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Aracaju também é negra. Caminhada resgatou lugares, texturas, cheiros, memórias do povo preto que construiu e constrói a cidade

ANDRÉ TEIXEIRA, da Mangue Jornalismo

Ao falar de turismo na capital sergipana o ideal imaginário de muitos logo se restringe à beira do rio ou à beira do mar. Orla da Atalaia, Orla do Pôr do Sol, Rio Vaza-Barris, Rio Sergipe, as tototós e a travessia para a Barra dos Coqueiros. Alguns personagens fazem parte deste combo, como Zé Peixe, Maria Feliciana, J. Inácio, Jenner Augusto, Fausto Cardoso e General Valadão. No entanto, no dia 13 de maio, data marcada pela assinatura da Lei Áurea, a plataforma de afroturismo Guia Negro promoveu o projeto “Caminhada Preta: 13 de Maio e os dias depois”, em 22 cidades brasileiras, para ressignificar o “Dia da Abolição da Escravatura” contando com uma experiência turística de protagonismo preto.

Em Aracaju o tour foi realizado pelo historiador Osvaldo Neto, acompanhado da guia de turismo, Jaqueline Rito. A caminhada começou onde o vento não nega que é uma cidade litorânea, mas não era tão perto do mar, e sim na antiga Caixa d’Água do Bairro Cirurgia, no Centro de Criatividade, até porque no passado as pretas e pretos precisavam adentrar o território para encontrar identidade. 

A caminhada resgata a memória negra de personalidades que construíram e constroem a cidade, e locais que edificam a vivacidade da capital. Para o historiador, Osvaldo Neto, a caminhada só foi possível por causa da memória e história de lugares como Maloca, Geruzinho, Abassá São Jorge, Bairro Santo Antônio, Bairro América, Beco dos Cocos, Cemitério São Benedito, Boate Miramar e Miraflores, Igreja São Salvador, Mercados Centrais e Rua da Frente. De personagens como Beatriz do Nascimento, Madonna, Maria Rita Soares, Mãe Marizete, Jaira Raimunda da Silva Santos, Maria José da Silva, Mestre Saci, Betinho da Caixa D’água, Pedro Hilário. E de movimentos como os blocos afros, escolas de samba, Descidão dos Quilombolas, Irmandade de São Benedito, Sindicato dos Arrumadores e Sindicato dos Ferroviários. 

Parte de Aracaju também é preta, afinal essa cidade tem história afro, assim como todas as outras Brasil afora. Primeira juíza negra do Brasil, ferroviário presidente do Partido Comunista, vítima da ditadura que combateu o fascismo nos anos 30, Mãe de Santo Candomblecista mais antiga e viva de Aracaju e por aí vai… 

Nas andanças pela capital também foi possível ver texturas e sentir cheiros, a cultura da culinária foi indispensável para a experiência educativa e ancestral. O aprendizado também aconteceu sabendo mais sobre o coco, amendoim, camarão, palmeira do dendê, inhame e o transporte transatlântico em navios oriundos da Zâmbia, Nigéria, Somália e outros países africanos.

Qual a parte que aprendemos na escola?

Nenhuma. A experiência turística é um convite a reviver uma cidade por um ângulo que não é ensinado, dito e explorado. Por isso a caminhada apresenta nomes e locais que subvertem a lógica de turismo local que os sergipanos e os de fora estão acostumados. A percepção é uma viagem no tempo e uma possibilidade para se alimentar do passado. Assim reconstruí-lo por uma história decolonial, como um processo de retomada.

A segregação que acontecia nos horários das missas no século XIX e até mesmo no cemitério – quando todos os corpos já estão sob um caixão de madeira e ninguém sabe a cor de ninguém, porque muitas lápides só têm palavras-, hoje acontece de outras formas, geograficamente e socioeconomicamente. 

“A nova população preta dança arrocha ao som de Unha Pintada, mas ainda moram no mesmo bairro”, reflete o historiador Osvaldo. Os dias depois são luta diária, reconhecimento, resgate, aquilombamento e aprendizados das tradições seculares com as memórias vivas.

E como canta a artista sergipana Anne Carol, na faixa Negra Soul, do álbum Semblantes:

Negra soul

Eu não quero nem saber

Da página oficial

Pois eu quero conhecer

Minha raiz ancestral

Soul de corpo e alma.

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