares acusam Trump de tomar uma série de medidas para tentar garantir a vitória de Flávio Bolsonaro, candidato da extrema-direita e alinhado com Trump.
*Com Agência Brasil


