Águas do Rio São Francisco entre serras de Minas Gerais

Minha história pelas serras e curvas das Minas

Texto: Cristian Góes
Projeto gráfico: Paulo Marques
O

Depois de muitos anos, falaram-me que eu tinha nascido em Minas Gerais. Não sabia que esse lugar do meu nascedouro se chamava assim. Uns diziam ser São Roque de Minas, lá no alto das serras, sendo a principal a da Canastra. Se é assim, tudo bem, que seja.

O que lembro são as primeiras visitas naquele lugar dos Xakriabá, Kaxixó e Maxakali, que me chamavam de Opará, apenas de Opará, e eu lhes dava muitos curimatás e surubins. Era tempo de fartura.

Minha gente falava comigo, sabia de minhas cheias e respeitava estas velhas águas que todo dia se renovavam. Não seco nunca. Ah, e nessas águas os curumins faziam uma festa. O fato é que lá, do alto da Canastra, ganho fôlego e me espalho pelo Brasil.

Lembro que houve um tempo em que a situação não foi boa: foi quando vi chegar a mim muitos invasores de lugares distantes, gente vestida de modo engraçado, mas que de graça não tinha nada. Vi o sertão mineiro sangrar e o sangue escorrer em mim.

Lembro-me até de dois nomes famosos: Fernão Dias e Matias Cardoso de Almeida. Com armas que eu nunca tinha visto, cuspiam fogo em minha gente. Um dia desses, soube que esses dois e outros eram bandeirantes e que toda aquela violência dele tinha começado no século XVII.

Confesso, não sei contar o tempo assim. O que sei é que essas bandeiras subiam por minhas correntes atrás de ouro e pedras preciosas. Matavam os meus filhos queridos, escravizavam os meus; em minhas margens e perto de mim, cavavam a terra. Perto de mim, levantavam currais, arraiais e vilas. Onde havia minha gente vivendo em aldeias, aqui pertinho, tudo era destruído e queimado. Ô povo perverso! Uma tristeza sem fim, morte e exploração sem fim. Vi tudo isso.

Embarcações atravessam as correntezas do rio entre serras e povoados

Essa destruição toda, que eles chamavam de exploração, de civilização, precisava de carne para alimentar a população que crescia nas minas daquelas serras. O meu leito virou rota natural para a expansão do gado.

Vi uma vila nascer aqui no Norte de Minas e até lhe deram o nome de Matias Cardoso. Como é que pode isso? E lá ergueram uma igrejinha e deram-lhe o nome de Nossa Senhora da Conceição. Dizem que isso foi lá pelos anos de 1670. Ao lado, apareceu Pedras de Maria da Cruz, um ponto de travessia do gado.

Sempre dei água e peixes para alimentar esse povo, e eles matavam os meus, cavavam as terras, destruíam matas, erguiam currais, escravizavam os sobreviventes das matanças e abriam os caminhos do sertão.

Logo adiante, aqui pertinho, surgiu Januária, mas antes era chamada de vila do Porto do Sal. A partir dela, levava-se o sal que subia da Bahia para abastecer o rebanho mineiro. O povoamento avançou com o trabalho dos remeiros, homens negros e mestiços que enfrentavam minhas correntezas no braço. Pertinho dali, apareceu também outra a vila, a de Pedras de Cima, bem nas minhas margens. Depois de muito tempo, esse povoado virou a cidade de São Francisco.

Aproveitando meus períodos de vazante, homens, mulheres e crianças criavam lindas criaturas de barro. Uma sabedoria que eu nunca tinha visto e de que gostei assim que vi.

Mulheres e crianças vivem e trabalham às margens do rio

Ah, lembro-me também de Pirapora, nascida em razão de ser um entreposto, mas lá as pedras e a força de minhas águas têm peso decisivo desde antes da navegação. Nessa minha parte de pedras e correntezas, minha gente Kiriri vivia tranquila e os meus peixes pulavam em suas mãos. Eram tantos que o lugar foi chamado pelos Kiriris de pira-pora, o peixe que salta.

Os tal bandeirantes vinham com muita força, arrasavam tudo e levantavam uma igreja. Minhas margens mineiras não viram orações, mas a fumaça das queimadas, a exploração sem medida, o estalar dos chicotes da civilização, o trabalho escravizado e o sangue derramado de minha gente.

Vi essas cidades nascerem do barro, da madeira e da pedra. Vi o surgimento de Três Marias, Manga, Itacarambi e de dezenas de comunidades ribeirinhas que ainda resistem nas minhas margens.

Sou a água que move o sertão, mas preciso que protejam meu leito para que eu continue a fluir. Em muitos lugares de Minas, pareço até um oceano de tão largo, mas não se engane com tudo isso. Desde a chegada dos invasores, sofro as consequências da exploração, uma violência que parece não ter fim.

Cachoeira corre entre pedras e vegetação de Minas Gerais

Hoje, principalmente, há o avanço do agronegócio e da monocultura de eucalipto na bacia do Cerrado, que retira a vegetação nativa das minhas margens; sem a proteção das árvores e matas, a terra cai em meu leito, deixando-me raso. E, para piorar, ainda há o represamento contínuo de minhas águas para irrigação, o que reduz minha força biológica antes mesmo de eu cruzar a fronteira com a Bahia.

Não só em Minas, mas em todo o meu percurso até a foz, várias cidades lançam seus esgotos diretamente em meu curso ou em afluentes, meus irmãos rios das Velhas e o Paraopeba. Além disso, não me esqueço do trauma dos desastres em bacias vizinhas, e o extrativismo mineral nas cabeceiras sobrecarrega minhas águas com metais pesados e resíduos tóxicos.

Bom, continuo fluindo, teimoso, sagrado e vivo, pois as lavadeiras, os pescadores e os povos tradicionais ainda resistem e cantam nas minhas margens, pedindo que o Velho Chico não morra. Quase ninguém mais me chama de Opará.