Infraestrutura
Definir áreas de embarque e desembarque e integrar terminais aos demais modais.

Reportagem especial
Das canoas indígenas às tototós, o transporte fluvial faz parte da história e desenvolvimento sergipano. Pesquisadores atestam a viabilidade de sua implantação no estado para complementar os ônibus, atualmente a única opção de transporte público em Sergipe.
Aracaju, menor capital do Nordeste brasileiro, nasceu cercada de rios. Hoje com mais de 620 mil habitantes, foi pelas águas do Rio Sergipe, do Rio do Sal e do Rio Poxim que pessoas, mercadorias e histórias circularam muito antes de as pontes redesenharem a mobilidade da região metropolitana da cidade.
Durante décadas, embarcações como as tradicionais tototós fizeram parte da rotina de inúmeros sergipanos. A presença dos rios é tão forte que a bandeira do estado tem cinco estrelas, cada uma representando os cinco rios sergipanos que desaguam no Oceano Atlântico: Sergipe, Real, Vaza-Barris, Japaratuba e São Francisco. Com a expansão do transporte rodoviário, porém, esses cursos d’água deixaram de ser vistos como vias de deslocamento e integração modal, passando a ocupar um papel secundário na paisagem urbana.
Enquanto o trânsito se intensifica e a frota de veículos cresce ano após ano na capital (são mais de 374 mil veículos, segundo dados de agosto do Detran), especialistas defendem que o transporte hidroviário pode voltar a integrar a mobilidade da Grande Aracaju, que inclui, além deste, os municípios de São Cristóvão, Barra dos Coqueiros e Nossa Senhora do Socorro. Juntos, eles têm quase 1 milhão de habitantes e tornam a área prioritária para as discussões sobre transporte público no estado, cuja população estimada pelo IBGE em 2025 foi de pouco mais de 2,3 milhões de habitantes.
Além de aproveitar uma infraestrutura natural já existente, o modal hidrofluvial apresenta vantagens ambientais e energéticas. De acordo com a Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação (SNHN), do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), a eficiência energética das embarcações é 78% superior à do transporte rodoviário e mais de 30% maior que a do ferroviário, considerando o consumo de combustível por tonelada transportada.
A retomada desse modelo, no entanto, depende de planejamento. Pesquisadores consultados pela Mangue Jornalismo alertam que a implantação de hidrovias exige estudos ambientais, monitoramento dos ecossistemas e infraestrutura adequada para conciliar desenvolvimento, preservação ambiental e segurança da navegação.
Em Sergipe, esse debate ganha contornos próprios. A tradição das tototós demonstra que o transporte por rios nunca foi uma ideia distante da realidade local, já que estas embarcações simples ainda hoje fazem o translado diário de passageiros entre Aracaju e sua vizinha Barra dos Coqueiros, com saídas regulares e ao custo de R$ 5 por pessoa. Ao mesmo tempo, o descaso público com um dos últimos exemplares de canoa de tolda, a Luzitânia, cuja estimativa é de que tenha sido construída em 1925 para percorrer o Baixo São Francisco transportando bens e passageiros, é prova de que o país não preserva sua memória naval.
Arquitetos, urbanistas e pesquisadores defendem que os rios da Região Metropolitana de Aracaju podem voltar a cumprir uma função estratégica na mobilidade urbana, reduzindo congestionamentos, diversificando os modais de transporte e aproximando a população das águas que marcaram a origem da cidade. Atualmente, Aracaju é a única capital nordestina que possui apenas uma opção de transporte público. Complementarmente ao ônibus, as outras capitais da região oferecem alternativas como o VLT, o ferryboat e o metrô.
E não bastasse a escassez da oferta pública de transporte na capital sergipana e em sua região metropolitana, os contratos antigos e recentes com empresas de ônibus estão permeados de graves acusações de favorecimento e superfaturamento. Subsídios milionários sem exigência de renovação de frota, violação dos direitos trabalhistas de motoristas e cobradores, licitação com edital lançado às pressas, bairros periféricos desassistidos: todos esses problemas foram investigados pela Mangue Jornalismo, que agora dá um novo passo em sua cobertura sobre mobilidade urbana.
Esta reportagem especial percorre a trajetória do transporte fluvial sergipano em três tempos: resgata a história desse modal no estado, mostra como seus protagonistas buscam manter viva essa tradição no presente e apresenta propostas que podem transformar os rios novamente em caminhos para o futuro.
