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“Aracaju pode ter uma mulher trans prefeita? Pode”. A deputada Linda Brasil fala de ameaças de morte e faz um balanço do governo e da sua mandata

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo

Nascida no pequeno município sergipano de Santa Rosa de Lima, em abril de 1973, a menina Linda tomou forma de vida plena como é já com 30 anos de idade. Fincou o pé em Aracaju para fazer história e promete mais. Graduada em Letras Português-Francês pela Universidade Federal de Sergipe, ela é educadora, mestra em Educação e uma ativista destacada nacionalmente pelas causas LGBTQIA+. Nas eleições municipais de 2020, foi a vereadora mais votada por Aracaju, tornando-se a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal. Também pelo PSOL, no ano passado, obteve 28.704 votos, novamente fazendo história: a primeira mulher trans com mandata na Assembleia Legislativa de Sergipe.

Ao completar seis meses de atuação no legislativo estadual, a Mangue Jornalismo entrevistou Linda Brasil Azevedo Santos. Entre os assuntos estão a ameaça de morte que ela sofreu, através de e-mail. Não foi a primeira vez que Linda é ameaçada, mas desta vez o criminoso ou grupo de criminosos avançou, trouxe detalhes e deixou rastros. A Mangue Jornalismo teve acesso à íntegra do e-mail, mas não divulgará porque o jornalismo que realizamos jamais será palco para propagação e exposição da cultura do ódio. Na entrevista, Linda trata desse assunto, faz uma avaliação do Governo Fábio Mitidieri e também dos seis primeiros meses de sua mandata. Ela enfrenta com naturalidade uma possível pré-candidatura para a Prefeitura de Aracaju.

Segue a entrevista.

Mangue Jornalismo (MJ) – Mais uma vez a senhora recebe ameaças de morte. Como lidar com isso permanentemente?

Linda Brasil (LB) – É isso. Antes era mais ataque a minha condição de mulher trans, de identidade de gênero, mas era de forma mais indireta. Mas ameaça direta, essa foi a primeira, através de e-mail, com detalhes. Agora temos uma ameaça de modo tão perverso, cruel, criminoso, direto mesmo. No dia que recebemos, não divulgamos porque uma das intenções dele é propagar esse discurso de ódio transfóbico. É tanto que, como ele viu que a gente não divulgou, então começou a enviar para outros e-mails, da Escola do Legislativo e de deputadas, por exemplo.

MJ – E quando chegou esse e-mail com essa ameaça?

LB – Exatamente às 14h07 do dia 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTQIA+. Claro que isso foi de propósito, porque é um dia muito simbólico, importante para mim, para a causa. Aí, quando chegou à noite, como ele viu que a gente não tinha divulgado, que a gente só deixou para divulgar no outro dia, até para não estragar a nossa comemoração, ele mandou para outro e-mail para o contato institucional, e de outras parlamentares, de outras pessoas, para que o conteúdo fosse vazado, que é um dos objetivos de quem age assim, porque sabe que, infelizmente, uma parte da população acaba compactuando com esse discurso de ódio que está aí recheado em todo o e-mail, me chamando demônio, por exemplo.

MJ – Quando a senhora foi vereadora de Aracaju também ocorreu algo semelhante, não foi?

LB – Sim. Chamou atenção a mesma palavra da época, demônio. Na época, recebi um áudio de um pastor, Jean Moura, que inclusive está foragido, porque a gente acionou a polícia. Ele usava esse mesmo termo, de demônio e tal. Abrimos um boletim de ocorrência e ele acabou fugindo. Como ele não foi encontrado, o processo está suspenso. Já falei com o delegado-geral para reativar esse processo.

MJ – Outras parlamentares trans, mulheres e negras também sofrem ameaças desse tipo…

LB – É. Essa ameaça por e-mail agora é parte desse conjunto, isto é, uma violência política de gênero. São ameaças contra mulheres, na maioria mulheres negras, trans, defensoras dos direitos humanos, de esquerda.

MJ – A questão é que não fica apenas em ameaças. Tem o caso de Marielle Franco, não é?

LB – Não tem como não lembrar do assassinato de Marielle, que foi uma tentativa de intimidar, de silenciar mandatas, atuações políticas de mulheres como Marielle. Eu até me coloco publicamente que eu sou uma semente de Marielle, porque eles tentaram, com o assassinato dela nos silenciar, mas não conseguiram. Além disso, nessa ameaça contra mim agora, existe no texto do e-mail alguma referência do Rio de Janeiro, ao Engenho Novo… traz algumas referências e não tem como a gente não associar algo direto a um grupo que usa as redes sociais, um grupo criminoso e que, talvez possa ter alguma ligação com os mandantes do assassinato de Marielle. Hoje, a gente sabe quem foi, já foi descoberto, mas os mandantes ainda não, ou o mandante ainda não.

MJ – A que você atribui essa ameaça?

