LUÍS FELIPE MIGUEL
substack.com/@lfmiguel
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A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização. Artigo publicado originalmente em substack.com/@lfmiguel
Com a COP 30 começando, cabe perguntar: por que a temática ambiental, cuja importância para o futuro de todos nós é cada vez mais óbvia, recebe tão pouco espaço nas preocupações dos cidadãos e parece condenada a um papel muito secundário no debate eleitoral?
Creio que é possível esboçar algumas linhas de resposta para esta questão.
A primeira é que as pessoas simplesmente não querem encarar o que está acontecendo. Aquilo que, no âmbito dos discursos públicos, chamamos de “negacionismo científico”, funcionaria, no plano individual, como um escapismo. Um mecanismo de autodefesa psicológica, para não ter que lidar com a perspectiva de um desastre próximo, contra o qual cada um de nós, individualmente, nada pode fazer.
Também é possível imaginar, como diz Mafalda em uma tirinha clássica, que nossa atenção é capturada mais facilmente por aquilo que parece urgente do que por aquilo que é importante. A catástrofe climática já me parece urgente o bastante, mas é uma urgência que se mede em irreversibilidade das mudanças e em prazos que, embora estejam se acelerando muito, ainda são contados em décadas. Não é como se fôssemos morrer afogados amanhã, com a subida do nível do mar. Por isso, nos sentimos autorizados a tratar de questões mais urgentes, como, sei lá, namoro do craque Vini Jr. com a influenciadora picareta.

Ou, para ser menos ácido: se colocar comida na mesa, pagar as contas e chegar ao fim do mês é a preocupação central, então todo o resto fica em segundo plano.
Ligada às duas anteriores, mas mais profundamente pessimista, é a explicação de que a democracia não serve para lidar com questões de vida ou morte. Segundo David Runciman (em How democracy ends), a democracia prosperou quando
as questões existenciais podiam ser reduzidas ao nível da política do dia a dia. A questão em época de eleição não era realmente o destino do mundo. Nunca é. O que importava era como as pessoas se sentiam em relação aos políticos que tomavam decisões em seu nome, grandes ou pequenas. Essa é sempre a questão fundamental da democracia representativa: o que pensamos dessas pessoas decidindo por nós? Não importa tanto o que está em jogo. Pode ser uma questão de apocalipse nuclear ou pode ser uma questão do preço do pão.
O problema é que, neste momento, parece cada vez mais difícil acreditar que os nossos representantes terão capacidade de tomar boas decisões, até mesmo em relação às questões pequenas, quanto mais as grandes.
Mas a questão central é que o enfrentamento da questão climática exige também bater de frente com os interesses dos grupos dominantes do mundo. São as empresas que precisam de um ciclo de consumo e descarte extremamente acelerado, com implicações no esgotamento dos recursos naturais, no uso de energia e na produção de dejetos. São os bilionários e seu modo de vida extravagante, desperdiçando como se não houvesse amanhã. Nos Estados Unidos, a opção por Donald Trump representou mandar qualquer pudor as favas. O capitalismo chinês, mais esperto, polui de um lado e anuncia investimento em energia verde do outro, mas a dinâmica da acumulação permanece intacta.
É difícil enfrentar isso.

