Acusado de fala racista e negacionista, líder do Renantique gera revolta, implode grupo e diz que falou no “lugar errado”

Renantique se apresentava pela segunda vez no Memorial de Sergipe (Crédito Arquivo Pessoal)


VALTER DAVI, da Mangue Jornalismo

Reportagem atualizada com a Nota de Retratação publicada por Emmanuel Vasconcellos na íntegra e ao final do texto às 13h40 desta segunda-feira, 29.

Antes de sair do Colégio Estadual Professor Acrísio Cruz, no Bairro Siqueira Campos, a turma de quase 40 alunos, entre 13 e 15 anos, foi orientada: “Se comportem. Tenham educação quando chegarem no local. Não arrastem as cadeiras, sentem-se adequadamente. Não fiquem conversando durante as apresentações, ouçam e respeitem as pessoas”. Assim fizeram, mesmo quando a pessoa que estava no palco do evento fazia exatamente tudo ao contrário.

Os alunos da rede pública foram convidados pelo Memorial de Sergipe Jouberto Uchôa, na Orla da Praia de Atalaia, para realizar uma visita no dia 25 de setembro, durante a 19ª Primavera dos Museus, evento que focou na relação entre museu e mudanças climáticas. Na programação do dia havia uma oficina de xilogravura, palestra sobre justiça socioambiental e, por fim, apresentação musical do grupo Renantique, criado em 1996 e que executa músicas da Idade Média e da Renascença.

O concerto do grupo tinha o nome de: “Música que (re)nasce da História – Concertos Didáticos Interativos”. É uma série de concertos de um projeto idealizado pelo próprio grupo e que consiste na realização de dez apresentações didáticas voltadas para escolas da rede pública de ensino até o fim de 2025.

Empolgados e contidos, os estudantes ouviam em silêncio as melodias que saíam dos instrumentos do Renantique. A música da era medieval tomava conta do espaço, até que as cordas silenciaram e um integrante do grupo começou a falar. Emmanuel Vasconcellos, fundador, músico e diretor artístico. Ele explicou as origens da música ‘Morena Me Llaman’, que conta a história de uma menina que é chamada de ‘morena’, mas nasceu branca, e com o passar do tempo, de tanto passear sendo exposta ao sol, escureceu.

Racismo estrutural, valorização do branco no Brasil e negacionismo

A explicação seguiu com posicionamentos pessoais de Emmanuel que teria dito: “não acreditem em tudo que os seus professores falam. Agora inventaram um tal de racismo estrutural no Brasil, eles deveriam ler Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre, e vocês também. Em vez de acreditarem no que se diz, deveriam procurar ler”.

Emmanuel teria complementado sua fala dizendo que os alunos deveriam aprender a valorizar a importância do branco na formação do Brasil. Quando ele terminou essas falas, o seu silêncio foi invadido pelo som da próxima música. Na plateia, a professora de História do Colégio Acrísio Cruz e pesquisadora da questão racial, Ana Carla, sentiu-se atordoada pelo o que tinha acabado de escutar.

A música seguinte parou, Emmanuel começou, mais uma vez, o ritual de explicar o contexto da música e apresentar os seus pensamentos. O músico contou que durante a pandemia do Covid-19 viajou para Portugal. Em terras europeias, Emmanuel disse ter se sentido mais liberto, pois não era obrigado a se vacinar, muito menos ficar preso em lockdown nem usar máscara, pois estava longe de um “governo autoritário”. Até hoje Emmanuel se orgulha de não ter tomado uma vacina sequer para um vírus que dizimou mais de 700 mil pessoas só no Brasil. Maria Tereza, uma senhora que estava presente e que não fazia parte da comitiva escolar, ficou profundamente incomodada com as falas de Emmanuel. Pediu para que ele respeitasse o ambiente pois tinha alunos presentes. Emmanuel teria debochado da senhora e da sua idade. Disse que depois do concerto eles iriam conversar. Mais tarde, Emmanuel a procurou e mostrou os seus pontos de vista. À Ana Carla e seus alunos, nada foi feito por ele.

No Memorial de Sergipe, o Renantique realizava um concerto que tinha o objetivo de ser didático para os alunos (Crédito Arquivo Pessoal).

Em entrevista para a Mangue Jornalismo, Emmanuel afirmou que não foi dessa forma que as professoras e Maria Tereza contaram. O músico disse que se incomodou pela senhora ter atrapalhado o seu concerto, além de ter se sentido provocado pela fala dela. “Tive um deslize na apresentação e no momento que ela me constrangeu publicamente, eu disse, ‘olha, a gente fala lá fora amigavelmente’, mas aí ela foi perguntando mais, a coisa foi piorando”, tentou explicar Emmanuel.

