EDNA ANTÔNIO e PÁVILA ALBUQUERQUE, Impressões Rebeldes
(@ednamatos.antonio @pavila_albuquerque e @impressoesrebeldes)

“Anos se passaram, o homem sem se rebelar, apenas a dor, o banzo alimentando a vida”. Becos de Memória, Conceição Evaristo
Maria da Paixão, “escrava crioula fula” da vila de Estância, então Província de Sergipe Del Rey, teve sua existência eternizada nas páginas da imprensa sergipana dos dias 10 e 17 de maio de 1856. Conforme se deduz em um registro, ela deixou de ser posse de alguém para se transformar em uma foragida, conforme o anúncio de jornal que noticiava sua fuga e da filha Joaquina, na noite de 14 de abril de 1856.
Essa mulher teria nascido na segunda década do século XIX e vivido escravizada durante toda a primeira metade dos Oitocentos, tendo em vista que na ocasião de sua fuga transitava na faixa etária de 32 a 34 anos, “pouco mais ou menos”, segundo o anúncio, enquanto a filha Joaquina seria uma criança de 11 anos incompletos. Ao carregar “toda a roupa d`ella, e da filha” tentaram se livrar do senhor José Joaquim Pereira Lima, proprietário influente na Estância de então, e, assim, escapar das amarras do sistema escravista.
Pelos jornais, proprietários como José Joaquim, valendo-se do periódico Correio Sergipense, de ampla circulação na Província de Sergipe Del Rey, avisavam a sociedade sobre as fugas e expressavam indignação pelas “perdas provenientes da fuga”, em suas palavras, decorrentes da perda dos “dias de serviço da dita escrava, desde este dia”.
Mãe e filha já teriam realizado outras tentativas sem sucesso, que culminaram na tortura física da menina Joaquina. Como está referido no periódico, a menina “levou no pescoço [i. é carregou], e bem atarrachado, o ferro de cruz, por castigo de outras muitas fugidas”. Tais castigos sofridos pelas crianças e jovens que estavam submetidos a esse processo de socialização violento motivavam fugas, o que justifica as maiores taxas desse tipo de resistência entre jovens (Amaral, 2012). Assim, a brutalidade aplicada à pequena Joaquina possivelmente foi fator importante para a decisão, ao encorajar mãe e filha a empreender com êxito sua escapada emancipatória.
A justiça do Império permitia ao proprietário a aplicação de castigo moderado aos escravizados, sem punição aos senhores, pois era considerado estratégia disciplinadora corretiva, desde que não fosse cruel, conforme o artigo 14, §6°, do Código Criminal de 1830: “Quando o mal consistir no castigo moderado, que os pais derem a seus filhos, os senhores a seus escravos e os mestres a seus discípulos; ou desse castigo resultar, uma vez que a qualidade dele não seja contrária às leis em vigor” (Brasil, Código Criminal, 1830).
Era comum ao proprietário que desejasse recuperar escravizado fugido divulgar seu desaparecimento nos jornais, fornecendo dados como nome, faixa etária, sexo, local de nascimento, cor, descrição dos olhos, nariz, boca, dentes, estatura e corpo, pernas e pés, mãos e braços, cabelos, barba, além de comentários sobre beleza, vícios, marcas no corpo e defeitos físicos, sinais de violência e ofício.
Por isso, historiadores têm demonstrado cada vez mais como tais anúncios permitem acessar uma nova dimensão das relações escravistas e sua persistência, evidenciando que as fugas foram as reações dos escravizados diante das circunstâncias de exploração. Essa fonte ilumina não apenas a informação da perda e possibilidade de captura, mas a transmissão de representações, sensibilidades sociais e indícios de rede de relações intersubjetivas (Ferrari, 2011).
Nesse aspecto, no que refere às constantes fugas de escravizados, Sergipe Del Rey correspondia a uma das regiões que era constantemente ameaçada por fugitivos (Schwartz, 1988). Esse posicionamento foi comprovado pelos anúncios em periódicos, como o Correio Sergipense, que divulgavam as fugas e o prêmio para aquele que os capturasse, sendo este “generosamente recompensado”.
