Em entrevista exclusiva à Mangue Jornalismo durante visita a Aracaju, Samara Martins também elencou a reforma agrária, reestatização de empresas privatizadas e ‘nacionalização’ dos meios de comunicação como prioridades de eventual governo.

Samara Martins, 38, é dentista, mãe de dois meninos e candidata à Presidência da República pelo partido Unidade Popular (UP) nas eleições deste ano. Socialista, foi vice-candidata na chapa presidencial de Leo Péricles, do UP, em 2022.
A postulante ao Palácio do Planalto iniciou sua militância política ainda na juventude, quando atuou como diretora de Mulheres da União Nacional dos Estudantes (UNE) e integrou a Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande BH (AMES-BH). É coordenadora nacional da Frente Negra Revolucionária, organização fundada em 2025.
Samara encabeça uma chapa 100% feminina ao lado da guarda-portuária e sindicalista paraense Raquel Bricio.
À Justiça Eleitoral, a candidata declarou um patrimônio de R$ 33 mil, o menor valor entre os candidatos que declararam bens. O montante diz respeito a um automóvel modelo Uno Vivace, R$ 29 mil, e R$ 4 mil em conta poupança. Brício, por sua vez, disse ao TSE não ter bens a declarar.
Em entrevista exclusiva à Mangue Jornalismo durante agenda em Aracaju, no último dia 25 de agosto, a candidata da UP afirmou que, se eleita, suspenderá o pagamento da dívida pública, que soma R$ 10,9 trilhões, o equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que corresponde à soma dos bens e serviços produzidos pelo país. A medida, segundo ela, abriria espaço no Orçamento para ampliar investimentos em políticas públicas nas áreas de saúde e educação.
Além disso, defende dobrar o salário mínimo, a reestatização de empresas privatizadas e maior controle estatal sobre setores considerados estratégicos, como água, energia e petróleo. “O Brasil é um país extremamente rico e, mesmo assim, seu povo vive extremamente empobrecido”, disse.
Para a segurança pública, as propostas de Samara Martins envolvem a geração de emprego, moradia, saúde e educação em substituição ao que classifica como uma política centrada em “repressão policial, encarceramento e genocídio da população negra nas periferias”.
Confira os destaques:
Mangue Jornalismo (MJ) – Você é uma das duas únicas candidatas mulheres à presidência da república neste ano. E é uma candidata socialista. Como você se enxerga como candidata diante de um país tão machista e polarizado?
Samara Martins (SM) – É uma pena que mesmo, que em meio a uma população majoritariamente feminina e negra, nós tenhamos uma sub-representação tanto de mulheres quanto de negros nos espaços de poder e de decisão. E nós [a Unidade Popular] representamos, inclusive, a classe trabalhadora, que também é sub-representada nesses espaços.
O Congresso, a Câmara dos Deputados, o Senado, ele é composto majoritariamente por grandes empresários, por representantes de bancos, por representantes do agronegócio, que antes a gente chamava de latifundiários.
Então, representar as mulheres, as mulheres trabalhadoras, nessas eleições tem uma importância muito grande, não só pelas propostas em si, mas para poder fazer uma demarcação de que as mulheres podem pensar a política, a economia e todo o andamento da sociedade. A maioria da classe dominante considera que as mulheres não devem estar nesses espaços. Inclusive, vem crescendo uma campanha contra a participação das mulheres nas candidaturas e contra o voto feminino, o que é um atraso em tudo que a gente já avançou no movimento feminista internacional.
MJ – O Brasil saiu do Mapa da Fome, mas ainda temos crianças e adultos em situação de pobreza. A desigualdade social brasileira é enorme. Você propõe um aumento de 100% no salário mínimo. Somos economicamente capazes de alcançar isto? Quais outras políticas públicas você pretende adotar para combater a pobreza e a desigualdade social?
SM– O Brasil é um país extremamente rico, está entre as 10 potências do mundo e, mesmo assim, o seu povo vive extremamente empobrecido. Nós temos dito esse slogan: “o Brasil saiu do mapa da fome, mas a fome não saiu do Brasil”. Porque criou-se um outro conceito de insegurança alimentar severa, que é exatamente a fome num outro conceito, porque as pessoas não comem em todos os horários, as três refeições, elas não comem todos os nutrientes necessários para poder se desenvolver. Então, às vezes não come carne, vai tirando vários itens porque não é possível mais sustentar.