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Memória
Sem qualquer surpresa, o Rio São Francisco foi a principal rota para a invasão portuguesa no que é hoje o estado de Sergipe e, posteriormente, fundamental via de integração do interior sergipano com a costa. Em sua dissertação, o mestre em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Sergipe Adriano Morais Araújo explica que balsas e canoas foram os primeiros tipos de embarcações utilizadas pelos indígenas para navegar o Velho Chico em seu trecho sergipano. As carrancas, apesar de muito associadas à navegação no Rio São Francisco, não eram comuns em todos os trechos, a exemplo do Baixo São Francisco, entre Sergipe e Alagoas.
Já as canoas – tanto a de tolda como a chata – surgiram no Baixo São Francisco, segundo o pesquisador, “a partir do século XIX e representaram durante décadas o meio de conexão entre o litoral e o sertão”. Eram responsáveis pelo “transporte dos mais diversos produtos e por consequência moviam a vida econômica e social dos municípios ribeirinhos”.
Primeira embarcação tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2010, a canoa de tolda Luzitânia teria transportado o cangaceiro Lampião entre Sergipe e Alagoas. Em janeiro de 2022, ela afundou devido a uma enchente no Rio São Francisco e o próprio IPHAN alegou à época não ter recursos para resgatá-la e restaurá-la. Desde 1999 de propriedade da Sociedade Canoa de Tolda, a centenária embarcação só começou a ser restaurada em novembro do ano passado, quando a prefeitura do município alagoano de Penedo e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) se juntaram ao IPHAN e à organização dona da canoa para realizar os reparos necessários.
Já na região metropolitana de Aracaju, muito antes da construção da ponte que liga a capital à Barra, as tototós eram o principal meio de transporte entre esses dois municípios e comunidades ribeirinhas. A história dessas embarcações está intrinsecamente ligada ao nascimento de Aracaju. Em 1855, com a transferência da capital de São Cristóvão para o estuário do Rio Sergipe, a necessidade de mobilidade fluvial explodiu. Inicialmente movidas à vela, as embarcações passaram a ser motorizadas em meados do século XX, período em que surgiu o nome “tototó”, uma referência ao som característico de seu motor.
A construção do Terminal Hidroviário, em 1982, e, principalmente, a inauguração da Ponte Construtor João Alves, em 2006, reduziram significativamente o número de passageiros e colocaram em risco a continuidade da atividade dos barqueiros que fazem a travessia pelo Rio Sergipe do centro de Aracaju até a Barra.
Para manter a tradição, eles se organizaram em associação e passaram a investir também em passeios turísticos e no atendimento a eventos culturais. Em 2011, as tototós foram reconhecidos pela Lei Estadual nº 7.320 como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, reforçando seu valor histórico e simbólico para o estado. Organizados pela Associação dos Proprietários de Canoas (APCBC), os trabalhadores das tototós implementaram um sistema de rodízio e reduziram o preço das passagens para competir com os ônibus, mantendo-se como única alternativa comercial de transporte pelas águas disponível a população geral da capital sergipana.



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Agora
Hoje, as tototós buscam novos horizontes para garantir sua permanência nas águas do Rio Sergipe. Além da tradicional travessia entre Aracaju e Barra dos Coqueiros, os barqueiros têm investido no turismo ecológico, com roteiros pelo Rio Pomonga, Boca da Mangaba e Ilha da Tartaruga. Eventos como o Aracaju de Tototó, realizado desde 2003, também fortalecem esse movimento ao unir preservação ambiental, educação patrimonial e valorização da história desse tipo de embarcação.
A geógrafa Acácia Maria Barros Souza, pesquisadora sergipana e coautora de um estudo sobre o patrimônio cultural naval das tototós, acompanha essa realidade há anos. Mestre em Geografia pela UFS e doutoranda na área, ela conta que sua relação com as embarcações começou ainda na infância. “Desde criança utilizo a tototó. Ela existe desde a década de 1940 e esse transporte deu certo. Depois chegou um concorrente forte, com as balsas e, posteriormente, a ponte. Mesmo assim, resistiu, mantendo travessias a cada 15 minutos”, explica.
Quando iniciou suas pesquisas, há mais de uma década, Acácia encontrou uma realidade bem diferente da atual. “Na época havia 23 embarcações, que não operavam apenas entre Aracaju e Barra dos Coqueiros, mas também em localidades como [os municípios de] Indiaroba e Laranjeiras. Existia ainda um atracadouro que fazia a ligação até a Atalaia Nova”, lembra.
Apesar do reconhecimento como patrimônio, Acácia afirma que os barqueiros ainda enfrentam dificuldades. Ela ressalta que “a principal reclamação é a falta de apoio institucional e de investimentos na infraestrutura. Muitos atracadouros precisam de reformas. Quando a Barra dos Coqueiros revitalizou sua orla, por exemplo, não havia previsão inicial para a reforma do atracadouro das tototós”.
