No mês passado, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) anunciou que ofertará curso de graduação em Inteligência Artificial a partir do próximo semestre. A Mangue Jornalismo entrevistou André Britto de Carvalho, doutor em Ciência da Computação com pesquisa em IA e professor da UFS.
No dia 22 de julho, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) anunciou a criação de um novo curso: o bacharelado em Inteligência Artificial (IA), cuja primeira turma será aberta no semestre de 2026.1 por meio do Sisu e terá 50 vagas. A única universidade pública sergipana entra para uma lista ainda pequena de instituições públicas federais que oferecem formação de nível superior em IA, caso da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Para entender o contexto de criação do novo curso e como o Brasil e o Nordeste se inserem em um cenário internacional tomado pelas big techs, a Mangue Jornalismo conversou com o professor André Britto de Carvalho, doutor em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professor do Departamento de Computação (DCOMP/UFS) e um dos envolvidos no plano de criação do bacharelado em IA da UFS.
A entrevista abaixo foi editada por motivos de extensão.
Hoje, ainda que haja intensa discussão sobre Inteligência Artificial, por muitas vezes os jornalistas não explicam exatamente os termos presentes nesses debates. Quais o senhor acha que são as principais desinformações ou mal entendidos entre a população geral sobre o assunto?
Se eu pensar em IA – até na própria comunidade – o termo inteligência artificial é muito questionável, essa questão de dizer o que é uma inteligência. Desde mais ou menos os anos 80 se discute essa noção de o que é IA. Muitos falam que não é uma inteligência, que não pode falar que é uma inteligência como a do ser humano, que a máquina não pensa que nem a gente.
Durante um tempo, houve até certa divisão de grupos de pesquisadores entre os que preferiam chamar de inteligência computacional, enquanto um outro grupo chama de inteligência artificial. Ela é uma subárea da computação e dentro da própria inteligência artificial existem várias subáreas: tem a parte relacionada com o sistema de redes neurais, que é a grande área de aprendizagem de máquina; tem a parte que eu trabalho, de resolução de problemas com heurísticas; tem a representação de conhecimento, a de planejamento… A IA na computação é uma coisa bem grande.
Recentemente, com a explosão de ferramentas do tipo ChatGPT, que foi o primeiro que saiu comercialmente, as pessoas passaram a compreender a IA como um serviço que a princípio é de graça. A grande sacada da OpenAI [criadora do ChatGPT] foi botar esse modelo para uso de maneira geral sem ele estar pronto. Se você for analisar, o ChatGPT mente – a gente chama de “alucinar”. Esses modelos falam qualquer coisa e não necessariamente está certo ou está errado. Só que não ficou claro como é que ele funciona. É muito perigoso a gente utilizar aquilo ali como uma verdade.
Esses modelos não são necessariamente inteligentes, eles aprendem o que alguém passa para eles. Então, dependendo dos dados que você passa para o modelo, ele vai responder o que você quer. Acho que os grandes problemas estão associados justamente à falta de entendimento de como esses modelos funcionam e como é que eles podem influenciar a opinião pública de maneira geral.
E me corrija se eu estiver errada, mas mesmo os próprios desenvolvedores que trabalham com redes neurais têm dificuldade em entender qual o processo que a máquina toma até chegar a uma resposta, certo?
Ela vai aprender com exemplos a resolver uma determinada tarefa.Existem várias técnicas matemáticas, estatísticas, computacionais para descrever os dados que eu estou passando para o modelo de aprendizagem. E aí, a partir desse aprendizado, esse modelo vai responder.
Se eu passar informação, por exemplo, de temperatura, de umidade do ar, esse modelo pode responder se o dia vai ser ensolarado, se vai ser nublado, ou ele pode tentar prever a temperatura. Os métodos foram evoluindo, e à medida que isso aconteceu, as IAs foram ficando mais complexas e é cada vez mais difícil tentar descrever como é que um modelo de aprendizagem toma uma decisão.
Tem métodos bem simples que determinam regras, mas tem modelos mais complexos, como as redes neurais, o SVM [sigla para support-vector machine, ou máquinas de vetores de suporte em português] e outros modelos que têm uma forte base matemática. Existem vários trabalhos hoje em dia que a gente chama de interpretabilidade de modelos, que tentam entender como é que esses modelos de aprendizagem tomam a decisão.
Como é que o senhor define hoje o lugar do Brasil no cenário mundial de pesquisa com IA?
Quando se fala de pesquisa, de maneira geral – e na computação com certeza – ela é centralizada, dominada pelo europeu, pelo americano. Obviamente, a China vem crescendo absurdamente. Aqui no Brasil você tem alguns centros de IA que têm crescido nos últimos anos.
