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Aracaju não está preparada para receber turistas com deficiência. Conheça Cristina Santos e seu trabalho por um turismo com acessibilidade

TATIANE MACENA, da Mangue Jornalismo

PRISCILA VIANA, supervisão

Não é de hoje que a Prefeitura de Aracaju e o Governo de Sergipe se articulam com empresários do setor turístico para “vender” a capital sergipana como um destino de lazer. Recentemente, foi anunciado um “roadshow”, cuja proposta é percorrer outras cidades do país intensificando campanhas publicitárias, “vendendo Aracaju”, fazendo “blitz” em agências de viagem e distribuindo materiais promocionais. E como andam as estruturas locais para receber os turistas? Sergipe e Aracaju têm acessibilidade para visitantes?

Que Aracaju é uma cidade pequena, plana e oferece algumas opções de lazer e tranquilidade, ninguém discorda. Porém, como dizem os mais antigos, antes de receber visitas é preciso enxergar e organizar a casa que tem. E transformar uma cidade em lugar turístico prescinde de fortes ações de infraestrutura, principalmente adequadas às demandas atuais. Fazer turismo exige a promoção de um amplo processo de escuta, de participação social e de articulação com segmentos sociais e profissionais da área que realmente conhecem as fragilidades e obstáculos para o direito à cidade, como por exemplo a falta de acessibilidade às pessoas com deficiência. Pessoas com deficiência, ou os PCDs, também são turistas.

Para compreender melhor os desafios e as possibilidades de promoção da acessibilidade para o turismo, a Mangue Jornalismo conversou com a turismóloga e consultora em acessibilidade Cristina Santos da Silva. Ela tem 38 anos, nasceu em Aracaju e residiu, do nascimento até sete anos de idade, no bairro 18 do Forte, quando se mudou para a zona Sul da capital sergipana. Morou com sua mãe no bairro Santa Maria, onde reside até hoje.

Filha número quatro de seis da dona Marilene e do José Antônio, Cristina foi diagnosticada com poliomielite (paralisia infantil) aos seis de meses. Ela chegou a fazer fisioterapia, no entanto teve que interromper o tratamento pois não havia quem a acompanhasse enquanto sua mãe trabalhava. A consequência disso foi a atrofia de suas pernas e a esperança de andar tornou-se ilusória.

 “Minha mãe chegou a colocar as botinhas em mim e cheguei a dar alguns passos, mas eu sentia muitas dores nas pernas, por isso a gente desistiu. Com isso, eu não pude mais sustentar o meu corpo”, lembra Cristina. Começava ali, uma árdua trajetória cheia de preconceitos e desafios. Em casa, era ferida com apelidos maldosos vindo de seus Irmãos. Na adolescência, ficava com vergonha em momentos de paquera. No ônibus, sentia-se constrangida quando precisava se locomover, afinal o transporte público não era nada acessível. Na maioria das vezes, ela era colocada nos braços dos cobradores.

Cristina chegou a cursar História na Universidade Tiradentes (Unit) por um período, mas se formou mesmo na graduação de Gestão em Turismo pelo Instituto Federal de Sergipe (IFS). Hoje, ela tem uma agência no Instagram (@acessturcom), onde busca auxiliar turistas PCDs com informações e destinos receptivos em Aracaju.

Confira a entrevista realizada pela Mangue Jornalismo com a turismóloga e consultora em acessibilidade Cristina Santos da Silva sobre a importância da acessibilidade na promoção do turismo.

Mangue Jornalismo (MJ) – O que significa na prática o turismo acessível e como você pôde se aprofundar sobre o tema?

Cristina Santos da Silva (CSS) – Foi enquanto eu cursava Gestão em Turismo. Eu pensava: como eu posso fazer Gestão em Turismo sendo PCD-física? Para que? Ir à praia para ficar na areia? Então eu entendi que turismo não é só praia. A área de turismo vai além disso tudo. Eu tinha o sonho de ver as pessoas com deficiência viajando com qualidade e tendo seu direito de ir e vir assegurado. Sempre tive a viagem como um hobbie, mas hoje a viagem é muito mais que isso. O meu olhar não é o mesmo. Sempre que chego em algum lugar, eu o analiso.

MJ – Como você direciona o seu olhar para a questão da acessibilidade na cidade?

CSS – Eu vejo se o transporte é adaptado, se tem uma rampa garantindo o acesso de um lugar para o outro, e uma cadeira no banheiro do hotel disponível para que uma pessoa com deficiência possa tomar o seu banho com tranquilidade. Quando não tem isso tudo, a gente é impedida de desfrutar completamente dos nossos sonhos. Se um dia eu chegar a ver todos os pontos turísticos acessíveis, vou me sentir ainda mais completa em minha profissão, afinal, será um sonho realizado.

MJ – De que maneira a falta de acessibilidade causa transtornos em uma cidade que se pretende turística?