Revolta da professora, fala sexista e ação de deboche

“Em alguns momentos eu saí da sala, porque eu já não estava suportando tudo aquilo que estava sendo dito, mas ao mesmo tempo eu tinha consciência de que eu não podia ficar lá fora, porque eu precisava saber o que estava sendo dito para os meninos que estavam dentro. Minha vontade era pedir para que todos alunos se levantassem e a gente fosse embora. Só que os meninos também tinham expectativa de conhecer o museu, eles estavam empolgados para aquilo”, contou a professora Ana Carla.

As falas ofensivas ecoaram pelos ouvidos dos alunos. Ana Carla relembrou o momento em que sua aluna veio lhe contar sobre algo que ouviu da boca de Emmanuel na apresentação. “Uma estudante do oitavo ano estava me recordando, disse ‘professora, ele ainda falou da questão sexual’, e eu disse, ‘é verdade’. Em um dos primeiros momentos, quando ele estava falando de uma das canções, ele falou sobre transar, e aí os meninos já ficaram assim [agitados], ele disse: ‘ah, mas esse assunto as meninas gostam’”.

Em outro momento, Emmanuel criticou o que ele chamou de “as metodologias de Paulo Freire”. O músico perguntou aos alunos se eles conheciam os folguedos de Sergipe, que são as manifestações culturais, mas os alunos permaneceram em silêncio, pois se sentiam constrangidos pelas falas pesadas que Emmanuel já teria proferido. “Está vendo aí, esse é o resultado da educação baseada em Paulo Freire”. Em seguida, Emmanuel se dirigiu para um colega de banda formado em música pela Universidade Federal de Sergipe e afirmou que o músico não estudou Paulo Freire na graduação. O colega permaneceu calado e Emmanuel se voltou para o público.

Antes dele continuar o seu discurso com falas antipedagógicas, a professora de Artes do Colégio Acrísio Cruz, Zildenê Pires, levantou-se e pediu respeito por sua profissão e por seus alunos. Também de modo debochado, Emmanuel teria batido palmas em direção a professora Zildenê e riu. “Parece que nem os seus alunos gostaram da sua colocação”, disse o músico ao ver os estudantes em silêncio.

Apesar de todo o desconforto relatado em detalhes pelas professoras, escutado pelos alunos e alguns funcionários do museu, Emmanuel afirmou para Mangue Jornalismo que foi tudo um “mal entendido e que segue com a consciência tranquila”. Ele justificou que “o mundo tá assim, polarizado, dividido, e o que a gente fala hoje é retalhado, deturpado, é politizado, e esse pessoal se sente muito mal quando é ofendido, eu nem ofendi, eles se sentem ofendidos, infelizmente”, afirmou Emmanuel Vasconcellos.

Indignada, Ana Carla saiu da sala duas vezes, foi amparada pelos funcionários do Memorial de Sergipe com desculpas, mas o show não parou, seguiu até o fim.

Emmanuel Vasconcellos, diretor, fundador e músico do grupo Renantique (Crédito Arquivo Pessoal).

Quando a apresentação do grupo Renantique terminou, Emmanuel convidou o público a tirar fotos com os instrumentos, pois chamam a atenção por se assemelharem aos da época medieval. “Cada instrumento aqui é R$ 5,00 para tirar foto, mas para vocês vai ser de graça”, anunciou Emmanuel. Segundo a professora Ana Carla, o tom de voz do músico nesse ponto foi de deboche, visto que todos os alunos presentes são de escola pública e dessa forma Emmanuel supusesse que eles não teriam condições financeiras para pagar. Uma aluna disse para Ana Carla que Emmanuel “fez isso porque a gente é pobre”.

No entanto, Emmanuel afirmou que ele faz essa “brincadeira” no final de cada concerto, uma forma de descontração. “Eu faço isso há cinco anos, desde quando voltei de Portugal. Eu acho que esse pessoal está louco”, disse.

O espetáculo terminou. Emmanuel foi atrás da senhora que o questionou e Ana Carla levou os seus alunos para ver as exposições do museu. Durante o passeio, a professora tentou reverter todas as informações que os estudantes receberam durante aquela apresentação do grupo de música.