LB – Além da ameaça de morte que está presente em vários pontos do e-mail, tem a questão da exigência da renúncia da minha mandata parlamentar. Isso é uma afronta ao Estado Democrático de Direito. Eles estão indo de encontro ao resultado de uma eleição que fez com que a população sergipana me colocasse, primeiramente, sendo a primeira mulher trans a ocupar um cargo na Câmara Municipal de Aracaju. E isso acabou tendo uma repercussão muito grande, já em 2020, com grande visibilidade… e desde ali já comecei a receber esses ataques, essas ameaças, mas as ameaças físicas são mais sutis, mais veladas. E no ano passado eu fui novamente eleita a mais bem votada aqui em Aracaju. Isso é muito simbólico. Isso, de uma certa forma, acaba provocando nessas pessoas que são contrárias a essa ocupação de mulheres combativas, aguerridas, corajosas a esses espaços do poder.

MJ – A senhora considera que essa ameaça de é uma pessoa, um ato isolado, ou uma ação de grupo organizado?

LB – Tenho dúvida, mas suspeito que seja a ação de um grupo, de uma rede de pessoas que foram um gabinete mesmo de ódio. Acho muito simbólico que quando estava sendo exibida a matéria sobre essa ameaça a mim na TV Sergipe, ela foi interrompida para anunciar a inelegibilidade do ex-presidente. Não consigo desassociar ao que foi o governo anterior e o assassinato de Marielle Franco. Há uma suspeita de que há uma ligação muito grande desses agrupamentos que envolve discurso de ódio, fake news, na eleição de Bolsonaro, bem como no assassinato de Marielle, bem como nesses ataques a parlamentares mulheres, não apenas ataques físicos. Por exemplo, neste momento, sete mulheres parlamentares estão sofrendo na Câmara de Deputados, com ameaça de cassação.

MJ – Passemos para outro tema. O Governo Mitidieri completou seis meses. Qual sua avaliação do governo estadual?

LB – Eu faço posição, faço várias críticas, principalmente ao programa desenvolvimentista do governo, que usa o discurso de desenvolver para querer retirar direitos ou então entregar a administração pública para o setor privado. O governo aprovou aqui o PPE (Programa de Parcerias de Estratégicas) que entrega quase todos os serviços públicos, que tem a intenção, na verdade, de entregar os serviços públicos à iniciativa privada. Isso é muito grave. Esse projeto que usa o argumento que vai atrair investidores, que vai desenvolver o Estado, desrespeita a questão do meio ambiente, de legislações, principalmente em relação às comunidades tradicionais. Há um ataque direto sobre isso.

MJ – Parece ser uma gestão fortemente privatista e sem valorização dos servidores, não é?

LB – Sim, principalmente duas áreas importantes e são caras para a nossa mandata que é a questão da saúde pública. Há um projeto de tentar sucatear, não só a questão que recentemente do IPES, de aumentar a alíquota, mas também de dar 2,5% aos professores, mas sem ter um diálogo. Nem pagar o piso da forma correta, eles dizem que pagam o piso, mas não pagam na carreira, e ainda aumentam o desconto para o IPES. Podemos ver um projeto de tentar sucatear os professores, o magistério, e nisso levar à educação pública para que ela possa ser colocada à disposição ao setor privado. A mesma coisa acontece com a saúde, né? A não realização de concurso público. Agora se faz uns PSS, alguns que são fake. Agora querem entregar para as OSs e que não deu certo em outros estados. Tem ainda a questão do fechamento da fundação hospitalar sem dar uma garantia que esses profissionais serão mesmo remanejados. Por exemplo, no caso do IPES muitas pessoas vão sair e vão migrar para os planos de saúde privados. Então, são várias questões problemáticas que envolvem o governo. Sim, quando você não valoriza os servidores públicos, você acaba dando margem para que se critique o serviço público de forma geral. Conversando com alguns parlamentares aqui a lógica é essa: entregar tudo para iniciativa privada.

MJ – E qual sua avaliação dos seis primeiros meses de sua mandata, a primeira mandata de uma mulher trans em Sergipe na Assembleia?

LB – A avaliação da nossa atuação política é bem positiva, principalmente pelo respaldo que a gente recebe da população. A gente fazer uma mandata que seja autônoma, independente, que seja combativa, principalmente no que diz respeito à violação dos direitos humanos, à negação dos direitos da classe trabalhadora, que tem uma perspectiva diferencial dos mandatos anteriores hegemônicos e também, por ser a primeira mandata que vem, que foi eleita pelo PSOL, tanto na Câmara de Vereadores de Aracaju, tanto aqui na Alese, por ser a primeira também trans, a primeira parlamentar do PSOL. Ou seja, nós criamos um modelo de atuação política a partir de exemplos de outras mandatas Brasil afora. Nós dividimos a nossa mandata em eixos de atuação, que a gente chama grupos de trabalhos para nos dar suporte na minha atuação política.

MJ – Que grupos de trabalho são esses?

