
No país que mais mata pessoas trans no mundo, resistir é, muitas vezes, um ato radical de amor. E é neste cenário que nasceu Apolo, um filme-documentário potente que acompanha a trajetória de Isis Broken e Lourenzo Gabriel, um casal transgênero que viveu, durante a pandemia da COVID-19, o impacto de uma gestação natural e todas as transformações que vieram com ela.
O filme não apenas documenta o desafio de existir, mas também a celebração da vida, da maternidade e da paternidade trans, em meio à violência e à invisibilidade. Recebido com entusiasmo no Festival do Rio de Janeiro, onde foi premiado nas categorias Melhor Longa-Metragem Documentário e Melhor Trilha Sonora Original, realizada pelo músico Plínio Profeta. Vale destacar que a obra nos convida a repensar o que entendemos por família, cuidado e resistência, além de celebrar o nascimento e o renascimento de um grande amor.
A Mangue Jornalismo conversou com exclusividade com Isis e Lourenzo, mãe e pai de Apolo, uma “linda criança luminosa”, como destacou a cantora na obra, e que apresentaram alguns aspectos do filme – sem spoilers – que terá o lançamento comercial agendado para 27 de novembro e em breve, Sergipe, terra natal de Isis, já está se preparando para recebê-lo.
Mangue Jornalismo (MJ) – O filme Apolo mostra momentos muito íntimos e potentes da vida de vocês. Como foi para o casal decidir transformar essa vivência tão pessoal em um documentário? O que motivou essa escolha?
Isis Broken (IB) – Tudo partiu de uma denúncia que fiz nas minhas redes sociais. Quando o pai de Apolo engravidou, enfrentamos muito preconceito. Isso nos privou de acesso aos cuidados básicos, como o pré-natal durante a gestação. Tivemos que sair de Sergipe, porque, em todos os lugares onde buscamos atendimento médico, enfrentamos transfobia. O apoio em nível nacional só veio depois da denúncia no meu Instagram, que gerou grande comoção. Foi então que viemos para São Paulo. A Tainá Müller viu o nosso desabafo, se sensibilizou com a nossa história e se ofereceu para nos ajudar. Ela propôs nos acompanhar nessa vinda para São Paulo e registrar tudo em um documentário e, claro, aceitamos. Foi uma honra dividir essa vivência com uma profissional tão incrível. Ela nos acompanhou com uma equipe de gravação e vai retratar toda essa nossa batalha, desde a gravidez até o nascimento de Apolo. Além de emocionante, o documentário é uma forma de informar e conscientizar.
MJ- A gestação em meio à pandemia e num cenário que já é tão hostil para pessoas trans, foi algo muito singular. Quais foram os maiores desafios e as maiores descobertas durante esse período?
IB – Todos os momentos tiveram suas particularidades e dificuldades porque estávamos expondo a nossa família, que vivia um preconceito muito grande, além de estar vivendo um período muito difícil para o Brasil, o que aumentou ainda mais nossa dificuldade de um atendimento. Apesar de tudo, sabíamos que não estávamos sozinhes, tínhamos amor, coragem e o apoio de muitas pessoas que acreditam na luta por respeito e dignidade. Isso me fortaleceu e me deu preparo emocional para continuar. Mostrar essa realidade era necessário. As pautas sobre famílias transcentradas, sobre maternidade e paternidade trans, precisam ser visibilizadas. É difícil, mas é também uma forma de resistência e de construção de um futuro mais justo.

MJ – A busca por um pré-natal respeitoso e inclusivo é um dos pontos centrais do filme. Como foi encontrar profissionais e espaços que acolhessem essa vivência com dignidade, visto que vocês passaram por muitas violências durante o processo?
IB – Essa transição de Sergipe para São Paulo foi muito significativa para nós. Fizemos questão de buscar atendimento pelo SUS justamente para reforçar a importância de um sistema de saúde público que atenda com dignidade os corpos trans. Quando chegamos em São Paulo, já com 8 meses de gestação, começamos a pesquisar e ligar para diversos postos de saúde até encontrarmos a UBS Santa Cecília, que é referência no atendimento a pessoas trans. Ali, finalmente, nos sentimos acolhidos e respeitados em nossa vivência.
MJ – Ser um casal trans no Brasil ainda é um ato de coragem. Como vocês enxergam o impacto que Apolo pode ter na maneira como a sociedade vê famílias trans?
Lourenzo Gabriel (LG) – O amor e o respeito são o mais importante. Que a sociedade possa enxergar o afeto que existe em nossas famílias e compreenda a importância de uma saúde pública acessível, acolhedora e livre de preconceitos. Pessoas trans merecem ser tratadas com dignidade, e cada indivíduo deve ter a liberdade de ser quem é! Nosso filhe Apolo nasceu em uma família trans, e existem muitas outras como a nossa, famílias que transbordam amor, união e resistência. Que a existência delu abra caminhos, inspire empatia e mostre que todas as formas de família merecem respeito, visibilidade e reconhecimento.
MJ – Ganhar o prêmio no Festival do Rio foi uma vitória simbólica e política. Como vocês receberam essa conquista e o que ela representa para vocês, para o filme e para outras pessoas trans que sonham em formar famílias?
IB – Foi a realização de um sonho, um marco importante e um momento histórico para nós. Poder contar a história da nossa família para o público é também levar um debate necessário e potente sobre a importância de reconhecer e respeitar as existências trans, especialmente no contexto da parentalidade. Apesar de todas as dificuldades e desafios, o que nos guiou do início ao fim foi o amor. Muita gente se emocionou ao saber que estreamos com duas premiações, e isso só confirma que estamos no caminho certo. Essa conquista não é só nossa, ela é de todas as pessoas trans que sonham em formar famílias, que resistem todos os dias e que merecem viver com dignidade.
LG – Seguimos na luta por respeito. Ser uma pessoa trans no Brasil ainda é enfrentar muitas barreiras porque tudo se torna mais difícil quando não se é cis. Mas, mesmo diante de tantos obstáculos, conseguimos oferecer ao nosso filhe Apolo o mais importante: amor.

MJ – Qual foi a reação das famílias de vocês ao assistir o filme e como Apolo reagiu à homenagem?
LG – Esse filme é para as pessoas, para as famílias. Além de ser um álbum afetivo para o Apolo, ele também tem um caráter educativo. Pessoas que carregam algum tipo de preconceito, mesmo que sutil, podem assistir e se sensibilizar. E foi o que aconteceu: muita gente se emocionou e se conscientizou ao ver nossa história.
IB – Um momento muito marcante foi quando Apolo assistiu ao seu próprio nascimento. Elu se emocionou, caiu em lágrimas, foi muito lindo. Ver que, mesmo com apenas 3 anos, elu já sente e percebe, de alguma forma, a importância da nossa trajetória, é algo muito especial. É profundamente gratificante saber que essa história está tocando e inspirando tantas pessoas.