CSS – Eu cito como exemplo a questão do transporte coletivo. Antigamente eu subia me arrastando nos ônibus e fazia isso porque precisava me graduar e correr atrás dos meus sonhos, mas me sentia muito constrangida. Graças a Deus, hoje as pessoas não sobem mais se arrastando, pois há plataformas em ônibus. E isso é fruto da luta de alguém. Porém, apesar das conquistas, ainda há muito a se avançar, como por exemplo, na questão de treinamento para motoristas e cobradores que muitas vezes não têm paciência ou não sabem como utilizar corretamente plataformas. Por isso, eu vivo hoje lutando pela causa das pessoas com deficiência, pois eu dando a cara a tapa no presente, as gerações futuras não vão precisar passar pelo que passei.

MJ – Você considera Aracaju uma cidade preparada para receber PCDs?

CSS – Não. Aracaju ainda está no processo de desenvolvimento para que possa receber esses turistas.

MJ – Quais as principais barreiras que um turista PCD pode enfrentar na capital? E em outros pontos turísticos do Estado?

CSS – O transporte, a hospedagem e os equipamentos de lazer, que aqui não existem, e quando há, estão quebrados, sem funcionar. Têm os sites também, na questão de vídeos com legenda e audiodescrição, além de intérpretes de libras, para que PCDs auditivos e visuais tenham acesso ao conteúdo.Tem que organizar essas questões antes de promover essa cidade para as pessoas com deficiência.

MJ – Você esteve recentemente no Rio de Janeiro. O que você pode observar em questões de acessibilidade que aqui não tem?

CSS – Pude observar que lá é pior que aqui, porque é uma cidade com muitos morros e as calçadas são bem mais altas do que as de Aracaju, mas em relação ao transporte lá é bem acessível. As pessoas que tive contato foram mais humanas que as daqui. No transporte, elas não descem pelo meio como acontece aqui em Aracaju, o que dificulta ainda mais para o PCD. No Rio de Janeiro, as pessoas descem por trás e somente o PCD desce pelo meio. Também observei que lá eles têm uma política muito forte com as pessoas autistas, sobre preferência.

MJ – O setor de hotelaria de Aracaju está preparado para receber as pessoas com deficiência?

CSS – O setor de hotelaria não está preparado para nos receber de maneira alguma, seja na parte arquitetônica ou na parte de capacitação. O setor não está preparado.

MJ – E quanto aos funcionários dos pontos turísticos do Estado são capacitados?

CSS – Precisa de uma política muito forte de acessibilidade, o que não tem aqui na cidade de Aracaju. A capital não tem profissionais capacitados.

MJ – Você já sofreu capacitismo enquanto turista em Sergipe?

CSS – Já sofri capacitismo como turista e como turismóloga. Eu fui para um restaurante aqui em Aracaju com a minha irmã e o garçom perguntou para a minha irmã o que eu queria comer e nem olhou para mim para direcionar o meu pedido. E isso acontece muito nos bares e restaurantes daqui.

MJ – Você pode citar algum lugar que não tenha acessibilidade nenhuma no Estado?

CSS – Tem tanto lugar sem acessibilidade aqui, mas eu citaria os parques e os locais que vão acontecer os shows agora em junho. Nas edições anteriores do Forró Caju, por exemplo, não houve camarote de acessibilidade e banheiro para PCDs. Sobre os parques, quando falo de barreiras, cito as arquitetônicas e urbanísticas, que podem ser observadas em lixeiras não acessíveis, falta de piso tátil e brinquedos adaptados, rampa acessível sem barras. Além de não existir banheiro adaptado e, quando existe, não tem acessibilidade. O único que está melhor é o do parque da sementeira, porque teve a reforma e foi adaptado.

MJ – O que as gestões municipal e estadual podem fazer para melhorar o turismo para as pessoas com deficiência?

CSS – Primeiro, contratar arquitetos para trabalhar na parte arquitetônica e depois investir em educação na área do turismo, para que os futuros turismólogos tenham um olhar mais inclusivo em suas disciplinas. Eu sugiro a inserção de uma disciplina de turismo e acessibilidade, que as instituições não têm, além da contratação de um consultor em acessibilidade, para que ele possa visitar e capacitar esses profissionais, seja em restaurantes, bares, hotelarias, transportes e em outros locais.

MJ – Que caminhos você aponta para a promoção e melhoria da acessibilidade?

CSS – No meu perfil no Instagram (@acessturcom), eu busco auxiliar turistas PCDs com informações e destinos receptivos em Aracaju. Para criar o perfil, eu me inspirei na minha própria monografia, onde abordei a acessibilidade e turismo em Aracaju. Depois de feita a monografia, meu professor Lício me indicou para o curso de Aperfeiçoamento Gerencial de Empresários e Gestores do Turismo, ofertado pelo Sebrae. Consequentemente, a monografia virou uma agência, que faz viagens para pessoas com deficiência.

MJ – Como funciona essa agência?

CSS – No meu projeto, eu fiz um mapeamento de alguns pontos turísticos da capital e apontei aquilo que ainda não é acessível, mas têm condições de se tornar. Eu levo o sonho para PCDs. Eu gostaria que todos os lugares da nossa capital fossem acessíveis. O meu sonho é esse projeto sair do papel e virar realidade. Sei que é um custo muito alto, mas é o meu sonho.

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