Então, nós defendemos que haja um aumento de 100% do salário mínimo, porque com R$ 1.621 não dá para poder garantir a cesta básica, garantir o aluguel, garantir o botijão de gás, manter uma família. Porque segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), um salário mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser mais de R$ 7.000 [R$ 7.687,01]. E se a gente pensar que países que têm economias menores que a do Brasil têm salários maiores, seria extremamente possível que no Brasil também tivesse.
Na Paraíba, os trabalhadores da limpeza urbana têm uma remuneração de R$ 3.200, mais ou menos, a partir da luta que eles organizaram, das greves, das paralisações. Eles também reduziram a jornada de trabalho, que é o que a gente tem defendido. Acabar com a [escala] Seis por Um, garantir o Cinco por Dois, um aumento de 8% e ter uma remuneração de R$ 3.200. Então, é possível.
Só que existe [no Brasil] um teto de gastos, que hoje se chama Arcabouço Fiscal, que limita em 2,5% o aumento salarial e os investimentos nas áreas sociais. Essa limitação garante o pagamento da dívida pública. Nós defendemos que a dívida deve ser auditada e suspensa.
MJ – O Brasil, assim como aqui em Sergipe, é recordista em violência policial. E ainda assim, discute-se a segurança pública de forma desumanizada. Como você discute esta pauta e como a sua atuação na Frente Negra Revolucionária se insere nisso?
SM – Eu participei na fundação da Frente Negra Revolucionária e sou coordenadora nacional da FNR. E a gente tem dito que a segurança pública tem sido discutida nas últimas décadas como uma questão de repressão policial, de encarceramento, de genocídio da população negra nas periferias. Discutir segurança pública é discutir áreas sociais, é discutir geração de emprego, é discutir acesso à educação, é discutir acesso à saúde, é discutir moradia.
Porque se fosse verdade que segurança pública está no ponto de encarcerar mais as pessoas, nós seríamos hoje o 3º país mais seguro do mundo, porque já somos a 3ª maior população carcerária do mundo. O que acontece é que as polícias militarizadas entendem o seu povo como inimigo. Então, fazem o teatro da guerra às drogas, do combate à criminalidade, mas, na verdade, cooperam com o lucro de bilhões de reais. Então, combater a criminalidade, garantir segurança pública precisa ser distribuir renda, garantir igualdade social para as pessoas.
Eu sou dentista em um presídio, lá no Rio Grande do Norte. Então, eu tenho vivido muito esse debate, inclusive vendo que lá nos presídios estão, principalmente, os jovens, negros, pobres, sem nem julgamento, estão presos lá. Então, é uma questão de classe, é uma questão de raça, e por isso a gente tem denunciado o quanto isso é nocivo para a nossa sociedade.

MJ – Você é uma profissional do SUS e sabe na prática quais são os gargalos e as qualidades do sistema de saúde público. Quais são as suas propostas para saúde?
SM – Eu sou defensora do SUS, sou sanitarista. Nós só conseguimos avançar para a criação do SUS com a luta dos trabalhadores, da sociedade civil, para que saúde não fosse mais um privilégio, fosse um direito.
Antes, as pessoas não tinham acesso à saúde como tem agora, e isso não está mais na cabeça dos brasileiros. Nós não lembramos que não existia posto de saúde, que só tinha acesso à saúde quem garantia o pagamento do INSS, quem tinha carteira assinada, ou então quem ficava à mercê das filantropias. O SUS foi um avanço fundamental para a saúde pública como um direito universal, integral e equitativo.
Só que desinvestem no SUS. Nesses últimos 10 anos, o SUS perdeu 64% do seu orçamento, na lógica de tratar a saúde como uma mercadoria, de valorizar as empresas de plano de saúde, de poder fazer lucrar as Organizações Sociais que gerem o sistema de saúde, de fazer as parcerias público-privadas. Isso é privatizar a saúde, e nós não podemos admitir.
Então, nossa defesa é mais investimento para a saúde. Deixar de pagar a dívida pública e investir na saúde é uma das propostas. Assim como combater os planos de saúde que dificultam procedimentos.