No Brasil, mais ou menos nos últimos oito anos, houve um desenvolvimento muito grande da parte de IA nas universidades e foram criados alguns centros. O primeiro eu acho que é a C4AI, que é do pessoal da USP; mais ou menos no mesmo momento, foi criado o IARA, que é o que tem mais ligação com o Nordeste. Os grandes polos de IA aqui no Brasil são as universidades, especificamente as universidades de São Paulo, principalmente a USP de São Carlos, a Unicamp e a USP de São Paulo capital.
Aqui no Nordeste, tem a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que já desenvolve pesquisa em IA há muitos anos. A professora Tereza Ludermir, da UFPE, é uma das precursoras de IA no Brasil. Existe um centro de pesquisa nordestino, vamos dizer assim, que é o IANE, a Rede de Inteligência Artificial do Nordeste.
Nas pesquisas universitárias, geralmente o grande potencial está no mestrado e doutorado. Algumas delas estão associadas a empresas, principalmente as pesquisas desenvolvidas no estado de São Paulo. Então, se você vai no Instituto de Computação da Unicamp, há um prédio lá que é todo construído pelo Itaú, outro prédio foi construído pela Samsung. Aqui no Nordeste, eu sei que Pernambuco tem um contato muito grande com a Motorola, porque em Pernambuco há um porto digital, eles conseguiram montar um ecossistema de computação.
O Brasil ainda não tem uma regulação de IA, mas há um projeto de lei aprovado no Senado e muito criticado, por exemplo, sobre a questão das análises de risco. E a gente vê em Sergipe o uso na segurança pública de tecnologias de reconhecimento facial baseadas em IA sem um parâmetro regulatório específico. Como é que o senhor vê isso? O Brasil precisa regular? Qual seria a melhor forma de fazê-lo?
Isso aí envolve muita política. A minha opinião é de que a IA deveria ser regulada, isso deveria ser uma preocupação do Estado, não de governo. Só que é muito difícil você separar o que é de governo e o que é de Estado.
E a gente está vivendo um momento muito perigoso. Atualmente, quem define o que é verdade e o que é mentira são as big techs [grandes empresas de tecnologia digital]. Como elas se relacionam com governos como o dos Estados Unidos ou de outros locais torna tudo mais perigoso ainda.
Percebe-se isso na posse de Trump: todos eles [donos de big techs] estavam lá caladinhos, porque eles vão ganhar muito dinheiro – e eles só se preocupam com dinheiro. Não tem questão ética, essa galera das big techs não tem escrúpulos. Então, se a verdade agora é a verdade de Trump, eles se preocupam muito em fazer com que a IA deles responda o que Trump quer. Se você pensar no mundo perfeito, a IA tem que ser, sim, regulada e controlada como um instrumento de Estado.

Como é que você vai determinar isso? Quem é que vai controlar o que a IA faz? Talvez uma agência, pois muitas vezes as agências de controle que a gente tem no país até funcionam. Você pode reclamar um pouco de uma coisa ou outra, mas a gente pode pelo menos confiar em uma grande maioria dos servidores públicos do país. Eles ainda lutam por muita coisa. Seria muito interessante a criação da Agência Nacional de Inteligência Artificial.
O Brasil de hoje teria alguma condição material e de força de trabalho, de investimento intelectual, para desenvolver uma Inteligência Artificial que fosse nacional?
Com certeza. O país é rico. Aí é uma questão de interesse e investimento. Só que a gente tem muitos problemas, e o investimento hoje em dia está muito na mão do legislativo, então é um problema de difícil solução, mas não necessariamente algo caro. Você pode construir um tipo de data center [instalações de armazenamento de dados] que não precise ser esses monstros.
A história do DeepSeek, uma IA chinesa, foi de que conseguiria ser um milhão de vezes mais barata. De certa forma, é verdade, você consegue construir. Você não vai construir uma ferramenta genérica, que nem o ChatGPT, que responde sobre todas as coisas do mundo e faz toda a tarefa do mundo de maneira barata. Mas você consegue fazer ferramentas específicas, por exemplo, que ajudem a população de maneira geral sem tanto investimento. Obviamente, é sobre investimento, pois milhões de reais é muito investimento. Contudo, você consegue.

Além da regulação da IA, algo que ainda não existe no Brasil, discute-se muito inicialmente sobre a regulação de instalação de data centers no Brasil. Qual é a avaliação que o senhor faz sobre a vinda desses data centers e a relação com o alto consumo de energia elétrica e água em regiões que, dependendo da área, sofrem com escassez hídrica?