É mais fácil, na verdade, acreditar que uma solução mágica fatalmente nos espera. Afinal, imagina-se, quando a coisa aperta, a humanidade dá um jeito. Logo, certamente vão aparecer medidas e tecnologias que resolverão o problema. É a velha ilusão prometeica.
É possível derivar essa ideia da frase de efeito do Marx, no “Prefácio” à Contribuição à crítica da economia política (eu sempre acho que as frases de efeito de Marx fazem mais mal do que bem): “A humanidade só se propõe os problemas que ela pode resolver”. Será mesmo? Ou essa crença serve hoje para evitar a adoção de medidas que são difíceis e, sobretudo, contrariam os interesses mais poderosos – aqueles que lucram com o atual modelo de desenvolvimento?
Ou então é como naquela velha piada do sujeito que estava no meio da enchente, no alto do telhado. Passa um barquinho, ele se recusa a subir: “Não precisa, Deus vai me salvar”. Outro barco, a mesma coisa. Mais um, idem. Morre afogado, chega fulo no céu, reclamando que foi abandonado, e Deus responde: “Caceta, eu mandei três barcos!”
Em suma: as soluções possíveis já estão aí. Elas exigem frear o capitalismo. Nós é que não conseguimos implementá-las.
A história da enchente vem a calhar porque a burguesia global parece aderir à fórmula bourbônica: Après moi, le déluge. Trata-se de continuar como se nada estivesse acontecendo, deixando a conta ser paga – como sempre – pelos mais ferrados. E de aproveitar as “oportunidades de negócio” abertas pelo colapso climático, da especulação imobiliária (com a valorização dos terrenos mais altos e afastados da costa) à adoção de tecnologias para mitigar seus efeitos.
Até Bill Gates, que tanto se esforça para encarnar o capitalista bonzinho, andou falando que a mudança climática não vai ser tão catastrófica. Vai prejudicar as populações mais pobres, ele reconheceu, “mas as pessoas poderão viver e prosperar na maioria dos lugares da Terra, no futuro próximo”.
Uma aula de cinismo, por um mestre no assunto.
O avanço do negacionismo hard nos faz suspirar, nostálgicos, pelos defensores do “desenvolvimento sustentável”, aquela aposta quimérica na compatibilização entre preservação ambiental e acumulação capitalista. Eles pelo menos têm o mérito de reconhecer que há um problema, ainda que a solução que proponham seja inexequível.
O que o caminho “sustentável” busca é enfrentar o aquecimento global sem mexer naquilo que está na sua raiz: o modelo econômico predatório, baseado no desperdício sistemático, que é próprio do capitalismo. Para evitar as mudanças necessárias, dobram as apostas enquanto o relógio corre contra elas, já que o tempo disponível para reverter as emissões não se conta em séculos, mas em décadas. Enquanto isso, empresas e governos evitam adotar – ou adotam de maneira muito tímida – as medidas para preservar o planeta.
O capitalismo tem um ímpeto expansionista, dada sua incessante necessidade de gerar sempre mais valor; com isso, pela primeira vez na história torna toda a natureza “um objeto da humanidade”, como escreveu Marx. “O capital ameaça a continuidade do metabolismo da humanidade com a natureza porque o reorganiza radicalmente a partir da perspectiva da máxima extração possível de trabalho abstrato”, nas palavras de Kohei Saito. Trata-se de gerar valor, não de suprir necessidades.
Este é a grande contribuição do marxismo para a compreensão da crise ambiental. É a própria dinâmica do capitalismo, voltado à produção de valores de troca mais do que valores de uso, que nos empurra inexoravelmente para o esgotamento dos recursos naturais e a deterioração do meio ambiente. A causa final está nas determinações da forma econômica.
Assim, as mudanças necessárias não são apenas, nem principalmente, de postura individual, que uma certa consciência ecológica difusa ensina para as crianças na escola (reciclar a latinha, proteger a árvore, fechar a torneira). São transformações estruturais, que atingem elementos centrais do modo de produção vigente: a primazia do lucro, a soberania do proprietário individual, o etos aquisitivo. A ameaça representada pela mudança climática deixa clara a irracionalidade de um sistema em que as vidas de todos são determinadas pelas decisões de uns poucos – e não estou nem falando primariamente dos governantes, mas da classe burguesa.
A direita opta por fingir que o problema não existe, que os combustíveis fósseis são ótimos, que essa coisa de colapso climático nada mais é do que uma conspiração de cientistas. Na esquerda, porém, também é difícil dar destaque ao tema.
Por um lado, parece mais fácil replicar o modelo de desenvolvimento e de inclusão social baseado na exploração maciça dos recursos naturais. Foi nessa tradição que a geração de Lula foi educada – e ela persiste.
Por outro lado, é realmente difícil sustentar um discurso que priorize a preservação ambiental se ele mantém a estrutura de desigualdades existente. Lembro de um debate de que participei, anos atrás, em que uma pessoa criticou o programa Luz para Todos, dos governos petistas, porque ele ampliava a demanda por energia elétrica. A pessoa que falou isso dificilmente estaria disposta a abrir mão de sua geladeira, de suas lâmpadas halógenas, de sua televisão Full HD, de seu laptop, de seu ar-condicionado.
Escuridão nos olhos dos outros é refresco.
Ou, para dar um exemplo talvez ainda mais pertinente, há inúmeras razões para se opor ao asfaltamento da BR-319, que atravessa parte da Amazônia, uma vez que se sabe que o asfalto é um grande indutor de desmatamento e há bons motivos para duvidar da capacidade de fiscalização do Estado brasileiro. Segundo muita gente que entende do assunto, o desmatamento daquela área de floresta terá efeito catastrófico no regime de chuvas de todo o continente.
Mas é difícil, falando da posição de moradores de metrópoles das outras regiões brasileiras, negar legitimidade à insatisfação de muitos manauaras com a dificuldade de acesso à sua cidade.
Uma política climática consiste exige enfrentar interesses poderosos e mexer com privilégios – por isso, é difícil de ser sustentada.
Lula, na abertura da reunião de cúpula que precedeu a COP 30, fez um discurso bem calibrado, afirmando a necessidade de respeito à ciência, exigindo investimento global e apresentando caminhos para encontrar o dinheiro. Falando logo depois de ter autorizado a exploração de petróleo na foz do Amazonas, não se avexou e citou “nossas dificuldades e contradições”.
Pena que, no frigir dos ovos, essas contradições quase sempre se resolvam deixando a preservação ambiental em segundo plano.
Colocar a questão ambiental, com o destaque que merece, no debate político – e no debate eleitoral – é um desafio a ser enfrentado.

Luís Felipe Miguel é professor de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). @lfmiguel