Todo mundo usa o SUS. No fim das contas, até quem tem plano de saúde depende do sistema público em algum momento. Por isso, defendo o fortalecimento do SUS, com uma estrutura melhor e um atendimento de mais qualidade. Isso passa também pela valorização dos profissionais da saúde. Como profissional da área, tenho lutado pelos pisos da categoria, porque somos trabalhadores precarizados atendendo, muitas vezes, outros trabalhadores precarizados.
MJ – Como a União vai parar de pagar a dívida pública?
SM – Nós temos defendido a auditoria da dívida pública, que hoje leva 42% do orçamento do nosso país, R$ 1,8 trilhão. Na Constituição já tem uma prerrogativa que é garantir a auditoria, quer ver se realmente é justo isso que tem sido pago, porque hoje a gente paga os juros e as amortizações.
E o que a Auditoria Cidadã da Dívida tem dito é que é uma dívida ilegal, que já foi paga inúmeras vezes, e a gente continua pagando. O sistema da dívida serve ao lucro dos banqueiros, aqueles que investem na dívida pública para o rentismo. Nós defendemos tanto auditar, que já é uma prerrogativa constitucional, mas também suspender o pagamento dessa dívida, para que esse recurso seja utilizado para o povo, para as áreas sociais.
MJ – O Brasil registrou 1.571 casos de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de cerca de 4% em relação ao ano . Qual é a sua proposta para combater esse problema tão devastador e insistente?
SM – Infelizmente, nós somos um país que mata muitas mulheres, são quatro mulheres vítimas de feminicídio todos os dias. A cada 6 minutos, uma mulher ou uma criança é estuprada no nosso país. Por isso lançamos uma chapa 100% feminina.
A nossa proposta é acabar com a violência contra as mulheres e o feminicídio, criando condições materiais para que isso aconteça. Não é só uma questão de discurso, não é só um debate contra a misoginia, que deve ser criminalizada, mas é também garantia econômica.
É preciso garantir moradia para essas mulheres, para que elas não tenham que morar na casa dos seus agressores. Garantir renda, salário digno, para que essas mulheres não dependam financeiramente dos seus agressores. Garantir creche, para que elas possam deixar os seus filhos e saírem da situação de violência. E garantir espaços de acolhimento, de enfrentamento às violências contra as mulheres.
E num sentido mais ideológico, é preciso que nas escolas também se faça uma formação não sexista, não machista, não patriarcal, em que a criança cresça entendendo que há igualdade entre os gêneros e não uma superioridade do gênero masculino sobre o gênero feminino.
MJ – Grande parte dos candidatos vêm prometendo aumentar o número de escolas integrais. Quais são suas propostas para a educação no Brasil?
SM – Nós defendemos 10% do PIB para a educação, que é algo que já foi aprovado no Plano Nacional de Educação de 2014. Já era para isso acontecer hoje, mas nós temos menos de 4% do orçamento destinado à educação. Isso acontece por causa do pagamento da dívida pública, que faz os cortes nas universidades, que diminui os investimentos em educação fundamental e média, e não garante universalidade no ensino infantil.
Nós defendemos escolas integrais e universalidade no ensino infantil. As mães (eu sou mãe de um filho de 2 anos) têm muita dificuldade em conseguir vaga nas creches públicas.
Também vamos fortalecer a educação fundamental e o ensino médio, e universalizar o ensino superior, que é garantir o livre acesso à universidade para todos os estudantes. O Brasil tem dinheiro para garantir a educação. E isso é garantia de soberania, porque investir em educação, em ciência e em tecnologia é garantir a soberania de um país.
Temos que valorizar os profissionais da educação, garantir o piso salarial e planos de carreira. Eles são fundamentais para que a gente tenha um país soberano.
MJ – O país enfrenta cada vez mais desastres climáticos, efeitos do aquecimento global e não se compromete a substituir as fontes de energia não-renováveis. O que você propõe para o meio ambiente?
SM – A natureza tem sido transformada numa mercadoria. Rios e florestas têm sido privatizados. Os povos indígenas deram a linha de como deve ser feita essa luta, porque na tentativa de privatizar o rio Tapajós, o rio Tocantins e o rio Madeira, indígenas ocuparam a empresa Cargill, que é uma das maiores do agronegócio do mundo. O agronegócio hoje está destruindo a natureza.
