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Corpo negro: cartografia da memória, território, segregação e resistência em Aracaju

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas convidadas possam expressar ideias e perspectivas que estimulem o interesse e o debate público sobre uma temática. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue (que estão na parte de transparência do site), entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

“É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que se tornar visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, e, em cada um, o reflexo de todos os corpos” (Beatriz Nascimento, Filme Orí, 1989).

Mosaico de fotos das edições da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro (Crédito EGBÉ)

O racismo urbano não se limita apenas à restrição física da existência negra nas cidades, mas também atua no apagamento simbólico de nomes, grupos e símbolos culturais dos espaços negros da cidade. Como é o caso do apagamento histórico da presença negra na cidade na renomeação de bairros que originalmente tinham nomes ligados às culturas indígena e afrodescendente.

Alguns outros exemplos incluem Anipum, agora chamado de Santos Dumont, Areias, que se tornou Ponto Novo, Cambuí, que recebeu o nome de Getúlio Vargas, e outros como Aribé, Baixa Fria, Várzea da Canoa e Carro Quebrado, que também tiveram seus nomes alterados. Mudanças de nomenclatura contribuíram para o esquecimento da memória coletiva dessas comunidades.

Além disso, a marginalização impactou os aspectos culturais, resultando na desarticulação de expressões tradicionais como o Reisado, o Candomblé, o Samba de Roda e outras manifestações que faziam parte da identidade negra local.

O depoimento do cantor e compositor Wellington Santos (Irmão), no filme “Caixa D’água: Qui-Lombo é Esse?” de Everlane Moraes, ressalta a riqueza cultural do Bairro Cirurgia, mencionando manifestações como a Chegança de João do Pão, o Guerreiro de Euclides, o Reisado de Piliu, o candomblé de Dona Isabel e Seu Lê, além do Samba de Roda e o Samba de Coco de Seu Enoque. Entretanto, muitas dessas expressões culturais foram desarticuladas ao longo do tempo.

No entanto, as comunidades negras seguem ressignificando suas memórias e tradições, reafirmando sua presença e identidade na cidade. Para Beatriz Nascimento (2018), podemos ver isso refletido ao longo da história do movimento negro no Brasil e nas mais diversas expressões culturais, como o Samba, a Imprensa Negra, o Teatro Experimental do Negro e o Cinema Negro, que por meio da ficção participativa reforçava a nacionalidade brasileira da resistência popular às formas de opressão – confundindo, num bom sentido, o território Palmarino com a esperança de um Brasil mais justo em que houvesse liberdade, união e igualdade.

Dentro desse contexto, o cinema surge como um espaço de encontro e resistência para a população negra. O Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul representa um desses espaços de autoafirmação, onde cineastas negros celebram seus trabalhos e compartilham experiências. Inspirados por esse evento, cineastas de diferentes estados passaram a organizar mostras e festivais de cinema negro, criando oportunidades para que suas produções circulem e para que novas discussões sejam promovidas. Esses novos espaços figuram enquanto janelas potentes de circulação dos filmes, bem como espaços de encontros e aquilombamentos.

Um recente levantamento feito por pelas pesquisadoras Laila Oliveira, Luciana Oliveira e Naira Evine, foi possível observar que esses eventos se fortaleceram no Nordeste em meados de 2016, quando surgem as mostras da região: a EGBÉ – Mostra de Cinema Negro de Sergipe (SE) e a Mostra Pilão (PB). Em seguida, em 2017, chegam ao cenário as mostras Negritude Infinita (CE)12 e a MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mohamad Bamba (BA). Em 2018, surge a Mostra Ousmane Sembene, em São Francisco do Conde, na Bahia.

Em 2019, são lançadas a Mostra de Cinema Negro de São Félix em Cachoeira (BA), a Semana do Audiovisual Negro (PE) e a Mostra Quilombo de Cinema Negro (AL). Mais recentemente, em 2021, surge a Moã – Mostra de Cinemas Negros e Indígenas no estado da Paraíba (Oliveira; Vieira; Soares, 2022).

A EGBÉ (palavra iorubá, que significa comunidade, sociedade) é um exemplo relevante, tendo sido criada com o intuito de democratizar o acesso ao público sergipano, o acesso à vasta produção do cinema negro-brasileiro e promover debates através de oficinas e cursos sobre a produção audiovisual negra.

Tendo como idealizadores da Mostra EGBÉ – a cineasta e pesquisadora Luciana Oliveira e o produtor e educador João Brazil – explicam que “a mostra surge de uma inquietação por uma ausência de uma reflexão e de uma janela de cinema negro no estado de Sergipe”.

Cada edição do evento presta homenagem a cineastas negros, especialmente mulheres, a exemplo de Adélia Sampaio, Everlane Moraes e Cristina Amaral, reconhecendo suas contribuições para o cinema nacional.

Essas iniciativas resultam de um longo processo de luta pela afirmação do povo negro em diferentes setores da sociedade brasileira. O conceito de aquilombamento se torna central para compreender esses movimentos, pois fortalece os coletivos e contribui para a desconstrução das estruturas racistas e eurocêntricas que ainda predominam no país.

João Brazil é produtor cultural e doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe. Atua há mais de dez anos em movimentos socioculturais. É idealizador do Cineclube Candeeiro e do EGBÉ – Mostra de Cinema Negro, que chega à sua oitava edição em 2025.

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