Sabe-se, porém, que o trabalho de busca era principalmente exercido por capitães-do-mato e pelo aparato policial, que o senhor requisitava diretamente. Essa rede de relações e, sobretudo, as “autoridades policiaes” advertiam os coiteiros, que omitiam “a estada das ditas escravas em suas casas, ou fazendas, ou as auxiliavam em sua fuga”. A penalidade que sofriam estes era a de ser “transcripto por tres vezes”, ou seja, feito o registro das ocorrências contra quem as protegesse.
Maria da Paixão, para além de suas outras facetas (mulher, negra e escravizada), também era mãe, e a maternidade tinha impacto direto em seu existir e resistir no meio social, como era o caso de tantas outras escravizadas imersas no sistema patriarcal e escravista. Ser responsável por outra vida também influenciava as condições de fuga, pois era mais um fator de risco de captura, já que exigia maior atenção e cautela para não serem aprisionadas por capitães-do-mato ou por aqueles interessados na recompensa. A maternidade era também condição que gerava dificuldade de obter abrigo. Com isso, as fugas femininas eram menos frequentes que as masculinas na Província de Sergipe Del Rey, seja por possuírem mais dificuldades para começar essa jornada insubordinada, seja porque eram capturadas mais rapidamente (Amaral, 2012).
A formação de relações afetivo-familiares na comunidade escravizada configurava poderosa estratégia de resistência, pois a família escrava representava amparo e minimização do sofrimento causado pela violência cotidiana. No caso de Maria da Paixão, a fuga com a filha, sua família, comprova a importância desses vínculos no enfrentamento da ordem repressiva vigente que as considerava “peças”, cuja propriedade e domínio o senhor buscava reaver e manter.
O ato de fugir precisa ser compreendido em seu significado social e rebelde, uma vez que permitia aos escravizados inverter, à força, o jogo de dominação e opressão pois o indivíduo recuperava o poder sobre sua vida, eliminava os castigos e podia dispor de sua força de trabalho como achasse adequado. Mesmo nas ações mal sucedidas, o ato de fugir representava importante modo de resistência e sobrevivência daqueles agentes históricos submetidos à constante violência de uma sociedade escravista, o que comprova o poder dos pequenos gestos.
Não se sabe o que ocorreu a Maria da Paixão e sua filha Joaquina após a publicação do anúncio no jornal, porém, mesmo que apenas por meio desse acesso fugaz a fragmentos de informações elaboradas sob a ótica do poder dominante, é possível ter noção da força dessa mulher na busca pela sua liberdade.
Edna Matos Antônio – Professora associada no Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, Doutora em História pela UNESP e membro do grupo de pesquisa Mundo Atlantico e colonização portuguesa.
Pávila Maria Santos Albuquerque – Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe, bolsista de Iniciação Científica CNPQ e membro do grupo de pesquisa Mundo Atlântico e Colonização Portuguesa
Edna Matos Antônio, Pávila Maria Santos Albuquerque, “Maria Teimosa”. Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/maria-teimosa/. Publicado em: 13 de março de 2025. ISSN 2764-7404
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
AMARAL, Sharyse Piroupo do. Um pé calçado, outro no chão: liberdade e escravidão em Sergipe (Cotinguiba, 1860-1900). Salvador: EDUFBA; Aracaju: Editora Diário Oficial, 2012.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. 3. ed.. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
FERRARI, Ana Josefina. O olhar do estabelecido: a imagem do escravo produzida pelos senhores nos anúncios de jornais do Espírito Santo (1849-1888). In: Seminário Nacional da Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2011, UFES. Anais… 2011, v. 1, n. 1. p. 1-20.
SCHWARTZ, Stuart. Segredos Internos– Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial (1550-1835). São Paulo: Cia das Letras, 1988.
FONTES IMPRESSAS
CORREIO SERGIPENSE: folha official, politica e litteraria. Aracaju, SE: Typ. Provincial de Sergipe, 1838-1866. 2 vezes por semana. Administrador: C.A.P. Franco. Localização: Publicações Seriadas Raras – PR-SOR 00144 [1-8].
CORREIO SERGIPENSE: folha official, politica e litteraria. Aracaju, SE: Typ. Provincial de Sergipe, 1838-1866. 2 vezes por semana. Administrador: C.A.P. Franco. Localização: Publicações Seriadas Raras – PR-SOR 00144 [1-8]