A Mangue Jornalismo vai entrevistar todos os candidatos ao Governo de Sergipe. Para garantir a isenção, as perguntas apresentadas são iguais para quase todos eles. As respostas devem ter o mesmo tamanho.

Candidato ao Governo do Estado de Sergipe pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Dr. Helton, de 50 anos, é médico e servidor público do Município de Aracaju. Batizado de José Helton Silva Monteiro, ele já atuou no Centro de Especialidades Médicas de Aracaju (Cemar), é conselheiro estadual de saúde de Sergipe e membro do Conselho Municipal de Saúde, além de ser presidente do Sindicato dos Médicos em Sergipe (Sindimed), em que se tornou mais um passo em sua trajetória atuando em movimentos sociais e estudantis.
Quem concorre ao seu lado na mesma chapa a vice-governadora é Maria Izaltina, agricultora e líder quilombola. À Justiça Eleitoral, Dr. Helton declarou um total de R$ 47 mil em bens, referente a um automóvel. Já Maria Izaltina, informou não possuir bens.
O plano de governo do candidato apresenta 50 propostas “para tirar Sergipe da estagnação”. As propostas são divididas em 11 eixos, que pensam na construção de um futuro a longo prazo e que têm o objetivo de elevar o bem estar da sociedade por meio de ações práticas do Estado. Dentre as metas, estão a segurança financeira das famílias, a volta da estatização da Deso, a soberania digital, concursos públicos na educação, saúde, segurança e assistência social, redução da desigualdade social e um intenso investimento na saúde pública.
Segue a entrevista com o candidato:
Mangue Jornalismo (MJ) – Qual a avaliação geral da gestão do governador Fábio Mitidieri e que se encerra em dezembro deste ano?
Dr. Helton (DR) – A gestão de Fábio Mitidieri representa a continuidade de um modelo de governo que tem se afastado cada vez mais da responsabilidade de garantir direitos e serviços públicos de qualidade. É um governo privatista, que insiste na terceirização da saúde, enfraquece o serviço público e desvaloriza seus trabalhadores. Falta diálogo com as categorias e com as populações mais vulneráveis. É inadmissível ouvir do governador que comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas seriam obstáculos ao desenvolvimento econômico. Enquanto isso, ainda existem comunidades sergipanas dependendo de carro-pipa para ter acesso à água. Na segurança pública, as mortes decorrentes de ações policiais cresceram 33%, colocando Sergipe entre os estados com maior letalidade policial proporcional. Não considero esse um governo comprometido com a população. Sergipe precisa de uma mudança de rumo, com mais democracia, participação popular e políticas públicas voltadas para quem mais precisa.
MJ – O Governo Mitidieri formou o conselho de meio ambiente com maioria de secretários e empresários, há gravíssimos problemas nas licenças ambientais, Sergipe é o estado com menos árvores em vias públicas no Brasil e o estado já perdeu quase toda Mata Atlântica. Quais suas propostas para o meio ambiente na cidade?
DR – A primeira pergunta que precisamos fazer é: a quem interessa um conselho de meio ambiente dominado por representantes do governo e empresários? Sergipe tem apenas cerca de 13% do território coberto por florestas e precisa enfrentar esse processo de degradação. Vamos fortalecer a fiscalização e as unidades de conservação, criar parques ecológicos regionais e reservas extrativistas para proteger catadoras de mangaba, pescadores, marisqueiras e comunidades quilombolas. Também vamos combater a carcinicultura predatória e crimes ambientais. Queremos ampliar a coleta seletiva, apoiar cooperativas de catadores e erradicar os lixões. Vamos incentivar energia solar em prédios públicos, pequenas empresas e famílias de baixa renda, além de promover a agroecologia, a educação ambiental e políticas de proteção às comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Desenvolvimento não pode significar destruição ambiental.