Segundo a pesquisadora, os próprios trabalhadores passaram a construir alternativas para fortalecer a atividade. “Eles criaram um roteiro de turismo pedagógico pelo Rio Pomonga. São pessoas que conhecem profundamente a paisagem, a história e a cultura da região e começaram a se organizar para transformar esse conhecimento em uma nova oportunidade de trabalho”.
Ela pontua, ainda, que para que as tototós possam desempenhar um papel mais relevante na mobilidade urbana é necessário investir na modernização dos atracadouros, garantindo acessibilidade por meio de estruturas como píeres flutuantes. Ao mesmo tempo, as adaptações nas embarcações são limitadas, justamente por seu valor histórico e patrimonial.
Questionada pela reportagem sobre a existência de projetos de pesquisa ou implementação de transporte hidroviário fluvial no estado, a Secretaria de Planejamento, Orçamento e Inovação (Seplan) afirmou que “a gestão, regulação e fiscalização da prestação dos serviços de transporte hidroviário não constituem atribuições institucionais” e que, no âmbito da secretaria, “o tema encontra-se em estágio preliminar de avaliação, não havendo, até o momento, projeto de implementação em andamento ou EVTEA [Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental] concluído” sob sua responsabilidade.
A manifestação enviada à Mangue informa também que, “atualmente, a Seplan participa do projeto VerDe Tototó, iniciativa liderada pela Secretaria de Estado do Turismo (Setur), no âmbito do Programa Integrado de Desenvolvimento Cultural e Turístico de Sergipe (Viva-SE), voltada à valorização das embarcações tradicionais e das comunidades ribeirinhas da região de Aracaju”. O projeto, diz a pasta, “possui caráter turístico e cultural”, sem relação com qualquer iniciativa de implantação de sistema regular de transporte hidroviário”.
Para a pesquisadora Acácia, preservar as tototós significa manter viva uma tradição transmitida entre gerações. “É uma herança cultural passada de pais para filhos. Os canoeiros são um patrimônio vivo. Hoje eles se revezam nas travessias e, quando não estão trabalhando nas embarcações, precisam buscar outras fontes de renda para complementar o orçamento. Como a tototó é destinada exclusivamente ao transporte de passageiros, ela precisa ser incentivada também como atrativo turístico”, conclui.
“Os canoeiros são um patrimônio vivo.”
Acácia Maria Barros Souza, geógrafa e pesquisadoraLinha do tempo
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Possibilidades
A possibilidade de implantar um sistema de transporte fluvial para a mobilidade urbana da Grande Aracaju foi apresentada pelos arquitetos e urbanistas Murilo Guerra e Joyce Pereira em 2015, durante o governo Jackson Barreto, à época no PMDB. A proposta previa a instalação de 11 terminais distribuídos entre Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros, conectando este último município e bairros como Bugio, Soledade, Porto Dantas, Centro, Jardins, Coroa do Meio e Inácio Barbosa.
O sistema seria operado por embarcações do tipo catamarã integradas aos principais corredores do transporte terrestre, reduzindo o tempo de deslocamento para cerca de 20 minutos e aproveitando a extensa rede hidrográfica da região.
“Nunca entendemos por que Aracaju não tem transporte fluvial de passageiros, se há três rios que cortam a cidade – o Rio do Sal, o Rio Sergipe e o Poxim – além da maré do Apicum.”
Afirma Murilo Guerra, arquiteto e urbanistaSegundo ele, antes da elaboração da proposta, a equipe visitou Porto Alegre (RS) para conhecer o funcionamento desse modal e a empresa responsável pela fabricação das embarcações. Com autorização da Marinha, um catamarã foi testado em Aracaju no dia 22 de maio de 2015 para avaliar a navegabilidade dos rios e subsidiar os estudos técnicos necessários à implantação do sistema.
Os levantamentos identificaram que a maior dificuldade estava na região da maré do Apicum, onde o assoreamento exigiria obras de dragagem. Outro obstáculo era uma ponte sobre o Rio Poxim, cuja altura impediria a passagem da embarcação. “Nos demais trechos, não encontramos problemas na época”, explica Murilo.
Ele acrescenta que os projetos dos terminais foram apresentados ao Governo do Estado, à Marinha e à Secretaria de Infraestrutura, mas não avançaram. “Na época, a prioridade era o transporte por ônibus. Também não houve um estudo orçamentário por parte do governo. A ideia era que a implantação ocorresse por meio de uma parceria público-privada”.