Nós defendemos menos investimento no agronegócio e mais investimento na agricultura familiar, na agricultura camponesa, que produz 70% dos alimentos que o Brasil consome.
Não há necessidade de desmatar mais nenhum centímetro de terra no nosso país para garantir a produção. A lógica de mercado faz se destruir tudo para garantir a exportação, para garantir mais lucro para empresas internacionais. E as remessas de lucro dessas empresas nem são taxadas, nem ficam no nosso país, vão para suas matrizes.
MJ – Suas propostas falam em desenvolvimento do país? Quais serão suas ações para geração de emprego?
SM- Reprimir e usar a economia do país é um erro enorme. Comportar-se como um país dependente, como um país colônia, é um erro enorme. Nós precisamos reindustrializar o nosso país e industrializar setores que nunca foram industrializados.
Nós precisamos criar frentes emergenciais de trabalho para chamar o nosso povo a assumir postos que podem resolver grande parte dos nossos principais problemas – da habitação, da moradia na construção civil, do saneamento básico, chamando-o para a construção do parque industrial.
Também defendemos a reforma agrária. Então você leva de volta várias das pessoas que vieram para as grandes cidades para trabalhar na produção. Você gera emprego nesses territórios.
MJ – Aqui em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri privatizou a água com a venda da companhia pública, a Deso. Você propõe a reestatização de empresas privatizadas. Como isso se dará? Estamos falando de quais empresas?
SM – A privatização está na linha de política econômica de governos do PL (Partido Livre), do Partido Novo, mas também do PT (Partido dos Trabalhadores). E isso coloca as pessoas à mercê de uma conta de água maior e de um serviço de péssima qualidade. Quase todos os estados com companhias privatizadas relatam que têm tido falta de água em vários horários. Então, isso significa precarização do serviço, porque a empresa que compra as empresas públicas quer lucro.
Nós somos terminantemente contrários à privatização das empresas estratégicas – água, luz, petróleo e terras raras. Todos esses setores estratégicos para o desenvolvimento de um país não devem ser privatizados.
Defendemos nacionalmente, mas que os estados também sigam nessa lógica. Então, a lógica de ter um plano de privatização de empresas é um crime contra a humanidade. Que a gente reestatize as que já foram privatizadas. Isso vale para a Petrobras, que já está consideravelmente privatizada e para a Vale do Rio Doce, que foi também entregue a preço de banana.
MJ – Como esse processo de reestatização das empresas se dará?
SM – Nós entendemos que esse é um projeto de enfrentamento às classes dominantes, que não vão aceitar pacificamente que ele aconteça. Por isso, nós temos como prerrogativa a mobilização popular. Pesquisas mostram que o povo não defende as privatizações. Mesmo assim, os representantes do povo seguem privatizando.
Nossa proposta é, já no primeiro ano, chamar o povo para poder participar dessas decisões e ir para o enfrentamento de classes.
MJ – Não se tem mais notícias de políticas públicas para a Cultura no Brasil. Quais suas propostas para esse setor?
SM – Defendemos a nacionalização dos meios de comunicação e de cultura. E isso tem sido assustador para grande parte das pessoas, mas a gente tem dito: por que não existe hoje uma empresa nacional, por exemplo, de filmes? Por que não temos uma TV nacional que dê espaço para os artistas nacionais?
Por que não temos teatros financiados com dinheiro público, para que os artistas possam produzir? Também devemos valorizar essas culturas que já são desenvolvidas nos territórios, como o hip hop e a capoeira?
Então, nacionalizar isso também é necessário, porque hoje há um monopólio da cultura. E a cultura faz parte do desenvolvimento do nosso povo. É garantir memória do nosso povo.
Na lógica do capital, cultura é vendida se dá lucro, não por ser necessária para o desenvolvimento de uma sociedade. Nós precisamos fomentar a cultura e a comunicação de maneira nacionalizada e não monopolizada, como acontece hoje no nosso país.
MJ – Sendo eleita, quais serão seus atos no primeiro dia como presidente?
SM – Nos primeiros 100 dias, nós vamos suspender o pagamento da dívida pública, nós vamos criar frentes emergenciais de trabalho, aumentar em 100% o salário mínimo, reduzir a jornada de trabalho, acabar com a jornada seis por um e garantir o início da reforma agrária.