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A força da representação da mulher no cordel em Sergipe. Cordelteca em escola de Nossa Senhora da Glória faz homenagem a cordelista negra Alda Cruz

KÁTIA AZEVEDO, especial para Mangue Jornalismo

Às marisqueiras de São Cristóvão

O mar está para o peixe

E o peixe está para o mar

O peixe está para a rede

É só você saber pescar

Bem como está o marisco

Esse precioso petisco

Que você pode apreciar

As marisqueiras cristovenses

Exímias profissionais

Uma profissão tão nobre

Levam cestos ou bornais

Seguem as regras do IBAMA

Constroem luvas com lama

Sempre estão de alto astral
(Alda Cruz, cordelista)


O negro e a sua consciência


A batalha é contra o racismo

Vai além dos “mimimis”

Racismo estrutural e velado

Reflexo fácil de sentir

Discriminação que perdura

Já incorporada à nossa CULTURA

Temos que admitir.

A população negra

É violentada e sofrida

Violentada pelo preconceito

Pela discriminação da mídia

Castigada com chicotada

E cuja alma ensanguentada

Expõe a dor da sua vida
….
(Alda Cruz, cordelista)


Nos versos rimados da literatura de cordel, Alda Santos Cruz, mulher preta, idosa, nordestina de Aracaju, é uma voz feminina potente e uma das principais expressões culturais da literatura da poesia popular no Brasil. Ela é uma das grandes cordelistas no Brasil e símbolo de resistência negra e feminina da literatura popular, uma voz que resiste à invisibilidade histórica das mulheres nos espaços culturais predominantemente masculinos.

Às vésperas de completar 94 anos, Alda Cruz é um exemplo pulsante das mulheres cordelistas que fazem dessa arte um oficio militante e espaço de resistência feminina na sociedade. A força do seu trabalho chega agora em uma escola pública do sertão sergipano, o Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa, em Nossa Senhora da Glória, 115 km de Aracaju, que passa a contar com a Cordelteca Alda Cruz, com 456 folhetos de autoras e autores de Sergipe e de outros estados.

No lançamento da cordelteca na semana passada, Alda Cruz estava lá. A poeta, professora e cordelista recitou versos e falou da sua relação com o cordel ainda menina em Aracaju. “Recebo com alegria esta homenagem que para mim é muito significativa para a valorização da nossa cultura popular sergipana e para o despertar das novas gerações do cordel e do seu papel educativo. Sou grata por todo este reconhecimento e fico feliz por contribuir com este belo projeto” agradeceu.

Além da comunidade escolar, o evento também foi prestigiado por cordelistas e membros da Associação Cordelista de Nossa Senhora da Glória.

Alda Cruz é acadêmica-fundadora da Academia Sergipana de Cordel (ASC), ocupando a cadeira n° 9 (patrono Otávio Laranjeiras, seu pai). Também é acadêmica-fundadora da Academia São Cristovense de Letras e Artes (ASCLEA), cadeira n° 7. Ela recebeu o título de comendadora de Mérito Cultural do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).

Alda Cruz: uma das grandes cordelistas no Brasil (Foto Kátia Azevedo)

Representação da Mulher no Cordel

A iniciativa de instalar uma cordelteca na escola em Nossa Senhora da Glória é um dos resultados do Projeto Representação da Mulher no Cordel, apoiado pelo Edital Fapitec/SE/Seduc/SE 02/2022, que envolve também uma pesquisa sobre a participação feminina na arte da poesia popular.

Os professores e responsáveis pelo projeto, Jorge Henrique Vieira Santos e Isis Gabrielle Silva da Penha lembraram a importância literária de Alda Cruz. “A escolha do nome dela é uma forma de prestigiar a cordelista mais idosa de Sergipe ainda em atividade, reconhecendo a sua trajetória de vida e produção cordeliana como um valioso tesouro que merece todas as honras e deve estar presente no espaço escolar, para que possa servir de referência e inspiração às novas gerações”, disse Isis.

“Durante o processo desta pesquisa pensamos em utilizar os recursos que a Fapitec nos forneceu para a partir daí adquirir uma quantidade de cordéis para a análise do corpus do estudo, mas depois decidimos organizar uma cordelteca e fizemos uma homenagem a Alda Cruz”, esclareceu o professor Jorge Henrique.

A professora e cordelista Isis Penha, co-orientadora da pesquisa, enfatizou que o espaço da cordelteca tem a proposta de conservar e popularizar a herança literária do cordel de Sergipe e do Brasil fazendo ecoar, em especial, as vozes das autoras brasileiras que permanecem vivas e pulsantes como é o caso da homenageada.

Ela também pontuou que uma das suas reivindicações como cordelista e pesquisadora é a efetivação de ações que contribuam, fomentem o conhecimento e fortaleçam a memória dos que já se foram e dos que estão produzindo o cordel na ativa. “É importante trazer essas pessoas para a escola, para além da educação formal e do livro didático. Por isso escolhemos homenagear a cordelista Alda Cruz para nomear a cordelteca”, disse Isis.

Para os professores, é preciso desconstruir a falácia de que existem poucas mulheres produzindo cordel e os folhetos que compõem o acervo da cordelteca demonstraram exatamente o contrário, revelando uma presença massiva de obras femininas.

Na cordelteca em Glória há uma grande produção de mulheres (Foto Kátia Azevedo)

Política pública e projeto na escola

A professora Isis Penha enfatizou a importância do projeto para a discussão de desafios, como a falta de políticas públicas que garantam a popularização de folhetos de cordel nas escolas. Ela lembrou que é necessário o apoio e compromisso do poder público com projetos e pesquisas que contribuam para a valorização da cultura popular nordestina na escola pública.

