Bancada Cristã na Câmara é nova investida contra estado laico. Seis deputados federais de Sergipe votaram favoráveis

ALEXANDRE DE JESUS DOS PRAZERES, especial para a Mangue Jornalismo
(@alexandrejprazeres)

Criação da Bancada Cristã foi celebrada com culto ecumênico na Câmara dos Deputados (Crédito: Reprodução Instagram Gilberto Nascimento)

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

A situação não está fácil no Brasil. A Câmara Federal em Brasília aprovou na última semana (dia 22) o regime de urgência para que seja votado em plenário o projeto que cria a Bancada Cristã. Trata-se da Resolução 71/25 apresentada pelos presidentes das duas frentes parlamentares que militam por pautas religiosas na Câmara: as frentes parlamentares evangélica e católica. 

“O pedido de urgência foi aprovado com 398 votos favoráveis e 30 contrários. Os projetos com urgência podem ser votados diretamente no Plenário, sem passar antes pelas comissões da Câmara” (MIRANDA, 2025). 

Dos oito deputados federais de Sergipe, seis apareceram para votar e todos eles votaram favoráveis. Foram eles: Delegada Katarina (PSD), Gustinho Ribeiro (Republicanos), Rodrigo Valadares (União), Thiago de Joaldo (PP), João Daniel (PT) e Yandra Moura (União). Já os deputados federais Fábio Reis (PSD) e Ícaro de Valmir (PL) não apareceram na votação.

O projeto não extingue as duas frentes parlamentares citadas, mas, estrategicamente, ao criar uma bancada, garante aos representantes desta o direito de compor o Colégio de Líderes da Câmara Federal, podendo ter voz e voto nas reuniões de líderes partidários, e usar a palavra por cinco minutos semanalmente em Plenário para dar destaque às proposições e ações de interesse da Bancada. Assumiram a liderança desta proposta o presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Gilberto Nascimento (PSD-SP), e o presidente da Frente Parlamentar Católica Apostólica Romana, Luiz Gastão (PSD-CE).

A iniciativa é reacionária, algo que não surpreende, pois é o modus operandi dos políticos que compõem as supracitadas frentes parlamentares. Católicos e evangélicos fundamentalistas no cotidiano de suas comunidades religiosas não reconhecem uns aos outros como cristãos legítimos e, por isso, trabalham por mútua conversão. No campo político, estão envolvidos em um ecumenismo de extrema direita.

Estão reagindo à existência na Câmara das bancadas negra e feminina, cuja justificativa para existência se relaciona com a necessidade de correção de injustiças históricas de gênero e raça, não somente no Congresso Nacional, mas em toda a sociedade brasileira. 

Estas frentes parlamentares que militam em reação às mudanças culturais oriundas dos tempos modernos se orientam por uma lógica de guerra cultural. A expressão foi popularizada por James Davison Hunter no livro Culture wars: the struggle to define America.

Busca-se o controle da arte, da educação, do direito e da política

Hunter (1992) faz um relato de como fundamentalistas de diversas confissões religiosas (cristãos, judeus ortodoxos e católicos conservadores) se uniram em uma batalha pelo controle da cultura americana, incluindo a busca empreendida pelos lados em conflito para obter controle sobre campos como a família, a arte, a educação, o direito e a política.

Amy Smith (2023, p.26), considerando o proposto por Hunter, explica que as guerras culturais podem ser definidas como “conflitos democráticos generalizados e prolongados dentro das sociedades, entre grupos sociais que consideram suas visões de mundo como fundamental e mutuamente incompatíveis”. Por “conflitos democráticos”, ela está se referindo ao fato dos conflitantes usarem principalmente arenas e armas do sistema político democrático (eleições, debates para influenciar a opinião pública e etc), porém, eventualmente e não estrategicamente, podendo ocorrer violência física. 

É significativo que as visões de mundo conflitantes que conduzem ás guerras culturais são tipicamente delineadas por religiões. Os polos em conflito envolvem “seculares” versus “fundamentalistas religiosos”, mas as guerras culturais podem envolver também conflitos entre diferentes grupos religiosos. “No Brasil, as guerras culturais acontecem em duas frentes simultaneamente: entre cidadãos religiosos e seculares, e entre evangélicos e católicos. Às vezes, evangélicos e católicos são aliados e, outras vezes, estão em conflito” (SMITH, 2023, p.27).