LB – A gente tem quatro grupos ligados aos movimentos sociais. Um GT de direitos humanos e que envolve todas as causas ligadas às mulheres, população negra, LGTB, pessoas com deficiência, a saúde também. Temos o GT de educação, porque sou mestra em educação e acredito que a partir de uma educação que seja transformadora, libertadora, é que a gente vai conseguir avançar na garantia de direitos. Temos um GT de cultura e juventude para trabalhar as questões culturais do nosso estado e fortalecimento da juventude, da nossa população. E também temos um GT socioambiental, que trata das questões socioambientais do nosso estado e também das comunidades tradicionais. Esses GTs fazem a ponte direta com a sociedade civil organizada, através de sindicatos, de ONGs, organizações, movimentos sociais, coletivos em geral. Ainda temos quatro GTs que são para me dar suporte mais direto à minha atuação. Tem o GT legislativo, que ajuda no dia a dia aqui das sessões, das tramitações, das nossas proposituras, das nossas ações. Temos o setor jurídico, para pensar uma atuação mais técnica e jurídica dos nossos processos, de como a gente projeta, de como a gente está pensando e desenvolvendo, além de dar suporte aos outros GTs. E temos um GT de comunicação, que é uma comunicação que não é só para divulgar a minha atuação como parlamentar, mas de uma comunicação que leve para a sociedade informações sobre alguns direitos que elas têm, e que muitas vezes não sabem. É uma comunicação que está muito ligada à educação, que possa desconstruir a visão que a população tem sobre as atribuições da parlamentar, que não é do assistencialismo individual. E o outro GT é o administrativo que nos dá suporte nas questões burocráticas.

MJ – E sobre a denúncia de assédio que envolve uma colaborada direta da sua mandata, a Brunna Nunes, como está? Como foi resolvido?

LB – Sim, é um processo de aprendizado de nossa mandata. Nesse caso, a gente encaminhou para os órgãos competentes, o próprio partido, porque isso envolve uma militante do partido. Espero também que ela esteja bem, porque é uma questão desgastante para todo mundo, mas nesse sentido a gente encaminhou para que o partido resolva, porque já que envolve também outra militante do partido.

MJ – Na mandata, hoje, na Assembleia, qual seu maior desafio?

LB – Para mim, meu maior desafio desde lá, da Câmara de Vereadores até agora é desconstruir essa visão assistencial que as pessoas têm dos parlamentares. Minha função é propor, fiscalizar, cobrar. A minha atuação política não é uma troca de favores. Eu tenho de trabalhar para que garanta acesso, seja à saúde, educação, emprego, moradia, para todas as pessoas. Consequentemente, aquelas pessoas que votaram em mim serão beneficiadas. Então, para mim, o meu maior desafio foi desconstruir essa visão. Muita gente já compreendeu isso, principalmente quando a gente explica.

MJ – A senhora organizou sua mandata com vários grupos de trabalho, faz um atuação ampla, isso é um indicativo que vai colocar seu nome dentro do partido para ser candidata a prefeita de Aracaju?

LB – (Sorrisos) A divisão e organização da mandata nunca foi pensada para isso. É claro, quando a gente vê que algo está dando certo, a gente quer que essas coisas avancem e consigam a melhoria para as pessoas. Meu intuito é melhorar a vida da população. O objetivo é esse. Se esse projeto se estender ao município de Aracaju vai ser maravilhoso, não por mim, mas por saber da importância da gente ter uma pessoa que esteja comprometida, principalmente, com as questões sociais, no combate às desigualdades, às injustiças sociais. Isso é a base motora de minha atuação política.

MJ – E a Prefeitura de Aracaju?

LB – Então, eu nunca pensei nisso, mas diante de toda essa repercussão de nossa atuação, diante de ter sido duas vezes consecutivas a parlamentar mais bem votada da capital, concorrendo com toda a máquina eleitoral, isso mostra que a população está confiando, acreditando e querendo. Logo no início quando começou a cogitar essa possibilidade, principalmente logo após o resultado das eleições do ano passado, as pessoas da população já falavam ‘minha futura prefeita’, reivindicando isso. Agora eu não quero tocar nesse assunto por causa dessa questão toda que está envolvendo a ameaça de morte, mas já disse em outra oportunidade de que eu me colocaria ao meu partido para ser pré-candidata… Aracaju pode ter uma mulher trans prefeita? Pode. Agora vai depender muito do diretório do meu partido, tanto estadual, principalmente do municipal. Resta saber se eles vão me escolher, se o partido terá candidatura própria para a majoritária ou se vai apoiar ou fazer coligação com outro partido. Eu não sei ainda, a gente não discutiu ainda internamente, mas pela receptividade e pelo reconhecimento e pela reivindicação que eu estou tendo da população, eu acredito que a gente poderia avançar.

MJ – Aracaju parecia uma cidade democrática, progressista, mas a gestão municipal tem se revelado o contrário, não é? Como foi a relação da senhora com o atual prefeito?LB – Para mim, a falta de um diálogo, de um gestor público, eu acho que é a coisa mais problemática que existe. Tudo bem, você pode até ter diálogo e não fazer. Contudo, você não ouvir, não contrapor as argumentações, eu acho que isso é antirrepublicano, é antidemocrático. São atitudes até um pouco autoritárias da parte de Edvaldo Nogueira. Em dois anos como vereadora, tentamos uma reunião e não conseguimos nenhuma conversa direta com ele. Quando se encaminhava para um secretário, sempre as respostas eram muito evasivas, não tinha nada concreto para responder às nossas reivindicações, as nossas demandas.

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