A gente não sabe até onde vão os termos do governo quando ele faz um acordo com as big techs para montar um data center gigante aqui. Primeiro, falta essa discussão sobre se a gente precisa disso tudo. A gente precisa de infraestrutura? Sim, a gente precisa. Como é que a gente vai conseguir investimento para montar infraestrutura computacional? Todo mundo vai precisar. O que não está claro é a motivação dessas big techs em trazer esses data centers para cá.
Existem as questões de distribuição geográfica. O Brasil é um país com população grande. De alguma forma, eles precisam trazer para cá [data centers] para atender ao público daqui. Mas eles vão atrás de onde eles podem, de alguma forma, – e usando de poder político – escalar os serviços deles da maneira mais barata possível.
Então dá para falar em neocolonialismo por parte das big techs?
Com certeza. Tem uns termos meio estranhos, tipo proto-feudalismo, neofeudalismo. É um capitalismo 2.0, 3.0 que mandam ainda mais em governos, porque agora são “donos da verdade”.
A gente no Brasil não desenvolve chip, a gente não desenvolve todos esses equipamentos necessários para utilizar os servidores. Então, a gente necessariamente depende de outros países, de outras empresas para ter esse tipo de infraestrutura.
No final da história, o governo precisa se virar com o que tem, mas qual seria a contrapartida para o país ao atrair essas estruturas? Vai estar trazendo, de certa forma, a degradação, o uso excessivo dos recursos materiais que a gente tem. E qual a contrapartida para a população?
Então, nessa nova corrida digital que a gente está vivendo, dá para afirmar que o Brasil não tem soberania digital? Porque ao mesmo tempo que a gente criou algo fantástico como o Pix, que é 100% nacional, há a deficiência de estrutura para desenvolver IA, que é a nova frente tecnológica.
A gente já usa essas ferramentas computacionais externas há muito tempo – Google, Facebook, redes sociais. Não existe rede social nacional. Muito se critica a China por ter suas próprias redes sociais, mas eles pensam em soberania. Eles têm a rede social deles, eles têm o Google deles, eles têm o YouTube deles para tentar ter um maior controle, só que isso é sempre vendido como uma questão de falta de liberdade.
Para fazer o nosso curso [de Ciência da Computação da UFS] funcionar, a gente usa o serviço do Google, a gente usa o serviço da AWS [sigla para Amazon Web Services]. Portanto, já temos dependência grande dessas ferramentas computacionais das big techs há muito tempo. É muito difícil imaginar que a gente vai fazer alguma coisa parecida com o que a China faz, mas tem que ter pelo menos a discussão.
E é por isso que a gente está criando esse curso de IA, para que a gente construa as nossas ferramentas. É difícil, é muito difícil. Como é que você vai fazer com que profissionais da área de TI [Tecnologia da Informação] lutem para construir soluções nacionais em meio a tantas dificuldades que a gente tem aqui de investimento e sendo que o próprio mercado age contra a gente?
E sobre o novo curso de graduação do Departamento de Computação (DCOMP), a graduação em IA, qual é a expectativa para o início das atividades? Como é que vai funcionar, por exemplo, o quadro de professores?
A gente tem quatro cursos: Sistemas de Informação, Engenharia da Computação, Ciência da Computação e agora IA. A graduação em Ciência da Computação tinha 100 vagas por ano. Nós tiramos 50 dessas vagas e colocamos em Inteligência Artificial.
Todo mundo que pode escutar, a gente do DCOMP repete que temos uma situação muito problemática com professores, questões de gestões anteriores. O nosso quadro docente é de apenas 30 professores, e são cerca de 1.200 alunos, 1.300 alunos atualmente que fazem os cursos da computação. Só que, ao mesmo tempo, a gente entende que não podemos ficar para trás.
Abrir um curso é extremamente complexo. Sabemos da necessidade de infraestrutura, de professores. Mas se você pensar em vestibular, em Sisu, tudo é muito lento. Portanto, se a gente não fizer isso agora, só em 2027. A gente falou “Esse é o momento, a gente não pode perder esse bonde”.
O curso de IA vai ter suas características, suas necessidades, principalmente de infraestrutura. A gente não tem infraestrutura de servidores com processamento de inteligência artificial. Mas sabemos que em 2026 os alunos não vão precisar disso ainda. Eles vão precisar disso só lá a partir do quarto, quinto período. Então, a gente tem que lutar junto à universidade, já que o dinheiro hoje em dia está na mão do legislativo.