Ainda sobre este ecumenismo de extrema direita entre católicos e evangélicos no campo político, Ana Carolina Evangelista (2025), cientista política e pesquisadora do ISER, apresenta um panorama histórico sobre essas duas frentes, seus processos de formação e quando iniciam uma cooperação mais sistemática para fazer oposição à implementação ao Plano Nacional de Direitos Humanos III (PNHD-3), aprovado em 2010, último ano do governo Lula 2. E também quando a aliança se explicita nos anos seguintes na defesa de projetos legislativos como o Estatuto da Família (PL 6583/2013), a “cura gay” (PDC 234/2011) e impedimentos ao aborto legal (PL 5069/2013), entre outros.

O que motivou a criação desta bancada exatamente agora?

Evangelista, respondendo uma pergunta sobre o que motivou a criação desta bancada exatamente agora, expõe alguns fatos políticos da atual conjuntura que podem ter provocado esta reação: 1) reaproximação do governo Lula com lideranças evangélicas que podem ter influência sobre a base eleitoral nas igrejas com foco nas eleições de 2026; 2) as indicações de pesquisas de opinião que apontam melhora na aprovação do governo Lula entre o eleitorado evangélico; 3) há ainda o voto do ministro do STF recém-aposentado, Luis Roberto Barroso, pela reabertura de votação sobre a descriminalização do aborto na Corte; 4) e também recentes derrotas da oposição, dentre estas, o não avanço da tramitação pela anistia dos condenados por tentativa de golpe em 2022, não aprovação da PEC da Blindagem, e a vitória do governo na aprovação de pautas importantes no Congresso.

Como justificativa do projeto 71/25 para criação da Bancada Cristã, estão postos três argumentos: o primeiro é o de que a população brasileira é majoritariamente cristã; o segundo apela para o fato da Constituição brasileira garantir a liberdade religiosa e isto reforçaria “o direito dos parlamentares organizarem-se para promover o debate público à luz de seus valores e convicções, garantindo maior articulação e visibilidade às pautas que defendem a família, a vida, a justiça social e a liberdade de expressão da fé”; e o terceiro é o de que a “formalização da Bancada Cristã não tem caráter excludente, mas integrador: busca dar voz a milhões de brasileiros que desejam ver representados, no Parlamento, seus princípios éticos e espirituais”.

O primeiro argumento acolhe como premissa a noção de que o Estado deve promover os interesses dos mais fortes e ignorar os anseios dos mais vulneráreis por serem minorias. Quando na verdade o Estado democrático de direito está obrigado por seu ordenamento jurídico a garantir os direitos de todos os cidadãos, sem discriminação por classe social, raça, política e religião. E as minorias são as que mais precisam da proteção do Estado por se encontrarem em maior vulnerabilidade, sendo passíveis de terem os seus direitos violados e sem recursos e garantias para sua defesa. 

O argumento, por si, refuta a ideia disseminada por estes parlamentares de que fazem parte de um grupo social perseguido e impedido de se expressarem. Esta é uma estratégia política denominada pelo cientista político Joanildo Burity (2024) como “minoritização”. Que é o processo discursivo através do qual grupos majoritários em número se apresentam como minorias perseguidas. O objetivo é o de criar um capital político e moral para sustentar demandas por reconhecimento e proteção, ao mesmo tempo, que serve para deslegitimar outros grupos sociais.

Um dos argumentos para a bancada cristã é que a população brasileira é majoritariamente cristã (Crédito Cristiano Mariz)

A noção equivocada de liberdade absoluta 

O segundo argumento revela a noção equivocada de liberdade absoluta utilizada corriqueiramente pela extrema direita, como um direito exigido para si (porém negado aos outros) de se expressarem livremente e mesmo quando cometem crimes (ao difamarem, caluniarem, mentirem, disseminarem o ódio, etc), ficarem impunes.  

Observemos que utilizam “liberdade religiosa” com o sentido de “liberdade de expressão de fé”. E isto, quando se referem à necessidade de garantir “visibilidade às pautas que defendem a família, a vida…”, como se estivessem impedidos de viver à luz de como compreendem estas questões. É o recurso ao “terror moral” com qual mobilizam as suas bases eleitorais nas igrejas, argumentam que estão sob ameaça e impedidos de viver segundo os valores e crenças que professam. Mas isto não é verdade. O problema é que se articulam politicamente para, por meio do Estado, impor um modo de vida segundo os seus valores e crenças a toda a sociedade.

O terceiro argumento de que a criação da Bancada Cristã não é excludente, mas integradora, buscando dar voz a milhões de brasileiros, levanta a questão: quem é integrado e dá voz a quais brasileiros? E a resposta é óbvia, o objetivo é o de dar voz aos que eles compreendem como maioria cristã do país. Como só esta maioria importa, os demais cidadãos que não se orientam por “princípios éticos e espirituais” cristãos não são considerados, mas tratados como inexistentes até para serem tratados como excluídos. O caráter “não excludente” da proposta é o de garantir representação e voz no parlamento brasileiro somente a quem for cristão.