MJ – Em dez anos, Sergipe só cumpriu duas de 20 metas de educação. Professores da rede estadual afirmam que o Governo Mitidieri massacra categoria. Sergipe, dez anos depois do último levantamento, permanece como o sexto estado com o maior número de analfabetos do país. Quais suas propostas para a educação no estado?
DR – É lamentável que a educação não tenha sido prioridade nos últimos governos, inclusive na gestão de Fábio Mitidieri. Nosso governo vai implementar uma educação pública democrática, inclusiva e socialmente referenciada. Vamos valorizar os profissionais, retomar a carreira do magistério, garantir o piso salarial e devolver às professoras e professores aposentados os valores confiscados indevidamente. Também vamos realizar concurso público e convocar os aprovados, inclusive do cadastro de reserva. Queremos garantir alfabetização na idade certa, ampliar escolas de tempo integral com qualidade e fortalecer a educação inclusiva, com profissionais de apoio, intérpretes de Libras e estrutura adequada para estudantes neurodivergentes. Vamos criar a Universidade Estadual de Sergipe, ampliar cursinhos populares e garantir acesso ao ensino superior. Educação do campo (contemplando quilombolas e indígenas) também terá atenção específica, respeitando a cultura e o território de cada comunidade.
MJ – Existe uma reclamação generalizada das pessoas que precisam do serviço de saúde na rede estadual: hospitais regionais não funcionam como deveriam, faltam remédios básicos, não se consegue fazer exames simples e muito menos há atendimento de especialistas, faltam leitos para internação. Quais suas propostas para saúde em Sergipe?
DR – A saúde pública de Sergipe foi submetida a um modelo de terceirização que transfere grandes volumes de recursos públicos para organizações privadas sem transparência, controle social e avaliação adequada. No nosso governo, a saúde será tratada como direito, não como mercadoria. Vamos retirar as Organizações Sociais da gestão das unidades, auditar os contratos e fortalecer a gestão pública, com a realização de concursos, valorização dos profissionais e respeito aos direitos trabalhistas. Vamos reestruturar os hospitais regionais para garantir atendimento especializado em todas as regiões, reduzindo a necessidade de deslocamento para Aracaju. A Atenção Primária será fortalecida em parceria com os municípios, com equipes multiprofissionais completas, prevenção e vacinação. Vamos enfrentar as filas de exames, consultas e cirurgias com planejamento e regionalização. Também ampliaremos a Rede de Atenção Psicossocial, criaremos uma rede para pessoas neurodivergentes e fortaleceremos o atendimento às pessoas com deficiência, idosos e populações em situação de vulnerabilidade. A saúde precisa voltar a ser pública e humanizada.

MJ – Todo setor cultural no Estado de Sergipe se transformou e se resumiu apenas em megafestas pontuais, com contratações milionárias de artistas e estruturas. Não se tem uma notícia de política pública para a Cultura. Quais suas propostas para esse setor?
DR – Cultura não pode se resumir a megafestas e contratos milionários. Ela precisa ser uma política pública permanente, construída com os trabalhadores e fazedores de cultura. Vamos criar uma Rede e um Fórum Estadual de Cultura Popular, com gestão democrática e participação da sociedade. O governo vai ampliar o financiamento direto aos artistas e fortalecer bibliotecas, museus, teatros, centros culturais e rádios públicas. Também vamos criar circuitos culturais permanentes, apoiar a economia solidária e garantir políticas específicas para povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Queremos profissionalizar e valorizar os trabalhadores da cultura, inclusive com concursos públicos. Também vamos criar políticas permanentes de incentivo ao audiovisual sergipano, com editais, financiamento e apoio à produção independente, valorizando nossos cineastas, produtores e artistas. A cultura sergipana também estará presente nas escolas e na preservação do nosso patrimônio. Cultura é direito, identidade e também instrumento de desenvolvimento social e econômico.
