Águas do Rio São Francisco em movimento

Sou o Rio São Francisco, mas podem me chamar de Opará



Texto: Cristian Góes
Projeto gráfico: Paulo Marques
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Sou cada gota que brota, escorrega, engrossa e gera vida em grande parte do Brasil. Muito antes de ser chamado de São Francisco, não o santo, mas o rio; muito antes do apelido carinhoso de Velho Chico, nem me sinto tão velho assim, minha gente Tuxá e tantas outras que nasceram em mim me chamavam de Opará porque elas sabiam que caminho até o mar.

Segundo os cientistas, nasço a mais de 1.200 metros de altitude, lá em cima, não fiz essa conta, mas acredito. É, venho do coração da Serra da Canastra, lá pelos lados do município de Medeiros, em Minas Gerais, mas antes tudo era São Roque de Minas.

Não ando só nesse mundão, correm comigo vários outros parentes líquidos e que o pessoal chama de afluentes, como os rios das Velhas, Grande, Paracatu, Carinhanha, Corrente.

Não sei o porquê de Deus ter escolhido aquela serra nas Minas para eu começar a brotar, mas deve ter alguma explicação que não sei dizer.

Broto como fio d’água tão pequeno, tímido demais, mas vou tomando corpo e rasgando mais de 2.863 quilômetros de território brasileiro, cruzando as Minas Gerais, a Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, até encontrar o todo poderoso Oceano Atlântico. Sim, a força do oceano é enorme, mas também tenho a minha, sou grande, perene e totalmente brasileiro.

Marco da nascente do Rio São Francisco em meio à vegetação

Disse que saio das Minas Gerais e vou ao encontro do Atlântico. Era assim. Era, agora, na verdade, é o mar quem tem me encontrado, é o sal que ele traz quem tem avançado sobre mim. Você sabia disso?

Eu lhe convido para vir aqui na foz, entre os municípios de Brejo Grande, em Sergipe, e Piaçabuçu, em Alagoas. Venha cá. Todo ano, a água salgada do mar entra mais em mim, e vai avançando com uma força absurda, mas não é culpa dele. Eu ando bem fraco e isso também não é minha culpa.

De um lado, várias barreiras foram colocadas em meu curso, o pessoal chama de represas, de hidrelétricas. Além disso, tiram água de mim para tudo e levam para bem longe. Meu fio d’água na nascente não suporta e estou cada vez mais fraco.

Por outro lado, o volume do mar tem crescido ano a ano, falam de aquecimento global, de degelo, poluição, são tantos desequilíbrios que a água salgada avança sobre mim sem pena. Não tenho força para descer e o oceano me encontra aqui dentro. Isso dá tantos problemas.

Ah, mas deixa eu voltar um pouco de minha história.

Representação em aquarela da chegada europeia e do encontro com povos originários
Povos originários reunidos em representação de aquarela

Lembro que um senhor chamado Américo Vespúcio chegou por aqui lá pelo início do mês de outubro de 1501. Ele e outros aqui encontraram em minhas margens os Tuxá, Xokó, Caetés, Truká, Pankararu, Fulni-ô, Kiriri, Kaimbé, Payayá e tantos outros filhos que também me chamavam de Opará.

Mas o italiano me batizou de Rio São Francisco. Eu mesmo nem sabia quem era esse Francisco. Contaram-se que era um santo de Assis e um protetor da natureza. Tudo bem. Até gostei. Mas não demorou muito e minha gente me apelidou de Velho Chico. Gostei também.

Olhe, não há diferença entre minha gente e eu, somos uma coisa só, uma divindade só, pai e mãe para o sustento, sendo eu lugar também de vida e muita vida. Sim, sempre fui alimento e cura e eles filhas e filhos queridos a me proteger.

Pessoa indígena em meio às águas, em aquarela

Minha gente sempre entende minhas cheias e secas, o tempo de desova dos meus filhos-peixes, o dia melhor para o banho. Todos sabem quando a vazante deixava a terra fértil nas minhas margens, e tem milho, mandioca, arroz, frutas, tudo sem rasgar meu solo ou derrubar as matas que me protegem.

O problema é que isso foi se modificando. Olhe, vi tanta coisa nesses mais de 500 anos que até Deus duvida, mas vou lhe contar algumas delas. Por hoje é só, mas volto logo.