E ainda é necessário considerar que se trata de um tipo particular de cristianismo conservador e fundamentalista. Pois quem não se enquadra nesta perspectiva não é considerado por eles como cristãos. Ou seja, não precisam se dar ao trabalho de se reconhecerem como excludentes, porque não admitem a existência de cristãos que leem a tradição cristã com ósculos não fundamentalistas e, menos ainda, a de quem vive segundo “princípios éticos e espirituais” de outras tradições religiosas, ou que sejam ateus e agnósticos.

Presidente da Câmara, Hugo Motta (ao centro), participou de culto organizado pelas frentes parlamentares católica e evangélica (Crédito Marina Ramos/Câmara dos Deputados)

Os parlamentares enxergam o outro (a alteridade) como ameaça 

Estes parlamentares e suas bases eleitorais, mantidas sob controle por meio do medo, enxergam o outro (a alteridade) como ameaça. Querem convencer a sociedade brasileira de que possuem a sua liberdade de “expressão religiosa” ameaçada, quando são eles que estão pondo em risco a liberdade dos demais. E o fazem para garantir privilégios e o poder do Estado para impor os valores de sua visão particular de cristianismo a todos os brasileiros.

Já expliquei em outro texto publicado AQUI acerca da tentativa da extrema direita em transformar o Charlie Kirk em mártir. E como os Nacionalistas Cristãos nos Estados Unidos ensinaram a instrumentalizar a noção de “liberdade religiosa” para garantir privilégios por meio do uso do Estado. Refiro-me ao ensaio escrito por Gary North, em 1982, The Intellectual Schizophrenia of the New Christian Right (A esquizofrenia intelectual da nova direita cristã).

Neste ensaio, North argumenta que, enquanto operam sob o regime de liberdade religiosa, essas instituições cristãs devem formar gerações que compreendam certas doutrinas fundamentais: que não há neutralidade religiosa, nem leis neutras, nem educação neutra, nem governo civil neutro. Ou seja, que tudo (leis, escolas, governo) deve ser conduzido por meio de uma base religiosa cristã. Em outras palavras, usar a liberdade religiosa para “ganhar terreno”, consolidar instituições cristãs, incutir valores religiosos, até que uma ordem normativa bíblica possa ser promulgada. North propõe que, uma vez alcançado esse poder cultural e político, a liberdade religiosa daqueles que são considerados “inimigos de Deus” deverá ser negada.

Em outros termos, utilizam a “liberdade religiosa” garantida por meio do Estado laico como blindagem, enquanto destroem os princípios que sustentam esta liberdade para fazer avançar o projeto de um Estado fundamentalista cristão. Transformaram em ideologia política a sua leitura fundamentalista da tradição cristã (ignorando a pluralidade e a diversidade existente nesta tradição) para fazerem as suas pautas se tornarem exitosas na sociedade, aproveitando-se das fragilidades das instituições democráticas. 


Alexandre de Jesus dos Prazeres é doutor em Sociologia (UFS), mestre em Ciências da Religião (UNICAP) e bacharel em Teologia (UNICAP). Docente no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião – PPGCR/UFS.

REFERÊNCIAS

BURITY, Joanildo. Minoritização, religião pública e populismo religioso no Brasil. REVER: Revista de Estudos da Religião, São Paulo, v. 24, n. 1, pp. 11-27, 2024. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/65301/45458.

EVANGELISTA, Ana Carolina. Bancada cristã: uma articulação conservadora na Câmara dos Deputados que dobra a aposta. Religião e Poder. 23 out. 2025. Disponível em: https://religiaoepoder.org.br/artigo/bancada-crista-uma-articulacao-conservadora-na-camara-dos-deputados-que-dobra-a-aposta.

HUNTER, James Davidson. Culture wars: the struggle to define America. New York: Basic Books, 1992.

MIRANDA, Tiago. Deputados aprovam urgência para projeto que cria a bancada cristã na Câmara. Agência Câmara de Notícias. 22 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1214915-deputados-aprovam-urgencia-para-projeto-que-cria-a-bancada-crista-da-camara.

NORTH, Gary. The intelectual schizophrenia of the New Christian Right. In: Jordan, J. B. (ed.). The Failure of the American Baptist Culture. Tyler: Geneva Divinity School, 1982.

SMITH, Amy Erica. Religião e a democracia brasileira: dos bancos das igrejas para as urnas. Petrópolis: Vozes, 2023.

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