A pesquisadora usou como exemplo o fato de que a maioria das escolas não tem folhetos de cordel para a biblioteca e nem professores conhecedores da cultura popular tendo em vista que este tema não é matéria obrigatória nas universidades.

“Temos uma lei que obriga que a escola trate da literatura do cordel, mas na prática não temos acesso ao material e os professores não tiveram esta formação e muitas vezes não conhecem. Então a cordelteca, além de trazer material para a escola, beneficia toda a rede escolar da região, disponibilizando e promovendo visitações e acesso a um rico acervo com 456 folhetos de autoras e autores de Sergipe e de outros estados, realizando oficinas abertas ao público, e seminários no Youtube sobre a literatura de cordel para os professores. Assim contribuímos para a efetivação da lei”, destaca.

A relação entre o cordel e a escola está nos resultados e metodologias do Projeto Representação da Mulher no Cordel apresentados pelo orientador da pesquisa, Jorge Henrique. 

“O projeto foi desenvolvido pela escola a partir do início do ano letivo com a participação de três alunas. A proposta foi investigar a representação da mulher em folhetos de cordel escritos por homens e por mulheres, partindo de duas razões específicas: a primeira considerando que a literatura de cordel se consolidou ao longo dos anos como um espaço eminentemente masculino, entretanto, na última década as mulheres vêm reivindicando o seu lugar de destaque neste tipo de literatura. Além disso, faltam pesquisas que investiguem esta temática da representação feminina no cordel nas últimas décadas”, explica. 

O professor conta que para investigar como a mulher é representada no cordel, a pesquisa se pautou em três linhas teóricas. Os preconceitos e estereótipos da mulher no cordel, a historiografia do cordel numa perspectiva de desterritorialização e os espaços de falas das mulheres no cordel para identificar padrões e diferenças nesta representação feminina. “A ideia é discutir sobre a mulher no papel de autora e como isso reflete no seu empoderamento e na abordagem temática”, disse,

A pesquisa foi descritiva, qualitativa e exploratória com análise de conteúdo textualmente orientada, com seleção de quatro cordéis, dois de autoria masculina e dois escritos por mulheres.

A proposta, de acordo com ele, era tentar responder a três questionamentos: como a mulher é mencionada nos cordéis, como é caracterizada e como esta caracterização se relaciona com a narrativa.

Cordelteca faz parte do Projeto Representação da Mulher no Cordel (Foto Kátia Azevedo)


Estudantes se envolveram no projeto

Para entender este processo, a pesquisa contou com a participação direta de três bolsistas de iniciação científica e estudantes do ensino médio que foram selecionadas para o projeto e compartilham a experiência de pesquisa sobre a popularização do folheto de cordel e a sua relação com o feminismo.

Maria Luiza Silva Santos, de 16 anos, foi uma das bolsistas selecionadas. Ela estudou as narrativas e os espaços de fala feminina nos cordéis. “Foi uma experiência de muito aprendizado. Adquiri mais conhecimento sobre o tema e a respeito do feminismo, um processo muito gratificante e desafiador no qual pude aprender melhor a análise de artigo, participar de palestras, conversar com várias pessoas e fazer parte de encontros de leituras sobre o tema“, conta Maria Luiza.

A também bolsista e aluna do 2º ano do ensino médio, Giulia Meneses Brito Dantas, analisou os estereótipos sobre a mulher nos folhetos de cordéis. “Analisamos a representação da mulher escritora e personagem deste tipo de literatura tanto pela perspectiva de autores femininos como masculinos. A pesquisa também contribuiu para saber mais sobre os folhetos de cordel, um tema que tenho interesse. Quando surgiu a oportunidade de participar da seletiva para a pesquisa não tive dúvida”, afirma a estudante.

A estudante e bolsista Emilly Vitória Canuto Santos, de 17 anos, focou no estudo da historiografia do cordel, identificando que historicamente a relação da mulher com a literatura de cordel é tema pouco abordado e compreendido em alguns períodos.

“A maioria das pesquisas sobre o tema busca a representação feminina no cordel nos séculos XIX e XX. Depois deste período, no século XXI, o assunto é pouco abordado e por isso surgiu o estudo para compreender como as cordelistas estão representadas nas fases históricas mais recentes”, aponta a estudante que também afirma o valor geracional do projeto ao tratar realidades históricas diferentes”, disse Emilly. 

Ela conta que a pesquisa oportunizou um encontro com a obra e vida de Alda Cruz e disse que é importante para as novas gerações compreender o papel das mulheres para a literatura de cordel. “A partir desta experiência tive a oportunidade de adquirir um melhor conhecimento sobre a autora e através da sua obra e história saber mais sobre as mulheres cordelistas. Me apaixonei pela história dela e pelo legado da literatura de cordel no decorrer da trajetória da pesquisa”, comenta a estudante.

Estudantes bolsistas foram fundamentais na pesquisa (Foto Kátia Azevedo)

Reconhecimento do trabalho de pesquisa

Quem esteve no lançamento da cordelteca foi a diretora técnica da Fapitec/SE, Carla Xavier, e a coordenadora do Programa de Comunicação Científica e Tecnológica, Stefani Dias.

“Quando entrei na escola fiquei muito feliz ao ver este projeto. Parabenizamos a toda equipe por esta iniciativa, que revela a riqueza do chão da escola ao promover uma ação que valoriza as nossas raízes culturais. Sergipe é um celeiro de muitas culturas e projetos como estes levam para a sociedade o conhecimento da história e da cultura viva, fortalecendo a nossa identidade e pertencimento cultural”, disse Carla Xavier.

VEJA O VÍDEO DE ALDA CRUZ E O CORDEL “O NEGRO E SUA CONSCIÊNCIA”

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