Antes mesmo de o Brasil ser invadido por europeus, alguns vários deles já andavam por aqui, banhavam-se em mim, conheceram meu tamanho e minha força, mas não entenderam nada, não escutaram meus filhos.
Chegaram e logo começaram a me explorar quando perceberam que tinha um corpo bastante grande, forte e ligava vários lugares.
É triste dizer, mas desde o começo dessa exploração fui transformado em meio de negócio para o lucro, nunca entendi isso direito. De Opará, pai e mãe de tantos povos virei um rio-estrada por ser navegável, um caminho, um meio de escoamento.
Quando a cana-de-açúcar tomou conta de quase toda mata litorânea do Nordeste, a Coroa Portuguesa proibiu a criação de gado perto dos engenhos. Não queriam pastos por lá, somente cana.
Rapidamente vi aparecer em minhas margens muitos bois que foram empurrados para cá. Em mim, matava a sede de muitas léguas andadas. Foi assim que me transformaram no rio dos currais.
Em minhas margens foram ficando fazendas de gado e cidades surgindo. Minha gente, que vivia em mim, foi expulsa, não podiam chegar mais perto de mim. Os que desobedeciam eram mortos sem piedade. Nunca tinha visto isso. Não entendia o porquê de tamanha violência.
Lembro bem que foi lá pelo ano de 1650 que começou uma carnificina.
Homens brancos com roupas esquisitas chegaram por aqui e diziam que tinham sido mandados por uma tal Casa da Torre, de uma família chamada Garcia d’Ávila. Falavam em uma “guerra dos bárbaros”. Contra quem? Que bárbaros eram esses?
Não gosto nem de lembrar, mas por muitos anos fui tingido pelo sangue de meus filhos, que passaram a ser chamados de bárbaros. Nunca entendi isso.
Escutava nomes como Mem de Sá, Garcia d’Ávila, Cristóvão de Barros e com eles uma chuva interminável de morte. Lembro das chacinas contra os Caeté, em 1562; os massacres em Sergipe em 1590. Como esquecer a mortandade dos Massacará, onde tropas de bandeirantes destruíram aldeamentos inteiros no sertão baiano para abrir caminho para os currais de gado, dizimando meus Kiriri.
Junto com tanta violência e destruição vi nascer em minhas margens moradas de muita gente. Lembro bem de Penedo e Igreja Nova; de Neópolis e Propriá; de Januária, São Romão e Pirapora; de Barra, Carinhanha e Xique-Xique; de Santa Maria da Boa Vista, Cabrobó e Petrolina; de tantas outras.
Hoje, em minhas margens e bem próximo de mim estão 505 cidades, isso sem contar os milhares de povoados.
A fama de “rio dos currais”, que sempre rejeitei, acabou, mas continuam achando que sou apenas estrada e que gero energia. Não gosto disso.
Em um tempo até me chamaram de “Rio da Integração Nacional” porque ligava vários cantos do país, passando por mim boiadas, diamantes, sal, açúcar e muitos bandeirantes para matar meus filhos mais queridos. Integração porque dizem que ligava o Sudeste minerador e cafeeiro ao Nordeste agrário, o da cana-de-açúcar.
É triste dizer, mas essa violência continua hoje em diversas formas. Ainda existem vários conflitos por terra com os remanescentes de meus filhos primeiros, como ocorre em Rodelas, na Bahia, com os Tuxá. São expulsões, perda de territórios e apagamento cultural.
Fecham e abrem as represas que fizeram em mim sem avisar e inundam as terras sagradas; movo turbinas, gero energia, mas sangro com o assoreamento de minhas margens, com os agrotóxicos do agronegócio que são jogados e que escorrem até mim, além da salinização que sobe em mim vinda do oceano.
Apesar da dor, continuo fluindo perene e o que me anima são as tantas cantigas das lavadeiras de Pirapora, a fé dos romeiros de Bom Jesus da Lapa, o suor dos pescadores de Penedo e as poucas carrancas que navegam em mim para afastar os maus espíritos.
Sou Opará e minha história recusa o esquecimento.