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Beto Ribeiro e a arte de esculpir o cotidiano. Artista plástico sergipano foi um dos destaques na maior feira de artesanato da América Latina

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

Do povoado Lagoa Funda, em Gararu, para o mundo. Humberto Alves Ribeiro, ou simplesmente Beto Ribeiro, nasceu em 1958 e começou a fazer esculturas quando desafiado por seu pai. O sergipano, que tem como característica marcante a riqueza de detalhes e o regionalismo em suas peças, usa a madeira como matéria-prima principal de suas obras, mas também utiliza a pedra calcária e o cimento em algumas obras. Em sua arte, Beto faz questão de apresentar o cotidiano nordestino e suas múltiplas facetas, sobretudo as figuras humanas.

“Eu era muito jovem quando comecei a fazer esculturas. Meu pai me provocou para que eu fizesse um trabalho, pois ele havia trazido a escultura de uma águia e falou que eu não tinha condições de fazer uma igual. Eu não tinha os instrumentos adequados para trabalhar e lhe pedi que providenciasse e que eu faria melhor. Assim eu fiz e fui bastante elogiado por ele. Daí para a frente, passei cerca de um ano, um ano e meio, trabalhando com esculturas. Depois desse tempo, eu desgostei por alguns motivos e parei cerca de 30 anos”, contou o artista.

Beto Ribeiro e sua arte em madeira (Foto: Arquivo pessoal do artista)

De uma águia que inicia à uma fênix que recomeça, diante de tanto talento e qualidade de suas peças, Beto foi incentivado pela família, principalmente pela esposa e seus filhos a retornar às artes. Ele passou a frequentar galerias de arte, exposições, concursos em que foi premiado em primeiro lugar. Beto passou a levar sua arte e a sua versatilidade em esculpir a diversos espaços dentro e fora de Sergipe, a exemplo do Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. Para o artista, não faltam espaços para a realização de exposições, mas é preciso correr atrás, afinal, segundo o mesmo, “quem não é visto, não é lembrado”.

“Independente de incentivo governamental, que nós sabemos que existe, mesmo não sendo ainda satisfatório, é necessário também que o próprio artista se apresente, nunca deixe suas obras guardadas, arquivadas”, recomenda o artista.

Para Beto, “o poder público já está auxiliando de alguma forma, existem alguns incentivos por aí por parte do Governo Federal, por exemplo, e muitas pessoas recebem esse apoio. Eu acho que é interessante ter o incentivo do poder público, mas a distribuição dos recursos poderia ser feita de maneira mais igualitária, com mais consciência. Dessa forma, eu acredito que as artes se desenvolverão muito mais no estado e no país, é preciso incentivar”, pontuou ele.


De Sergipe para a maior feira de artesanato da América Latina

Durante 12 dias neste mês de julho, mais de 5 mil artesãos estiveram presentes na 23ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) em Olinda, na Grande Recife. Entre eles, estava lá Beto Ribeiro, representando Sergipe com suas peças em madeira, participando pela primeira vez de um evento de grande porte com artistas de vários estados brasileiros e de alguns países da América Latina. Além disso, Beto teve a sua obra contemplada para ser exibida no Salão de Artes Religiosas do evento, espaço seleto para a exposição artísticas que passam por uma curadoria criteriosa e forte concorrência.

Beto contou que foi à Feira de maneira independente, sem suporte do Governo do Estado ou instituições para que ele pudesse participar. Ele relatou que chegou a ver uma tenda de Sergipe, com obras de artistas locais, mas que ele foi sem incentivo algum, e, ainda assim, conseguiu se destacar em um dos salões de artes do evento, tendo a sua obra elogiada, admirada e saindo do evento com o saldo de mais um convite para uma exposição futura.

“Minha experiência na Fenearte foi uma das melhores até agora, pois a população que frequentou são pessoas de todos os tipos, leigas, curiosas, artistas de renome, artistas iniciantes, pessoas de vários estados e alguns países. Ou seja, uma oportunidade única de troca, foi adorável, admirável. Nós entramos em contato com vários artistas e mestres, porque sabemos que Pernambuco é um celeiro de artistas de renome, muitos mestres, e debatemos muitos assuntos no tocante às artes, diferente um pouco daqui de Sergipe”, ressaltou.

Obra selecionada para o Salão de Artes Religiosas na Fenearte 2023 (Foto: Arquivo pessoal do artista)

O povo de Sergipe gosta de arte?

Ao longo da entrevista, o público sergipano surgiu como uma das questões desafiadoras para os artistas sergipanos que buscam viver de suas produções. De acordo com Beto, ainda é uma incógnita saber se de fato o público sergipano gosta das obras que adquire, uma vez que, grande parte do público que frequenta as galerias, exposições, salões de arte e adquire peças, não debate a respeito das obras, não perguntam sobre o processo, sobre o artista, e para ele, isso é uma grande falha no estado.

“Acredito que, para o reconhecimento dos artistas em Sergipe, assim como em todo o país, faz-se necessário que o próprio artista supere esses fracassos, supere as dificuldades e críticas que recebe sempre que está entrando no mercado. Nós, artistas, precisamos aprender a superar tudo isso e fazer o trabalho com amor. Quem faz arte com amor sempre supera tudo, porque o mundo respira arte. Não podemos jamais deixar de fazer arte, porque nós somos pessoas que expressamos os sentimentos através do nosso trabalho, uma obra de arte conta uma história”, afirmou.

Beto lamenta a falta de divulgação de artistas, sobretudo em sua área, nas artes plásticas, em Sergipe, pois existem centenas de artistas talentosos no estado que ainda vivem no anonimato e lutam para entrar e se manter no mercado. Além disso, o artista faz um apelo para que a população incentive também a produção, seja prestigiando as exposições, seja adquirindo as obras, seja conversando com os artistas e ajudando a divulgar seus trabalhos. Para ele, “a arte é uma forma de mudar o mundo, acabar com a negatividade do planeta e trazer mais sensibilidade aos seres humanos. Arte é revolução”.

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