MJ – O Brasil saiu do Mapa da Fome, mas em quase metade dos domicílios em Sergipe existe insegurança alimentar, há pessoas passando fome. Sete em cada dez crianças e adolescentes aqui no estado estão em situação de pobreza, revelou Unicef. Quais suas propostas para o combate à pobreza e a desigualdade social?
DR – Não podemos aceitar que Sergipe produza riqueza e, ao mesmo tempo, tenha famílias sem o direito básico de colocar comida na mesa. O combate à fome precisa ser prioridade de governo. Vamos criar o Sergipe Mais Renda, um programa estadual de renda mínima complementar ao Bolsa Família, com atenção especial às famílias com crianças pequenas e às mulheres chefes de famílias monoparentais. Também vamos ampliar as políticas de assistência social e criar restaurantes populares nos municípios com mais de 50 mil habitantes. Queremos reduzir o custo de vida da população trabalhadora e enfrentar as desigualdades com políticas de transferência de renda, serviços públicos de qualidade e tributação progressiva. O desenvolvimento só faz sentido quando melhora a vida de quem produz a riqueza. Não basta crescer economicamente, precisamos garantir que ninguém em Sergipe passe fome e que toda criança tenha condições de viver, estudar e se desenvolver com dignidade.
MJ – Números do Ministério da Justiça revelam que Sergipe reduziu a violência, mas ao mesmo tempo é um dos campeões nacionais de violência policial. Nos últimos anos mais de 1000 jovens negros na periferia foram mortos pelo Governo do Estado. Quais suas propostas para a Segurança Pública?
DR – Segurança pública não pode ser confundida com violência policial. Caso seja eleito, vamos consolidar a redução dos homicídios e, ao mesmo tempo, enfrentar a letalidade e as violações de direitos. Vamos implantar um Plano Estadual de Segurança Pública com metas claras, policiamento comunitário, inteligência, investigação qualificada e uso de câmeras nos uniformes. Também vamos valorizar os profissionais da segurança, com melhores condições de trabalho, formação permanente e acompanhamento psicológico. A prevenção precisa estar articulada às políticas de educação, cultura, emprego, habitação e saúde, especialmente nas periferias e entre a juventude negra. Defendemos alternativas penais e políticas reais de reinserção social e profissional para egressos do sistema prisional. Também vamos fortalecer o combate à tortura e às violações de direitos humanos. Na violência contra a mulher, ampliaremos a rede de proteção, com delegacias especializadas, Casas de Acolhimento e Centros de Referência regionalizados. Segurança é garantir o direito de viver, não apenas aumentar a repressão.
MJ – O governador Fábio Mitidieri privatizou a água com a venda da Deso. A promessa de melhoria no acesso e abastecimento de água não se cumpriu, pelo contrário, a Iguá só produz revolta. Caso seja eleito: irá reverter a venda da Deso? Vai privatizar o Banese e outras empresas públicas?
DR – Se eleito, vamos reestatizar a Deso e garantir que água e saneamento sejam tratados como direitos, não mercadorias. Vamos universalizar o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário nos 75 municípios, com gestão pública e controle social. A venda da Deso à Iguá foi inadmissível. Por que o governo não buscou financiamento para reestruturar a empresa, em vez de vendê-la? Se a Iguá conseguiu financiamento do BNDES para comprar a Deso, o governo poderia ter buscado esses recursos para manter o controle público desse patrimônio. Hoje vemos uma piora progressiva desse serviço, água faltando nas torneiras. Também sou contrário à privatização do Banese, que deve ser fortalecido como instrumento de desenvolvimento econômico e social. Vamos ampliar o crédito para pequenos comerciantes, agricultores familiares, cooperativas e pequenas empresas, além de modernizar os serviços, melhorar o aplicativo e ampliar a aceitação do cartão. Um Banese forte deve gerar emprego, renda e desenvolvimento. Patrimônio público não se vende, se fortalece para servir à população.