“Quem é professor da rede pública sabe o quanto é duro o chão da escola. O dia a dia. Motivar esses meninos, criar uma consciência crítica neles, mostrar o papel deles e a importância na sociedade, trabalhar a ideia de representatividade. E vem uma pessoa e desconstrói tudo que a gente luta o tempo todo no ensino, na educação”, falou a professora Ana Carla.

Integrantes do grupo repudiam falas, dizem que não foi a primeira vez e deixam o Renantique

Não demorou e esse episódio tomou conta das redes sociais no último final de semana, sendo objeto de revolta e notas públicas de repúdio. O perfil no Instagram do Renantique foi fechado. Músicos, professores, artistas, ativistas da cultura se posicionaram contra as falas de cunho racista e negacionista do líder do grupo.

Ainda no final de semana, quatro integrantes do grupo Renantique publicaram notas em seus perfis pessoais do Instagram repudiando as falas proferidas por Emmanuel Vasconcellos. Yasmyn Bonifácio, uma das musicistas presentes afirmou, em nota, que decidiu se desligar do grupo. Referindo-se a Emmanuel, Yasmyn diz que “considera suas falas ofensivas, desrespeitosas e totalmente contrárias aos valores que defendo.”

Também por nota, o musicista Alexandre Azevedo disse que não foi a primeira vez que os integrantes do grupo alertaram Emmanuel sobre as suas falas durante os concertos. “Por diversas vezes, o advertimos a se ater ao conteúdo musical, histórico e pedagógico em seus comentários nos concertos.”

Funcionários do Memorial de Sergipe Jouberto Uchôa que ouviram e viram os preconceitos serem reverberados em cima do palco pediram desculpas à professora Ana Carla antes mesmo do show terminar. Mas o concerto não foi interrompido. Pelo Instagram, o perfil do Memorial pediu desculpas, mais uma vez, à professora diretamente na sua caixa de mensagens.

Horas mais tarde, o Memorial publicou uma NOTA em que se limita em poucas linhas a manifestar-se sobre o ocorrido. “Durante a participação de um componente de um grupo musical, foram proferidas falas de caráter pessoal, que não refletem a posição ou os valores institucionais”, declarou o Memorial de Sergipe. Segundo a instituição, o grupo Renantique já havia realizado uma apresentação no local em 2024. A professora Ana Carla diz que se arrepende de não ter tomado uma decisão mais firme durante os ataques. “Eu deveria ter agido de uma forma diferente, mas na hora que acontece, é como se a gente ficasse anestesiado, parece que a ficha vai caindo aos poucos do que realmente aconteceu ali, da violência simbólica que os meninos sofreram ali”, explicou.

Sindicatos aguardam um posicionamento mais contundente do Memorial de Sergipe (Crédito Arquivo Pessoal).

“Tenho uma equipe reserva e bola pra frente”, disse o músico. Notas de Repúdio

Para a Mangue Jornalismo, Emmanuel Vasconcellos pontuou que se arrepende de ter esboçado os seus posicionamentos pessoais e políticos na apresentação. “Eu acho que não deveria ter falado exatamente naquele momento, no lugar errado de falar, na hora errada e talvez do jeito errado”.

Emmanuel disse que continuará com o grupo Renantique. Ainda complementou: “para mim, é praticamente um assassinato de reputação. Mas eu sigo com o trabalho, um integrante saiu, eu tenho uma equipe reserva e bola pra frente. Eu sigo o jogo. Eu vou procurar minhas defesas das calúnias e difamações.”

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe (Sintese) publicou NOTA pública sobre o caso, disse que “repudia veementemente a cena infeliz que alunos do Colégio Estadual Acrísio Cruz acabaram presenciando”. Para o sindicato, o concerto didático se transformou num “Concerto de Horrores” em razão de um discurso “negacionista, etarista e racista, afirmando que não há racismo no Brasil, negando a pandemia da Covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros, atacando professores e toda a obra de Paulo Freire e ainda debochando de idosos que estavam presentes àquele momento deplorável”.

Para o Sintese, o Memorial de Sergipe “deveria ter interrompido todo aquele discurso de ódio, que constrangeu os presentes e humilhou os estudantes, pronunciou-se dizendo apenas que as falas não refletem o pensamento das instituições. Mesmo com toda a revolta e reação do público presente, a direção do Memorial permitiu que o ‘Concerto de Horrores’ continuasse”. O sindicato informou que “está buscando providências cabíveis para que discursos como este não mais maculem nossa sociedade” e solicita o posicionamento público da Secretaria de Estado da Educação, do Ministério Público de Sergipe e a retratação pública do músico Emmanuel Vasconcellos.

