A nova geração da agulha: jovens mulheres apostam em especialização e sustentabilidade para manter viva a costura

Apesar da percepção de que faltam profissionais, cursos seguem cheios e novas gerações buscam especialização, terceirização e marcas próprias.

Quem já precisou ajustar uma roupa, encomendar um vestido de festa ou mandar fazer um uniforme provavelmente conhece uma costureira de confiança. Em muitas famílias, elas acompanham gerações inteiras, costurando para avós, mães e filhas. Mas uma percepção tem se espalhado entre clientes e profissionais: está cada vez mais difícil encontrar boas costureiras.

Para mulheres que trabalham há décadas na área, a impressão é de que os jovens não querem mais aprender o ofício. Os números, porém, mostram que a realidade é outra. Em vez de desaparecer, a profissão está passando por uma transformação, impulsionada pelo empreendedorismo, pela especialização e pela prestação de serviços para marcas de moda.

Edna Dantas, de 65 anos, conhece bem essa trajetória. Ela começou a costurar aos 15 anos, inspirada pelas tias, que conciliavam o trabalho na lavoura com a produção de roupas em casa.

Sem nunca ter feito um curso formal, ela aprendeu observando outras costureiras e trabalhando em oficinas. Durante uma temporada no Rio de Janeiro, ainda adolescente, começou em uma oficina de costura executando tarefas simples. Aos poucos, aprendeu etapas mais complexas da produção.

Mais de cinco décadas depois, Edna continua trabalhando entre um emprego em Aracaju e o próprio ateliê, em Nossa Senhora do Socorro, na região metropolitana da capital sergipana. Ao longo da carreira, confeccionou de tudo: lingerie, roupas de festa, vestidos de noiva e peças sob medida. “Tem gente que só faz calcinha, só sutiã. Eu faço tudo. O que pedir eu faço”, diz.

A dedicação intensa teve consequências para a saúde. “Hoje tenho todos os problemas nos ossos. Artrose, atrite, osteoporose”, conta. 

Para Edna, o desafio atual é encontrar profissionais com a mesma versatilidade. “Ultimamente eu tenho ouvido que se procura costureira e não acha. Costureira de tudo é meio difícil. Você encontra quem faz só conserto, só boné, só calcinha.”

A costureira Edna Dantas em seu ateliê em Nossa Senhora do Socorro. (Créditos: Luísa Monte/Mangue Jornalismo)

A trajetória de Valéria, 53, também começou cedo. Aos 14, ela entrou em uma fábrica de sandálias, onde aprendeu a operar máquinas industriais. Depois passou por confecções de jeans e pela produção para pronta-entrega, modalidade marcada por prazos apertados e grande volume de peças.

Hoje, prefere atuar como costureira em domicílio. Nesse modelo, passa o dia na casa dos clientes produzindo roupas sob medida, utilizando a máquina deles e acompanhando todo o processo, desde o corte até os ajustes finais.

Apesar da autonomia, ela afirma que o trabalho continua pouco valorizado. “A gente devia ser melhor paga. Tem gente que acha caro pagar uma diária de R$ 260”, afirma.

Durante anos, a necessidade de complementar a renda significou abrir mão de folgas e do convívio familiar. “Eu trabalhava de domingo a domingo. Perdi muito da infância dos meus filhos porque precisava trabalhar.”

Assim como Edna, Valéria acredita que há menos interesse dos jovens pela profissão. Para ela, costurar exige paciência, prática e persistência, características que, em sua visão, não atraem as novas gerações.

Mas a ideia de que a profissão está morrendo não é compartilhada por Karinne Sá, coordenadora dos cursos de costura do Senac em Sergipe. Segundo ela, o que existe é uma mudança no perfil das profissionais e na forma como o trabalho é realizado.

“É uma profissão muito antiga, mas ela vem se transformando. Na verdade, o que existe é um sumiço aparente”, afirma.

Todos os anos, cerca de 600 pessoas participam de cursos de costura oferecidos pelo Senac no estado. As turmas são distribuídas entre Aracaju, Itabaiana, Lagarto, Tobias Barreto e uma unidade móvel que atende diferentes municípios.

Além de pessoas interessadas em iniciar na área, os cursos recebem profissionais que buscam atualização e até alunos que pretendem atuar como designers ou estilistas.