MJ – Não é de agora, mas é altíssimo o nível de insatisfação dos servidores públicos com as gestões do governo de Sergipe: muitos cargos em comissão, péssima remuneração, falta de plano de carreira, interferência política na gestão pública. Qual será a relação do seu governo com os servidores públicos?
DR – A relação será de diálogo permanente e respeito. O gabinete do governador não terá portas fechadas para os servidores nem para os sindicatos. Eu venho da luta sindical e sei da necessidade de abertura de diálogo. Vamos valorizar quem está na ponta e garantir participação dos trabalhadores na construção das políticas públicas. Defendemos concursos públicos em todas as áreas essenciais, substituindo contratações temporárias por vínculos efetivos. Vamos recompor perdas salariais, garantir planos de carreira dignos e implementar a jornada de 30 horas semanais, sem redução salarial, melhorando a qualidade de vida e ampliando o atendimento à população. Também vamos combater o uso político da máquina pública e fortalecer a profissionalização do Estado. Servidor precisa ser valorizado, respeitado e com condições dignas de trabalho.
MJ – Sergipe não tem grandes indústrias, o comércio é concentrado na capital e em uma ou duas cidades do interior, não há emprego para a juventude. Sergipe é o 9º estado do Brasil com a pior remuneração média para trabalhadores pretos e pardos, que é maioria de nossa população. Ao mesmo tempo há uma forte concentração de renda. Tem pouca gente muito rica aqui. Quais suas propostas para o desenvolvimento do estado, especialmente no campo do emprego?
DR – Precisamos superar a ideia de que crescimento econômico, a qualquer custo, significa desenvolvimento. Nosso projeto é de desenvolvimento sustentável, com geração de emprego, distribuição de renda e respeito ao meio ambiente e aos trabalhadores. Vamos criar um programa estadual de obras públicas, com moradia popular, infraestrutura e equipamentos comunitários, gerando empregos nos 75 municípios. Também vamos ampliar o crédito para pequenos negócios, priorizando mulheres, pessoas negras, jovens e iniciativas de economia solidária. Queremos fortalecer a agricultura familiar, a pesca artesanal, o cooperativismo, o artesanato e o extrativismo, que geram renda e preservam nossa cultura. Vamos investir em tecnologia e inclusão digital, criando polos tecnológicos nas periferias e oportunidades para a juventude. Desenvolvimento precisa chegar ao interior e às comunidades mais vulneráveis. Vamos combater o trabalho precário, o desmatamento, o uso de agrotóxicos e a exploração dos trabalhadores. Criar um programa estadual de primeiro emprego, priorizando a juventude das periferias e do interior. O objetivo é construir uma economia que produza riqueza, mas que também distribua essa riqueza.
MJ – Sendo eleito, quais serão seus atos no primeiro dia como governador?
DR – Se Deus permitir e, se eleito for, uma das primeiras medidas do nosso governo será auditar o contrato de cessão da Deso à Iguá, verificar como essa operação foi realizada e iniciar o processo para reestatizar a empresa. Vamos devolver ao povo sergipano o controle sobre a água e o saneamento, porque água é direito, não mercadoria. Abriremos as portas do governo para a participação popular nas decisões. Vamos construir um Orçamento Participativo Estadual, com consultas presenciais e digitais, fortalecer os conselhos estaduais e garantir transparência total dos gastos públicos. Vamos criar canais permanentes de diálogo com movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade, para que o povo participe efetivamente das decisões do governo. A nossa luta é a luta do povo trabalhador, por saúde 100% SUS, educação pública de qualidade, moradia, justiça climática e defesa dos nossos rios e biomas. É também a luta das mulheres, da população negra, LGBTQIAPN+, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.
TRANSPARÊNCIA:
Cada pergunta poderia ser respondida em até 15 linhas e os candidatos foram informados de que, se o tamanho da resposta ultrapassasse o limite determinado, haveria edição, mantendo-se a ideia central do candidato em cada resposta.