O Sindicato dos Profissionais do Ensino do Município de Aracaju (Sindipema) também publicou uma NOTA repudiando o “discurso racista, negacionista e antieducativo no Memorial de Sergipe”. Segundo o sindicato, “o que deveria ser uma vivência cultural enriquecedora para estudantes, professoras e professores do Colégio Estadual Acrísio Cruz se converteu em um momento de profunda violência simbólica”. Para o Sindipema, as declarações públicas de Emmanuel Vasconcellos “são incompatíveis com qualquer proposta educativa e representam um ataque direto à dignidade dos estudantes, dos profissionais da educação e de todos os que lutam por uma sociedade mais justa, plural e democrática. É inadmissível que um projeto financiado com recursos públicos seja utilizado como plataforma para disseminar preconceitos, desinformação e discursos de ódio”.

Decisão editorial da Mangue Jornalismo

A Mangue Jornalismo sempre abriu espaço para divulgar na Agenda Mangue Cultural o cronograma de apresentações do grupo Renantique. Entretanto, diante do ocorrido e revelado nesta reportagem, o conselho editorial da Mangue avaliou que veicular divulgar o referido grupo na agenda cultural contraria fortemente a linha editorial fincada na defesa e promoção dos Direitos Humanos e o primeiro compromisso público da Mangue Jornalismo, que está no SITE: “Realizar um jornalismo profissional, de qualidade e independente, mas claramente em oposição a qualquer sistema opressor e promotor da cultura do ódio, da desinformação, da violência e da morte”. É completamente incompatível qualquer exercício da arte com expressões que indiquem racismo, negacionismo, sexismo, etarismo, etc. Dessa forma, salvo profunda mudança pública e devidamente compromissada com os Direitos Humanos, o grupo Renantique não mais constará na Agenda Mangue Cultural.

NOTA DE RETRATAÇÃO

Eu, Emmanuel Vasconcellos Serra, Diretor e membro fundador do grupo Renantique, venho a público fazer uma retratação sobre alguns comentários que fiz durante a apresentação do grupo, no Memorial de Sergipe, no dia 25 de setembro.

Entendo que minhas palavras podem ter soado ofensivas e degradantes a alguns ouvidos, em especial dos docentes e alunos que estavam presentes. E que se faça o registro: as falas foram e são minhas. Se alguém há de ser penalizado ou mesmo atacado, que seja eu. Dirijo-me agora a todos que leem esta nota para me retratar e pedir desculpas àqueles que se sentiram atingidos pelo que falei.

Nunca foi minha intenção ofender ou machucar alguém. Em quase 30 anos de existência do grupo, nunca me envolvi em polêmica alguma, tampouco atuei de forma desrespeitosa ou preconceituosa. Registro ainda que muitas das acusações feitas contra mim não correspondem inteiramente à verdade, e algumas me parecem motivadas mais por questões políticas ou ideológicas do que pelo lastro dos fatos.

À luz da verdade, muitas das minhas falas foram descontextualizadas e retiradas de um ambiente lúdico, passando a denotar uma imagem minha de indivíduo racista, fascista, etarista e negacionista. Esses adjetivos pejorativos estão sendo atribuídos a mim e ao grupo de forma injusta e leviana. Escrevo isso com o peso de quem sabe o significado dessas palavras e com a plena consciência de que não sou nada disso, tampouco o grupo ao qual orgulhosamente pertenço — uma instituição com carreira sólida, construída sobre respeito, solidariedade e, sobretudo, amor à arte.

Deixo aqui registrado, mais uma vez, meu lamento, meu pesar e meu pedido de desculpas a quem se sentiu ofendido. O grupo Renantique é muito maior que eu e deve continuar existindo por mais 30 anos, se assim for o desejo do público e daqueles que apreciam a arte que fazemos. Quanto às questões de cunho ideológico, deixarei que o tempo cuide de todas as coisas, pois, afinal, ele é o senhor da razão.

Agradeço profundamente aos amigos e anônimos que me prestaram solidariedade nesta fase difícil da minha carreira. Isso também há de passar.

Emmanuel Vasconcellos Serra
Diretor do Renantique

Reportagem atualizada com a Nota de Retratação publicada na íntegra às 13h40 desta segunda-feira, 29.

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Respostas de 2

  1. Muito boa essa matéria!!!
    Mas, os argumentos do músico, depois das ofensas, já sao bem manjadas!!! Quem me conhece…

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