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Percursos que levam ao “13 de maio”: dos questionamentos as necessidades de outras aprendizagens sobre o famigerado dia inacabado…

Talvez a definição mais precisa sobre o inacabado “13 de maio” é que estamos aprendendo sobre ele, com ele e por ele. Diante desses aprendizados ou reaprendizados estamos criando percursos para essa data marcadamente importante na História do Brasil e nas nossas vidas nacionais.


O que essa data nos impõe, nos comove, nos garante, nos explica? Do que dela ou nela nós engolimos ou escarramos?

Certamente o “13 de maio” vive sua disputa mais intensa: de sentidos, sejam os materiais ou simbólicos ofertados ao marco histórico. No percurso da data, já passamos pela fase da denúncia, da reivindicação, da reelaboração. Hoje, depois das garantias dessas outras fases, estamos reaprendendo do que se tratou a “Abolição”, observando seus efeitos, seus resultados e suas provocações. Começando a se tornar clássica a pergunta: Abolição para quem? ou como se efetivamente procedeu a Abolição? Para as perguntas, temos organizado novas respostas, estamos em franco processo de atualização da nossa gramática histórico-racial abolicionista.


Por isso, atualizar a data da Abolição da Escravatura no Brasil tem significado o quê? Considero, especialmente, que são atualizações aos nossos repertórios sócio raciais. Permitindo assim, que façamos a compreensão que são desses momentos históricos que nascem também as nossas desigualdades, as nossas violências, as nossas desumanidades (e veja, você, que me lê: uma data fortemente propagada como ato de humanidade, se converteu na continuidade das desumanidades para com a comunidade negra brasileira), e, por fim, mas não exclusivamente, os nossos racismos. Mesmos os nossos decréscimos econômicos podem (e devem!) ser creditados a esse marco – mascarado -. Afinal, quem já pensou um país que se pretendia sério não oferecer cidadania em proporções equitativas, igualitárias a todas e todos seus habitantes? Evidente que a tal emenda da ‘Abolição’ seria tão pior quanto seu falso soneto assinado pela princesa Isabel.


Aumentar o nosso repertório – a partir de questionamentos a respeito do 13 de maio – é se retirar das perspectivas maniqueístas em que fomos ensinados acerca da Libertação e da Liberdade de africanos e seus descendentes. É ressituar papéis históricos: Afinal, quem efetivamente foi a Princesa Isabel no contexto da Abolição? E os/as Abolicionistas? Será que em 1888 no último país que mantinha um regime desumano não existisse vivalma que contestasse esse cenário? Ao que parece, tinha. Eram muitas e muitos, em diversas posições, ocupações e condições. E pasmem: um contingente amplamente formado por pessoas negras. Ou seja, leitor/a, Isabel não libertou todo mundo não. Pessoas negras livres já estavam em diversas mobilizações. Demonstrando assim, que existiram estratégias negras criadas em pleno funcionamento/andamento, pululando nos diversos cantos do Brasil. Mas, bom, onde nos ensinam sobre isso? Ou será que nós carregamos tanta ingenuidade em considerar que pessoas subjugadas aceitavam passivamente uma condição de violência (aproveito, e pergunto a quem lê: você aceitaria?)


Por isso, mas não só, ele, o 13 de maio, é inacabado, segue incompleto, recheado de contradições, descartes e inclusões. Também preenchido por ilusões, e diria até fake news, para ser demasiadamente contemporânea junto a essa data histórica. Afinal, quer fake news maior que oferecer um protagonismo e agência a uma única representante, desconsiderando as lutas, as estratégias, os recursos e as sabedorias da comunidade negra que se engajava em prol das suas e dos seus. Por isso, considero que estamos no percurso de um dia inacabado que nos provoca diurnamente a construir outros entendimentos sobre o que é e foi a luta pela Liberdade, pela Libertação Negra. E hoje, fundamentalmente, o 13 de Maio nos convoca ao exercício de nos libertamos da redutora perspectiva em que fomos ensinados a entender sobre esse dia que não findou…


Yérsia Souza de Assis – Preta nagô do Samba de Aboio/Festa de Santa Barbara. Ekedji no Ilè Àsé Ìyá Ágbà L’odò Omiró. Doutora em Antropologia (UFSC). Professora Adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

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