Joyce Pereira destaca que, passados onze anos, a proposta continua viável, mas precisaria ser reavaliada à luz das transformações ocorridas nos rios e na cidade. “É possível implementar esse sistema, desde que sejam realizados novos estudos para avaliar os trechos, os pontos que precisariam de dragagem e a navegabilidade das embarcações”, afirma.
A arquiteta e urbanista explica que a escolha do catamarã ocorreu justamente por ele possuir o calado reduzido. Calado é o nome dado à distância entre a superfície da água e o ponto mais baixo do casco de embarcações; quanto menor a distância, maior a possibilidade de navegação em águas mais rasas.
A pesquisadora menciona que outra preocupação do projeto era minimizar impactos ambientais, pois “algumas paradas aproveitariam estruturas já utilizadas por pescadores. Apenas o terminal do Mercado seria uma construção maior, integrando o transporte fluvial aos demais modais”.
Para Joyce, o transporte hidroviário não substituiria os ônibus, mas funcionaria como uma alternativa complementar. Isso ocorre, por exemplo, em São Luís, capital do Maranhão, que conta com catamarã, lanchas rápidas e ferryboat para conectar a cidade à sua vizinha Alcântara. “A importância desse transporte é utilizar um recurso natural como meio de deslocamento. O sistema terrestre está saturado e o modal fluvial poderia contribuir para melhorar a mobilidade”, argumenta a pesquisadora.
Essa visão é compartilhada pelo professor Luiz Carlos, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia UFS. Segundo ele, a configuração urbana de Aracaju reforça a necessidade de diversificar os meios de transporte. “Aracaju é uma cidade plana e cortada por vários canais. Fora da área originalmente planejada, faltam vias largas e grandes avenidas, o que dificulta a circulação. Com o aumento da frota de veículos, os congestionamentos se intensificam e também cresce a emissão de poluentes”, afirma. O professor reforça que parte dos rios que cortam a capital são caudalosos e que essa seria uma alternativa de transporte essencial.
A arquiteta Juliana Couto, que há mais de dez anos desenvolveu uma monografia sobre a possibilidade de transporte fluvial entre Aracaju e Barra dos Coqueiros, também defende que o debate precisa ser retomado. “Somos uma cidade cercada por rios, que margeiam bairros com grande concentração populacional. Com o crescimento da demanda, precisamos pensar em alternativas além da construção de novas pontes”.
Apesar do potencial, os desafios incluem a definição das áreas para embarque e desembarque, a necessidade de dragagem em alguns trechos e a realização de estudos ambientais para minimizar impactos, o que envolveria o tipo de embarcação, para que seu ruído não afete a fauna fluvial.
“A dragagem é cara e exige licenciamento ambiental”, observa o professor Luiz. Para ele, há ainda um entrave relacionado às prioridades do poder público. “Há sempre uma preocupação em construir estruturas físicas, mas pouco interesse em utilizar os rios, que podem representar uma alternativa de deslocamento mais barata e menos poluente. Além disso, decisões desse tipo também podem enfrentar resistência de setores já consolidados, como o transporte por ônibus”.
Definir áreas de embarque e desembarque e integrar terminais aos demais modais.
Avaliar dragagens, assoreamento, altura de pontes e calado das embarcações.
Realizar estudos e licenciamento para reduzir impactos sobre os ecossistemas.
Começar pequeno
Diante dessa complexidade, Juliana defende que a implantação do transporte fluvial comece por um projeto-piloto em um trecho menor, a exemplo do trecho do Mercado Municipal à região do Shopping Riomar, ou em um percurso até Nossa Senhora do Socorro. Segundo ela, a expansão poderia ocorrer gradualmente.
“Em um segundo momento, seria possível avançar até o [bairro aracajuano do] Inácio Barbosa e, depois, [ao município de] São Cristóvão. Nesses trechos, seria necessária a realização de dragagens, porque o rio é navegável apenas até determinado ponto. Acredito que essa é uma alternativa viável, além de oferecer um trajeto muito mais agradável. A ideia é plantar uma semente”.Afirma Juliana Couto
Além da mobilidade urbana, Juliana defende que os rios de Aracaju sejam incorporados às estratégias de desenvolvimento turístico da capital. Para ela, o potencial das vias navegáveis ainda é pouco explorado, tanto para o lazer quanto para a economia local. “Vemos muito pouco os rios de Aracaju sendo utilizados para o turismo. São poucas iniciativas. Poderíamos ter passeios de contemplação, turismo de pesca e até roteiros integrados ao litoral. Acho que é necessário voltar esse olhar para os nossos rios”, sugere a urbanista.