Karinne Sá e turma de costura do Senac Aracaju (Crédito: Divulgação)

“Existem pessoas que vêm por terapia, outras para se reciclar. Também temos jovens que querem aprender a costurar para trabalhar com moda, mas não necessariamente como costureiros. Existe uma nova formatação dessa profissão”, explica.

Para Karinne, a desvalorização da costura está ligada ao crescimento do consumo em massa e ao avanço das grandes redes de fast fashion. “O cliente acaba optando mais pelo valor do que pela qualidade da peça. Isso desvaloriza a costura mais lenta e qualificada”, afirma.

A percepção é confirmada por uma pesquisa realizada pela ONG Aliança Empreendedora em 2023. O levantamento, feito com 140 costureiras de 21 estados brasileiros, mostrou que 62% delas ganham menos de um salário mínimo. Além disso, 85% recebem menos do que profissionais contratadas formalmente.

A pesquisa também revelou que 90% das entrevistadas trabalham por amor à costura, enquanto 71% afirmam que a atividade é, ao mesmo tempo, uma necessidade financeira e uma paixão. Entre as entrevistadas, 78% se autodeclararam negras e 77% são mães.

Diante desse cenário, muitas costureiras têm buscado alternativas para aumentar a renda e ganhar autonomia. Em vez de depender exclusivamente de encomendas individuais, elas passam a prestar serviços para marcas ou a criar os próprios negócios.

Segundo Karinne, é cada vez mais comum encontrar profissionais que montam pequenas oficinas para produzir peças em escala para marcas vendidas pela internet. “Elas fazem prestação de serviços e recebem para produzir uma quantidade de peças, em vez de depender apenas de ajustes e encomendas esporádicas”, explica.

A especialização também se tornou uma estratégia de valorização profissional. Há costureiras que trabalham exclusivamente com vestidos de quadrilha, ajustes ou costura criativa, nichos que permitem cobrar mais pelo conhecimento específico.

A designer gráfica Marília Gonçalves, 34, encontrou justamente no empreendedorismo uma forma de transformar a costura em profissão. Há dez anos, ela fundou a Cósmica Ateliê, marca de moda autoral e sustentável sediada em Sergipe.

O interesse começou por necessidade pessoal. Muito magra, ela tinha dificuldade para encontrar roupas que servissem bem e decidiu fazer um curso de corte e costura. “A ideia inicial era costurar para mim mesma. Fiz o curso, gostei muito e comecei a fazer roupas para mim, postar e divulgar”, conta.

Marília Gonçalves, dona da Cósmica Ateliê. (Créditos: Acervo pessoal)

Com o crescimento da marca, ela passou a trabalhar em parceria com outras costureiras e a manter uma pequena produção, sem abrir mão dos princípios do slow fashion. Desde o início, apostou em tecidos reaproveitados, fibras naturais e embalagens sem plástico. 

“Eu queria ter um diferencial e me identifiquei muito com as discussões sobre consumo consciente e sustentabilidade”, diz Marília.

Hoje, cada costureira parceira é responsável por determinados modelos, e os valores são negociados para garantir uma remuneração considerada justa para todas as envolvidas. “Eu valorizo muito mais esse trabalho depois que comecei a fazê-lo. Não é todo mundo que consegue ou tem a paciência necessária”, afirma.

Após uma década de atuação, Marília reconhece que ainda existe resistência de parte dos consumidores em pagar por roupas produzidas artesanalmente. Ao mesmo tempo, acredita que há um público crescente disposto a valorizar a produção local e sustentável.

“Existe uma falta de percepção sobre o valor desse trabalho, mas também existe um público que entende e sustenta marcas pequenas e autorais. É esse público que permite que eu esteja há dez anos trabalhando com isso.”

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Luísa Monte

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, com experiência em reportagem, roteiro, podcast e documentário. Foi trainee do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha de S. Paulo e repórter de cultura, saúde e comportamento no mesmo jornal. É sergipana que ama explorar o mundo e contar as histórias ao redor dele.

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Uma resposta

  1. Belas histórias! Que reportagem linda, me deixou emocionada!
    Amo costura desde criança, quando fazia roupas para as bonecas das amigas da rua em que morava, além de perucas, bolsas e sandálias. Na adolescência criava minhas próprias roupas, pois nada do que era me oferecido me encantava. E fazia sucesso, viu?
    Infelizmente, esse talento adormeceu em meio a outras escolhas que fiz na vida.
    Hoje, estou aposentada, e, lendo a sua matéria, parece que um “bichinho” acordou aqui dentro de mim rsrs

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